Árduo caminho pela frente

Árduo caminho pela frente

José Renato Nalini*

05 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Os perigos que rondam a humanidade chegaram a um ponto crítico neste 2021 da peste. A pandemia não é o maior problema. Faz parte de uma situação de risco em que o maior desafio é o aquecimento global. Crescimento desordenado da população, uso irresponsável dos recursos naturais, desperdício e ignorância, tudo aliado a uma cupidez irrefreável, fizeram do mundo um lugar ameaçado.

Há muito tempo os cientistas alertaram sobre a gravidade da situação. Advertências que não geraram comoção, nem impediram a persistência de práticas nefastas. Inúmeras reuniões, convenções, conferências e acordos são firmados, mas não se nota resultado benéfico. O estado atual do globo continua a evidenciar sua fragilidade. Ocorrências extremas e raras são cada vez mais extremas e menos raras.

Enquanto o mundo civilizado passou a encarar com seriedade a questão, o Brasil continuou a perpetrar uma política ecocida e suicida, exterminando a última grande floresta tropical do planeta, desmontando as estruturas de proteção ambiental lenta e gradualmente construídas durante décadas de bom governo, aliando-se a grileiros, invasores, criminosos e dendroclastas. Não satisfeito, passou a punir quem teve coragem de se opor a essa política nefasta e a prestigiar os inimigos da natureza.

A reação veio do setor privado. Em pesquisa levada a efeito pelo UBS-BB-Global Banking, entre mais de cinco mil investidores, apurou-se que 70% apreciariam que seus investimentos perfilhassem a sustentabilidade. O Barômetro de Confiança Edelman também registrou 97% dos consumidores desejosos de que as marcas preferidas se engajassem em causas sociais.

Falta a regulação das “finanças verdes” e, nesse ponto, iniciativa dos Professores José Maurício Conti e Estevão Horvath, ambos titulares da disciplina Direito Financeiro na Faculdade de Direito da USP, com a contribuição do Professor Vladimir Passos de Freitas e deste escriba, foi um passo importante neste semestre que ora termina. O Departamento de Direito Financeiro ofereceu a oportunidade de uma discussão sobre o seu campo e o Direito Ambiental e muitas questões afloraram, a exigir mais reflexão e regulamentação.

Imprescindíveis incentivos para acionar a cadeia sustentável, impedir o greenwashing, que significa apropriar-se de um conceito e só adotá-lo para fins de marketing, numa falaciosa adesão que não significa a mínima intenção de sua observância. Foi muito comum quando em voga a “grife verde”. Empresas se autointitulavam ecológicas e eram poluidoras, perpetravam as práticas mais miseráveis e tudo foi descoberto.

A cultura ESG é a resposta possível para um estágio que ultrapassou qualquer limite. Quando se presta atenção ao que está acontecendo no globo, com chuvas intensas numa região e seca em outra, o aquecimento das águas marinhas, a morte dos corais, a perda da biodiversidade, os incêndios provocados e a drástica redução do verde, não é difícil concluir que discursos fátuos significam mais do mesmo. Ou seja: convite ao advento do caos.

A conversinha do governo e dos empresários que ainda consideram ser o lucro o único objetivo de sua empresa, é a de que não pode haver exageros, nem sacrifícios demasiados. Ninguém perguntou à natureza se ela estava satisfeita com a exploração insensata de seus recursos finitos. A festa foi boa enquanto durou. Quem vai se encarregar de seus custos?

A ciência está aí para compatibilizar os interesses. Para mostrar ao setor do agronegócio que, a curto prazo, não haverá negócio se não houver respeito à natureza. Primeiro, porque os compradores de nossas comodities não vão querer produção antiecológica, resultante de desmatamento ou uso abusivo de herbicidas. Depois, porque a terra extenuada se recusará a devolver o que nela se investiu de forma insana.

O que foi excessivo foi o mau uso. Não cabe falar em “exigências excessivas” de conformidade com o ideal ESG. À época das “vacas gordas” para os shareholders, sobreveio a urgência de ouvir os stakeholders, um círculo cada vez maior de interessados na sobrevivência da vida neste combalido pequeno astro, que veio a ser ocupado por uma espécie tão singular. É hora de contenção, de repensar as finalidades dos negócios, inverter a lógica do consumo e reconhecer que a vida é cada vez mais débil e efêmera.

Não há inocentes no cenário de destruição da natureza. Mas o capital consegue ser mais lógico e mais racional do que o governo, que não tem compromisso com nada, a não ser com a matriz da pestilência, chamada reeleição. Vamos pensar nisso e fazer algo que reverta em favor do porvir, diante do compromisso que temos para com as futuras gerações. Afinal, somos parte da solução, ou insistiremos em tornar a cada momento mais grave a situação, o que nos torna parte integrante e eficiente do problema?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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