‘Aqui quem não é tratado assim é delator’, disse agente, segundo Cabral, sobre algemas

‘Aqui quem não é tratado assim é delator’, disse agente, segundo Cabral, sobre algemas

Ex-governador do Rio prestou depoimento em inquérito sobre a imposição de algemas na data em que foi transferido para o Complexo Penal de Pinhais

Luiz Vassallo

10 Maio 2018 | 15h27

Sérgio Cabral. 19/01/2018 – Foto: CASSIANO ROSÁRIO/FUTURA PRESScabral

‘Ou você é delator, ou entre na Justiça’, diz ter ouvido o ex-governador Sérgio Cabral do chefe da carceragem da PF em Curitiba, quando teria questionado o uso de algemas para ser levado ao IML. O emedebista prestou depoimento em inquérito que apura suposto abuso de autoridade na imposição do uso das correntes e algemas, em janeiro, quando foi levado para fazer exames no IML antes de ser concluída a sua transferência para a cadeia da Lava Jato em Curitiba.

Cabral afirmou, em depoimento ao juiz federal Ali Mazloum, no dia 19 de abril, na sala de sessões do Plenário do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, que chegou a questionar o uso de algemas na ocasião. “Mas como ‘determinação’? Que loucura é essa?”

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“Aí a funcionária inspetora do Depen e o chefe da carceragem disseram: “Aqui quem não é tratado assim é delator. Delator é tratado de outra maneira. Se você quiser não ser tratado assim, entre na Justiça”. Ele quis dizer: ou você é delator, ou você entre na Justiça”, relatou.

Documento

O emedebista, que acumula 100 anos de prisão em condenações, foi transferido para o no dia 18 de janeiro do Rio para Curitiba, por determinação do juiz Sérgio Moro, após terem sido constatadas supostas regalias em sua cela na Cadeia Pública de Benfica e em Bangu 8.

Ao chegar em Curitiba, ele passou uma noite na carceragem da PF, e, no dia seguinte, foi encaminhado ao IML para exames antes de ser efetivada a transferência ao Complexo Médico Penal, em Pinhais. “Aí veio o inspetor e disse: “Pegue suas
coisas porque você vai fazer o IML e, do IML, você vai para o CMP”, para o Centro Médico Penal, em Pinhais. Eu peguei as coisas”.

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“Ali fiquei. Recebo a informação da inspetora de que eu iria colocar algemas. E chega o chefe da carceragem para me colocar as algemas junto com o outro policial federal. Eu falei: “Nunca fui tratado aqui assim. Já vim aqui duas vezes. Em lugar nenhum, sou tratado assim. Por que isso?” “São normas”, narrou.

 

O emedebista narrou ao juiz federal ter sentido dores enquanto foi conduzido, algemado, ao IML. “Falei que estava machucando para esse chefe da carceragem. Ele me segurou e falou: “Isso é procedimento de segurança, anda mais devagar.”Apertou o meu sinto e falou para eu andar mais devagar”.

O emedebista também negou ter regalias na cadeia do Rio de Janeiro e disse ter se sentido ‘sequestrado’ para Curitiba.

“No próprio dia 17, por volta das duas e meia, três da tarde, estavam me transferindo do Presídio de Benfica. Eu, sinceramente, me achei sequestrado. A minha sensação era de sequestro”, contou.

 

O inquérito que apura o uso de algemas na transferência de Cabral foi instaurado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu o arquivamento do inquérito.

Dodge, ao se manifestar, atacou a decisão de Gilmar Mendes, em quatro pontos. Afirmou que a lei não permite que um ministro determine a abertura de inquérito sem que isso tenha sido pedido pelo Ministério Público.

Pontuou ainda que o ministro não se poderia denominar relator do caso. Afirmou que não há presença de autoridade com foro privilegiado para determinar a abertura de investigação no Supremo. E acrescentou que já há uma investigação no Paraná sobre os mesmos fatos.

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