As anotações da mulher de Queiroz sobre ‘dinheiro recebido’ e contatos na polícia

As anotações da mulher de Queiroz sobre ‘dinheiro recebido’ e contatos na polícia

Márcia Oliveira de Aguiar, foragida da Justiça, guardava caderneta e papeis com registros de valores que teriam sido usados para pagar 'em dinheiro vivo' hospital Albert Einstein, em São Paulo, em que ex-assessor de Flávio Bolsonaro se internou, e sobre contatos de miliciano e agentes para ajudar, em caso de prisão

Ricardo Brandt, Fausto Macedo, Pepita Ortega e Caio Sartori

19 de junho de 2020 | 10h47

Em buscas feitas na casa de Márcia Oliveira de Aguiar, a atual mulher de Fabrício Queiroz, o Ministério Público de Janeiro apreendeu documentos com anotações sobre os gastos do ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos/RJ) com despesas hospitalares e também sobre possíveis contatos com policiais e milicianos, caso fossem presos.

Queiroz foi preso nesta quinta-feira, 18, alvo da Operação Anjo. Ele estava escondido em uma chácara que pertence ao advogado Frederick Wassef, homem de confiança do presidente, Jair Bolsonaro, e defensor de Flávio nas investigações sobre “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).

Anotações manuscritas em caderneta apreendida na residência de Márcia Oliveira de Aguiar e os recibos do Hospital Israelita Albert Einstein também comprovam que a mulher do operador financeiro da organização criminosa recebeu pelo menos R$ 174 mil, em espécie, de origem desconhecida e pagou as despesas do hospital com dinheiro vivo“, anotam os promotores, no pedido de prisão de Queiroz e sua mulher. Ela considerada foragida da Justiça.

O ex-assessor de Flávio foi internado para tratamento de um câncer em São Paulo. A internação foi o motivo argumentado pela defesa, na época, para que ele não fosse ao Ministério Público prestar depoimento. Queiroz acabou enviando uma declaração por escrito, no início de 2019, aos investigadores, em que isentou o ex-chefe de responsabilidades nos recebimentos de valores dos assessores da Alerj. E negando irregularidades. Via defesa, Queiroz afirmou na época que pagava o hospital com recursos próprios.

O Grupo de Atuação Especializada de Combate à Corrupção (Gaecc) considera que Flávio Bolsonaro era o líder de uma organização criminosa que atuava em seu gabinete na Alerj – ele foi deputado estadual de 2003 a 2018 -, tendo Queiroz como principal operador financeiro do esquema de arrecadação de parte dos salários dos assessores (‘rachadinha’).

Ministério Público descobriu que em dezembro de 2019, Fabrício Queiroz, sua mulher e o advogado Luiz Gustavo Botto Maia, também ligado ao filho mais velho do presidente e alvo da Operação Anjo, teriam orientado a mãe do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, o Capitão Adriano, Raimunda Veras Magalhães a ficar “escondida”.

Capitão Adriano foi morto pela polícia, em fevereiro, na Bahia, após reagir à prisão. Desde janeiro de 2019, ele tinha prisão decretada na Operação Intocáveis – contra a milícia de Rio das Pedras.

A ex-mulher do Capitão Adriano, Danielle Mendonça da Nóbrega, e a mãe do miliciano eram empregadas no gabinete do filho mais velho do presidente. Juntas as duas receberam R$ 1 milhão em salários da Alerj e devolveram pelo menos R$ 202 mil em transferências identificadas para conta de Queiroz e outros R$ 200 mil ainda não identificados.

Os promotores tentaram localizar Raimunda Magalhães em 2018 e 2019, mas nunca conseguiram entregar a intimação para que ela fosse prestar depoimento. As apurações mostraram que ela estaria em Minas Gerais. Queiroz e a mulher – que não foi localizada nas buscas – tiveram prisão decretada por tentativa de obstrução de Justiça.

Na decisão, o magistrado destaca um trecho da conversar em que sugere que o advogado Gustavo Botto, que foi defensor de Flávio no caso e também atuou como advogado do partido, teria contato com pessoa identificada como “anjo”, antes da reunião com familiares do miliciano. O apelido do defensor da família Bolsonaro foi a origem do nome da operação desta quinta. Botto teria se deslocado no final de 2019 para acompanhar conversa com a mulher do miliciano.

Preso em Atibaia, Fabrício Queiroz estava sem advogado desde dezembro do ano passado, quando Paulo Klein deixou sua defesa. Neste mês, contratou Paulo Emílio Catta Preta, defensor de Brasília, que atuou para o Capitão Adriano. O defensor considerou desnecessária a prisão e deve entrar com pedido de liberdade.

O nome do ex-chefe de gabinete de Flávio na Alerj caiu no radar das autoridades em 2018. Relatório de inteligência financeira, do antigo Coaf (atual Unidade de Inteligência Financeira), listou centenas de operações financeiras suspeitas de políticos, assessores parlamentares, servidores e ex-servidores, relacionadas a 22 núcleos de gabinetes.

São apurados crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, no suposto esquema de “rachadinha” (apropriação de salários de assessores) no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Alerj. Flávio ocupou cadeira na Assembleia de 2003 a 2018.

Fabrício Queiroz. FOTO: NELSON ALMEIDA/AFP

Defesa. A defesa de Queiroz elabora pedido de habeas corpus que será apresentado à Justiça do Rio. O documento terá como principal argumento o estado de saúde de Queiroz, que cuida de um câncer, mas também vai versar sobre aspectos que questionam a necessidade de mantê-lo preso sob o argumento da suposta ameaça às investigações.

Segundo o novo advogado dele, os argumentos para a prisão preventiva de Queiroz são genéricos, ‘ilações’. Há a expectativa de conseguir, no mínimo, uma prisão domiciliar. Apesar de pessoas próximas ao policial militar aposentado dizerem que ele poderia fazer delação caso a mulher e as filhas sejam atingidas, a defesa atual dele não trabalha com esse tipo de medida – e descarta, portanto, que ela seja feita no momento.

COM A PALAVRA, FLÁVIO BOLSONARO

O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, reagiu ao conteúdo do pedido de prisão do ex-assessor Fabrício Queiroz feito pelo Ministério Público do Rio. Em nota, o parlamentar classificou as afirmações como ‘ilações de promotores de injustiça’.

“Trata-se de mais uma ilação de alguns promotores de injustiça do Rio”, informou.

A nota relata ainda que o patrimônio do senador “é totalmente compatível com seus rendimentos e isso ficará inequivocamente comprovado dentro dos autos.”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: