As apostas no mercado de saúde brasileiro: como será o amanhã?

As apostas no mercado de saúde brasileiro: como será o amanhã?

Renata Simon*

05 de maio de 2021 | 07h30

Renata Simon. FOTO: TADEU BRUNELLI

Antes do COVID-19, ninguém questionava a afirmação de que a expectativa de vida das pessoas estava aumentando. Yuval Noah Harari, autor do best-seller internacional Sapiens, sustenta na sua obra Homo Deus, escrita em 2015, que é possível o ser humano atingir a imortalidade num futuro não muito distante. A pandemia veio na contramão desse pensamento ao apontar a fragilidade não só do sistema imunológico do ser humano, como do sistema público de saúde de todo o mundo.

Além dos efeitos diretos desse vírus, a humanidade sofrerá por décadas os seus efeitos colaterais. Um estudo recente feito nos Estados Unidos[1] aponta que o aumento do desemprego gerado pela crise deve diminuir a expectativa de vida do ser humano e aumentar as taxas de mortalidades, efeitos que serão sentidos nos próximos 15 a 20 anos.  O estudo sustenta que a redução do acesso à planos de saúde privados, diminuição da realização de exames preventivos e o aumento de doenças mentais são alguns dos fatores que contribuirão para o triste cenário.

Diante dessas informações, quais seriam as apostas no mercado de saúde brasileiro?

Antes de qualquer conclusão, é preciso analisar as características únicas do mercado de saúde no Brasil, que adota o modelo do sistema universal e gratuito de saúde, o SUS. A falta de recursos e a sua alocação de forma desigual entre as regiões do país, bem como entre os polos urbanos e rurais, faz com que uma grande parcela da população – quase 50 milhões de beneficiários[2] – tenha planos privados de saúde. Quase 70% dessas contratações são na modalidade coletivo empresarial, ou seja, dependentes diretamente do emprego.

Pressionado pelo aumento da taxa de desemprego no país nos últimos anos, o número de beneficiários de plano de saúde vem diminuindo. Entre 2014 e 2020, tivemos uma redução de 6,4% entre beneficiários de planos privados de saúde[3], ou seja, 3,2 milhões de pessoas deixaram de ter assistência privada.[4]

O número de operadoras de planos de saúde (com beneficiários) também vem reduzindo. Em dezembro de 2010, o número de operadoras de planos de saúde (com beneficiários) era de 1.095, em setembro de 2020 esse número caiu para 717.  A taxa de sinistralidade atingiu patamares altos em 2019 (83,2%), ou seja, de cada R$ 100,00 que os beneficiários dos planos médico-hospitalares pagaram de mensalidades em 2019, cerca de R$ 83,20 voltaram para eles em forma de assistência direta à sua saúde.[5]

Diante desses dados, podemos afirmar que o setor de saúde no Brasil não é para amadores. A diminuição do número de operadoras de planos de saúde e o aumento da sinistralidade são exemplos disso.

Frente ao cenário, o Brasil tem experimentado uma consolidação do setor. O recente anúncio da fusão entre HapVida e Grupo NotreDame Intermédica confirma uma tendência ao maior refino na seleção dos operadores de saúde, deixando apenas aqueles bem estruturados.

Não apenas a consolidação é um forte movimento no mercado de saúde do país, mas a verticalização (em que as operadoras estão constituindo sua própria rede de hospitais e outras estruturas) também tem se mostrado uma estratégia como tentativa de controle de custos frente ao aumento de sinistralidade.

Apesar de recentes estudos apontarem para uma redução da expectativa de vida do ser humano nas próximas décadas, em razão dos efeitos do COVID-19, a população brasileira está envelhecendo rapidamente[6] e, ainda que essa taxa de crescimento sofra uma desaceleração, não será suficiente para frear o envelhecimento populacional e o aumento de doenças crônicas.

Afinal, quais são as apostas no mercado de saúde brasileiro para os próximos anos?

Ainda veremos muita consolidação e verticalização no mercado, com concentração nas grandes redes, com uma atuação nacional e não mais regional. A taxa de cobertura dos planos de assistência médica ainda é muito desigual nos estados[7], mas isso tende a diminuir. Um movimento forte de aquisições em regiões fora do eixo Rio-São Paulo deve ocorrer com maior intensidade nos próximos anos, em busca de uma atuação nacional.

Outros mercados que devem crescer nos próximos anos é o de Home Care, ainda muito pulverizado e informal, frente ao rápido envelhecimento da população brasileira. Além disso, clínicas especializadas, como cardiologia, oncologia, entre outras, devem também apresentar consolidações importantes, já que a atuação ainda é muito fragmentada. Por fim, as healthtechs deverão ter atração forte de investimentos, uma vez que elas têm um papel importante na busca por redução de custos, garantindo eficiência operacional aos hospitais e melhorando os processos internos das instituições.

Esperamos que esses movimentos tragam benefícios aos cidadãos brasileiros, com melhor acesso à saúde e redução dos custos. O governo terá uma atuação importante nessa história. Historicamente, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (“CADE”) tem olhado para o setor de forma muito fragmentada, entendendo como território de concorrência o município ou, às vezes, até regiões menores.  O mercado está mudando e com ele as autoridades devem mudar a sua percepção para permitir esses movimentos de consolidação, mas garantir a permanência de um mercado competitivo. A fusão da Hapvida e Grupo NotreDame Intermédica, atualmente sob análise do CADE, será um bom teste para avaliarmos em que sentido as autoridades se posicionarão.

*Renata Simon, sócia do Candido Martins Advogados

[1] The Long-term Impacto f the Covid-19 Unemployment Shock on Life Expectancy and Mortality Rate (“ O impacto de longo prazo da Covid-19 e do choque de desemprego na expectative de vida e nas taxas de moraidade”), do NATIONAL BUREAU OF ECONOMIC RESEARCH publicado em Dezembro de 2020 e revisado em Janeiro 2021 (https://www.nber.org/system/files/working_papers/w28304/w28304.pdf)2

[2] Fonte: Sistema de Informações de Beneficiários-SIB/ANS/MS. Dados atualizados até 01/2021

[3] Fonte: SIB/ANS/MS – 09/2020. Elaboração: IESS. Dados referentes ao mês de setembro de cada ano.

[4] Fonte: Sistema de Informações de Beneficiários-SIB/ANS/MS. Dados atualizados até 01/2021

[5] Fonte: DIOPS/ANS/MS – 24/08/2020 e FIP – 12/2006. Elaboração: IESS.

[6] Segundo o IBGE, até 2060 o número de idosos no Brasil quadruplicará. 35. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo Demográfico 2010. Rio de Janeiro: IBGE; 2010.

[7] Enquanto a taxa de cobertura dos planos de assistência médica em São Paulo e Rio de Janeiro são superiores a 30%, estados como maranhão, Acre, Tocantins apresentam uma taxa inferior a 10%, segundos dados do Sistema de Informações de Beneficiários-SIB/ANS/MS – 01/2021 e População – IBGE/DATASUS/2012

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