Arma serve para matar

Arma serve para matar

José Renato Nalini*

26 de julho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O que se gasta no planeta com armamento seria suficiente para a resolução de quase todas as questões urgentes, que ameaçam o futuro da humanidade. Sei que sou atípico e radical nesta área. Um instrumento que serve para matar, sequer deveria ser fabricado.

As tecnologias disponíveis podem conceber outras fórmulas de neutralização dos que devam ser obstados de praticar violência. Já existem armas não letais, que podem paralisar, aplicar descarga elétrica insuficiente para tirar a vida e outras ainda podem ser inventadas ou desenvolvidas.

O poder de persuasão da indústria armamentista seduz muitas mentes. Em regra, aquelas afeiçoadas à violência, que pretendem resolver tudo com a força e que não hesitam na adoção de táticas de morticínio, que justificam sempre com uma retórica edificante.

Conheço indivíduos que só se consideram protegidos quando armados. O revólver, a pistola, a garrucha, e outros que tais, constituem uma extensão de seus membros. São corajosos, destemidos, pretendem-se invulneráveis, porque levam consigo essa ferramenta que mata.

Aplaudem a política do “liberou geral”, que contraria um Estatuto do Desarmamento e que, para eles, só serve para “deixar indefesos os honestos”, enquanto a bandidagem tem acesso a todas as espécies de instrumentos mortíferos.

Eles levam a melhor. Numa sociedade egoísta e autocentrada, com a ressurreição do mito do “amigo/inimigo”, é fácil propalar que em cada lar deva existir ao menos uma arma, para rechaçar os criminosos.

Por coincidência – será mesmo coincidência? – em 2020 o Brasil registrou seis mil mortes violentas de crianças e de adolescentes. A cada dia, cerca de dezessete ocorrências dessas em que o futuro foi aniquilado. Impediu-se alguém de chegar à maturidade. À evidência, o maior número é de jovens negros.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou a nefasta cifra de 12.034 brasileiros que não chegaram a se tornar adultos, por causa de uma violência dolosa. O perfil das vítimas é de crianças e adolescentes do sexo masculino e negros. O homicídio doloso foi o crime que mais matou quem estava abaixo de dezenove anos. Foram 82,4% dos casos. Ceará, Rio Grande do Norte, Sergipe e Pernambuco, os Estados com a maior incidência desses crimes.

Para especialistas, o aumento de mortes de crianças ocorreu na pandemia, quando elas perderam o contato com a escola, o local ideal para o desabafo. O canal por excelência da escuta é a escola. Sem aulas, tiveram de permanecer em casa e os episódios de violência doméstica também aumentaram. Muito desemprego, muita miséria, mas também muito álcool e outras drogas. Tudo a contribuir para um clima de verdadeiro perigo para os mais indefesos.

Mas também os adultos morreram mais e de forma violenta inclusive. São Paulo, que vinha registrando quedas significativas nas taxas de homicídio, viu que elas cresceram no último ano.

Há muitas explicações. Elas coincidem ao considerar a pandemia um fator agravante. O distanciamento social forçou as pessoas a permanecerem mais em casa. O desemprego gerou redução do orçamento do lar. Onde falta pão, sobra incompreensão.

Mas muitas mortes teriam sido evitadas se não houvesse a propagação do uso de arma de fogo. A facilidade no manuseio faz com que ela seja a primeira resposta quando da impulsividade.

A miséria não é o fator predominante no crime de homicídio. Assim fora e o Brasil não teria assistido, com espanto e horror, à morte do garoto Henry Borel, de apenas quatro anos, no Rio de Janeiro. Antes de ser morto, sofreu vinte e três lesões. Havia escoriações e hematomas, infiltrações hemorrágicas em três regiões da cabeça, laceração no fígado e contusões no rim e no pulmão à direita, além de inúmeras outras provas de maus-tratos. Isso ocorrera tempos antes do dia fatal em que foi assassinado, ao que tudo indica, pela mãe e pelo namorado dela.

A maldade do bicho-homem é algo ínsito à sua natureza. Por isso é que não se deve brincar com a espécie, dando a ela apetrechos que matem. Embora se autoconsidere o único animal racional dentre os seres vivos, o ser humano é também o único a se portar de maneira cruel, perversa, desalmada. Mas para uma criatura desalmada, é melhor que esteja também desarmada.

Morrer, todos morrem. Por que antecipar aquilo que virá naturalmente, pois esse o destino dos vivos?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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