As afinidades eletivas entre o fundamentalismo e o fascismo no Brasil

As afinidades eletivas entre o fundamentalismo e o fascismo no Brasil

Gerson Leite de Moraes*

22 de janeiro de 2021 | 05h30

Gerson Leite de Moraes. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Caro leitor, você, eu e todos os brasileiros, depois de dez meses de pandemia, estamos todos exaustos, mas mesmo assim, urge pensarmos o que nos trouxe até aqui. Há muitas maneiras de explicar as causas desta tragédia sanitária e política no qual estamos envolvidos, e uma delas é a relação entre o fundamentalismo religioso contemporâneo e o fascismo histórico. Sim, no Brasil estes dois fenômenos da modernidade deram as mãos e alimentados por um pensamento mágico, ajudaram a construir este cenário terrível no qual estamos inseridos, ou seja, na maior crise social e política da nossa história recente.

O registro oficial de nascimento do fundamentalismo religioso contemporâneo pode ser datado de 1895. Na verdade, desde a década de 40 do século XIX havia indícios daquilo que viria a ser o fundamentalismo, desde lá então, sempre que um grupo fundamentalista se articula para combater a “modernidade relativista”, geralmente se organiza a partir da ideia de que recebeu uma missão especial de Deus, para salvar o mundo a partir da pureza da interpretação bíblica literalista. No contexto da Guerra Fria, já no século XX, grupos norte-americanos investiram pesado na América Latina, despejando muito dinheiro em igrejas evangélicas dispostas a combater o “comunismo ateu”, através da interpretação fundamentalista da Bíblia. Em troca, pastores e leigos recebiam treinamento ideológico nos EUA e formação cultural dada através de mestrados e doutorados, geralmente realizados em guetos ideológicos, sem nenhuma credibilidade acadêmica.

O fundamentalismo religioso é um mal que assola silenciosamente o Brasil há décadas, mas só recentemente ouvimos os seus berros intolerantes. Instalado no interior do movimento evangélico brasileiro, o fundamentalismo, com sua perspectiva de retorno aos fundamentos bíblicos, assume uma postura antimoderna, mas usa de forma paradoxal todos os recursos tecnológicos e políticos para atingir seus objetivos. Eles usam das conquistas tecnológicas da modernidade para atacar e destruir a própria modernidade, exatamente como o fascismo faz com a democracia, pois vale-se dela para chegar ao poder, mas lá instalado, usa de todos os recursos possíveis e imagináveis para acabar com o regime democrático. É interessante perceber que num determinado momento, o fundamentalismo deixa de ser um movimento somente religioso e se espraia no campo da cultura e da política. E é exatamente aqui que ele se encontra com o fascismo. Entre as muitas características deste nefasto movimento político nascido na Itália de Benito Mussolini, estão, o nacionalismo exacerbado, o racismo, o culto ao líder, o culto ao Estado, o antiesquerdismo, o antiliberalismo, a valorização do passado e da tradição, o corporativismo e o organicismo. Eu gostaria de destacar apenas três destas características, que mostram as afinidades eletivas entre o fundamentalismo religioso contemporâneo e o fascismo histórico.

A primeira é a romantização idílica do passado e da tradição. Para fundamentalistas e fascistas, o passado ideal é algo a ser recuperado, ele serve como um farol, os dias de hoje são ruins porque abandonou-se os valores de outrora. No caso dos fundamentalistas, o mito fundante está nos séculos XVI e XVII período de grandes transformações religiosas, já os fascistas veneravam os dias de glória do poderoso Império Romano. Abandonando as idiossincrasias e crises, o passado idealizado, e, portanto, acrítico, é a chave que abre a porta para um futuro feliz e glorioso, na visão dos reacionários.

Uma segunda característica que une fundamentalistas e fascistas é que ambos são antiesquerdistas. Numa simplificação aterradora, os propugnadores do fundamentalismo e do fascismo têm um prazer mórbido e sádico em rotular seus críticos como representantes da esquerda ateia. Geralmente rasos em história, os reacionários ignoram a pluralidade de ideias e perspectivas no campo da esquerda. Combater o comunismo transforma-se num mantra que mobiliza os esquadrões do conservadorismo delirante. O menor desvio daquilo que eles consideram como verdade absoluta já basta para ser enquadrado como ideologia comunista.

Em terceiro e último lugar, pode-se dizer que há nos dois movimentos a necessidade de encontrar um líder para ser adorado. Na Itália fascista, o Duce (aquele que dirige) era o líder supremo, o mito que dava a direção para os seus comandados. No fundamentalismo religioso, Jesus geralmente é aclamado como o grande líder, mas na verdade, os fundamentalistas seguem de fato, os pastores que viraram celebridades por serem televangelistas ou youtubers da internet. Fundamentalistas e fascistas possuem a mesma lógica de funcionamento e no Brasil esta aproximação se deu por meio de uma teologia política fomentada pelas mídias sociais. Há muitas outras coisas que precisam ser ditas, mas falta-nos espaço e tempo para isso, nesta coluna. Elas ficarão para um outro momento. Não tenho dúvida de que muitas pessoas aderem a estes movimentos de maneira irrefletida, exatamente por não conhecerem suas raízes, por isso é necessário discuti-los e explicitá-los, pois somente assim veremos, num futuro próximo, uma solaz aragem na sociedade brasileira. A intolerância precisa ser combatida tanto na política como na religião.

*Gerson Leite de Moraes é teólogo e doutor em Filosofia pela Unicamp

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