Argello disse que estava ‘à disposição’ das empreiteiras, diz testemunha

Argello disse que estava ‘à disposição’ das empreiteiras, diz testemunha

Executivo da Andrade Gutierrez relatou à Justiça que, durante encontros em Brasília, então senador, alvo da Lava Jato, alertou que CPIs da Petrobrás, em 2014, poderiam provocar 'impacto' nas atividades das construtoras

Julia Affonso, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

19 de agosto de 2016 | 10h50

Gim Argello está preso na Lava JAto. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Gim Argello (esq) está preso na Lava JAto. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O executivo Gustavo Xavier Barreto, diretor de relações institucionais da Andrade Gutierrez, declarou à Justiça Federal que, em 2014, participou de um almoço com o então senador Gim Argello (PTB/DF), em Brasília, no qual o político falou do ‘rito das audiências públicas’ das CPIs da Petrobrás e que empreiteiras eventualmente convocadas para esclarecimentos poderiam sofrer ‘impacto’ em suas atividades.

Segundo Barreto, também participou do almoço o então senador Vital do Rêgo, hoje ministro do Tribunal de Contas da União (TCU).

Barreto depôs como testemunha arrolada pela acusação no processo contra Gim Argello, preso na Operação Vitória de Pirro, desdobramento da Lava Jato que investiga a blindagem de empreiteiros que, em troca de propinas milionárias, não foram convocadas por duas CPIs abertas na ocasião, uma no Senado, outra Mista, para investigar esquema de corrupção na Petrobrás.

O depoimento do executivo foi prestado ao juiz Sérgio Moro, por vídeo conferência.

Barreto disse que, no almoço, Gim Argello abordou o tema CPI. Neste momento, ‘demonstrou preocupação com o empresariado e se colocou à disposição, deixando a impressão que poderia ajudar’.

Vitória de Pirro acusa Argello de tomar R$ 5 milhões da UTC Engenharia e R$ 350 mil da OAS. A primeira parte foi destinada a quatro partidos políticos da coligação indicada pelo então senador. O restante foi parar na conta de uma paróquia de Taguatinga (Distrito Federal), frequentada por Argello.

“No decorrer do almoço, ele falou das Comissões (CPIs) e disse ‘estou à disposição se precisar de alguma coisa nesse sentido”, relatou a testemunha.

“O senador Gim começou a falar (das CPIs), eu não tenho a precisão se já estava instalada a CPI, mas ele falou sobre a perspectiva de funcionamento da CPI. Era ano eleitoral, falou da dinâmica dos trabalhos, falou do rito de audiências públicas, considerando o calendário eleitoral e qual deveria ser o tempo do funcionamento da CPI.”

Barreto relatou também um segundo encontro com Argello e Vital do Rêgo, desta vez no gabinete do segundo, ainda no Senado. Também estava na reunião o empreiteiro Otávio Marques Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez.

“Depois daquele almoço, creio que uns quinze dias depois, o Otávio veio a Brasília e disse que tinha uma audiência à tarde com o senador Gim. Esse encontro foi com o senador Vital, no gabinete do senador Vital. Só os dois, eu e o Otávio. Nesse momento já era período de campanha eleitoral. Foi falado sobre o eventual apoio que a empresa daria prá campanha, não é?”, relatou o executivo.

Segundo a testemunha, Otávio Azevedo ‘mostrou que a Andrade Gutierrez não teria preocupação porque ela não era foco da investigação e naquele momento não faria sentido (a empreiteira) preocupada com CPI’.

“Em algum momento, Gim disse a Otávio ‘você poderia me colocar em contato com outras empresas’. Otávio meio que saiu de lado, mostrando que a Andrade não tinha porque ter preocupação maior. Ele (Otávio) disse que, na questão eleitoral, já havia uma programação da empresa para doação aos partidos dos quais os senadores eram integrantes”, contou Gustavo Xavier Barreto.

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