Aras admite ter assinado sem ler carta a favor da ‘cura gay’ e diz que cada cidadão tem o direito a ‘escolher seu gênero’

Aras admite ter assinado sem ler carta a favor da ‘cura gay’ e diz que cada cidadão tem o direito a ‘escolher seu gênero’

Subprocurador-geral é sabatinado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado

Renato Onofre, Daniel Weterman e Breno Pires/BRASÍLIA e Luiz Fernando Teixeira /SÃO PAULO

25 de setembro de 2019 | 12h43

Augusto Aras durante a sabatina no Senado. Foto: REUTERS/Adriano Machado

O subprocurador da República Augusto Aras admitiu, em sabatina no Senado, que assinou sem ler um manifesto da Associação de Juristas Evangélicos que defende ‘valores cristãos’ e a ‘cura gay’ e não reconhece famílias constituídas a partir de relações homoafetivas. O caso, revelado pelo Estado, se tornou a primeira ‘casca de banana’ a Aras que encontrou um clima favorável no início da sessão que analisa a sua indicação ao comando Procuradoria Geral da República.

Ele foi questionado pelo senador Fabiano Contarato (REDE/ES). “Eu sou delegado de polícia há 27 anos, eu sou professor de Direito há 20, estou senador da República. Eu tenho muito orgulho da minha família, eu tenho um filho. O senhor não reconhece a minha família como família? Eu tenho subfamília? Porque esta carta diz isso, senhor procurador. E diz mais: estabelece cura gay. Eu sou doente, senhor procurador?”, indagou o senador, aplaudido por colegas como Renan Calheiros (MDB-AL) e Randolfe Rodrigues (REDE-AP).

A carta assinada por Aras foi revelada em reportagem publicada no último dia 10. O documento expõe argumentos contra questões como o aborto, sobre tributação de igrejas, sexualidade, refugiados e ensino, entre outros temas. Entre eles o reconhecimento de família, na esfera pública, composta por uma união homoafetiva. “A instituição familiar deve ser preservada como heterossexual e monogâmica.”

“Não quero dizer a vossa excelência e nem a ninguém que não tenha família”, afirmou Aras. O subprocurador disse que ‘não leu a pauta inteira’ que assinou da Associação de Juristas Evangélicos.

“Minha única ressalva é de ordem formal. Eu me sentiria muito mais confortável, por mim e por meus amigos e amigas que têm casamento em todos os sentidos com pessoas do mesmo sexo, com uma legislação e com uma norma que eu não leia ‘homem e mulher’, mas leia ‘pessoa, cidadão, cidadã’.”, afirmou Aras.

“A nossa dificuldade aqui e meramente formal. No mais, os meus respeitos à vossa família, aos vossos filhos, que são tão iguais quantos os meus, de hipótese alguma. E nem acredito em cura gay também.”, completou o subprocurador.

Nas respostas, Aras defendeu que, no tema identidade de gênero, “cada cidadão possa escolher, na idade adequada, sem influência de quem quer que seja, fazer sua opção de gênero. A tese é contrária a que defende Bolsonaro que fez da ‘ideologia de gênero’ uma das bandeiras eleitorais.

Contarato rebateu a classificação como uma ‘opção’. “Quero fazer uma correção. Ninguém me deu o cardápio para eu escolher o que ser ou não. Isso é condição”. Após as falas, os dois se cumprimentaram na mesa da CCJ.

Os demais senadores, nem mesmo o único petista a falar na primeira hora, Rogério Carvalho (PT-SE), hora deixaram de elogiar o nome de Aras. O clima favorável fez com parte dos 19 parlamentares inscritos deixassem de falar. O senador Wellington Fagundes (PL-MT) chegou a entregar as perguntas a presidente da CCJ, senadora Simone Tebet (MDB-MS), para que fossem feitas depois.

A situação pró-Aras levou a presidente da CCJ, a pedido dos senadores, abrir o painel de votação para que os parlamentares que quisessem votar saíssem antes de terminar a sabatina.

O governo não mandou nenhum representante. Nem mesmo o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), compareceu nas primeiras horas de sabatina. O senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) ficou pouco mais de 40 minutos, votou, e abandonou a sessão no período da manhã.

Família. Augusto Aras chegou ao Senado acompanhado da mulher, a subprocuradora-Geral da República, Maria das Mercês de Castro Gordilho, e dois assessores de imprensa apenas dez minutos antes do horário previsto para sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), marcada para às 10h. Sem falar com a imprensa, se dirigiu ao Plenário 2.

Os primeiros senadores a dirigir os questionamentos a Aras – Eduardo Braga (MDB-AM), Esperidião Amim (PP-SC), Rogério Carvalho, Marcos Rogério (DEM-RO) e Major Olimpio (PSL-SP) – elogiaram o nome e fizeram perguntas confortáveis. Apenas Contorado o criticou.

O Plenário 2 da CCJ, que tem espaço para 68 pessoas sentadas ficou lotado durante toda a manhã. Pelo menos 30 senadores passaram pela sala, além de deputados da bancada da Bahia, que estavam acompanhados do presidente do Tribunal de Justiça local; o corregedor do Conselho Nacional de Justiça, Humberto Martins; e representantes de outros órgãos ligados à Justiça.-

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