‘Aquele nosso combinado chegou só R$ 4,7 mil’

‘Aquele nosso combinado chegou só R$ 4,7 mil’

Áudio da Operação Sarcófago, da Polícia Federal, pegou o prefeito André Maia (PSD), do pequeno município de Senador Guiomard, ouvindo a reclamação de um homem sobre o valor de propina entregue em uma funerária no Acre

Julia Affonso

14 de dezembro de 2018 | 11h26

Foto: PF

Um áudio de cerca de 30 segundos pegou o prefeito do pequeno município de Senador Guiomard, no interior do Acre, André Maia (PSD)preso nesta quinta-feira, 13, na Operação Sarcófago -, ouvindo a reclamação de um homem. O interlocutor do prefeito pleiteava o valor de R$ 5 mil de propina supostamente acordada e paga em uma funerária.

Ouça a reclamação

A investigação da Sarcófago mira um esquema de compra de favores, apoio político e desvio de verbas públicas da Prefeitura. Além do prefeito André Maia, o secretário de Finanças do município, um advogado, um pregoeiro e o controlador-geral do município foram presos pela PF.

“Fala, presidente”, diz o prefeito no início da ligação.

“Boa tarde, Excelência, tudo bom?”, responde o interlocutor. “Deixa eu lhe falar. Aquele nosso combinado chegou só R$ 4,7 mil, não chegou os cinco não.”

“Então, vou já. Já ligar lá, mas foi certinho. Foi acidente, descaminho”, afirma o prefeito.

“Tá”, diz o interlocutor.

“Mas deixa eu chegar quinta pra ver o que aconteceu”, responde André Maia. “Pessoalmente.”

“Tá beleza, então. Tu me avisa”, afirma o homem.

“Mas deu certo, né?”, pergunta o prefeito.

“Deu”, responde o interlocutor.

“Mais ou menos, fora isso (risos)”, diz o prefeito

“É, saiu parcial, né”, afirma o interlocutor.

Senador Guiomard tem cerca de 23 mil habitantes. O município fica a 50 minutos da capital Rio Branco.

Segundo a investigação, o esquema de governança municipal baseava-se na compra de favores e apoio político, envolvendo empresários regionais, funcionários públicos, advogados e vereadores de Senador Guiomard e região. A Polícia Federal identificou que licitações estavam sendo fraudadas, mediante o direcionamento das contratações e superfaturamento de aproximadamente R$ 5 milhões.

Foto: PF

Foto: PF

Foto: PF

Foto: PF

Os investigadores identificaram um ‘mensalinho’ de R$ 3 mil para os 6 vereadores da base aliada da atual administração de Senador Guiomard. O objetivo, segundo a Federal, era a compra de apoio político na câmara do município.

A Sarcófago aponta ainda o enriquecimento ilícito de funcionários do alto escalão, em face da existência de bens e transações em nome de ‘laranjas’.

A PF nomeou a operação de Sarcófago por causa do pagamento de propina dentro da funerária. O valor foi recuperado pelos investigadores durante a ação desta quinta.

A Federal fez buscas na prefeitura, na Câmara de Senador Guiomard e nas residências e empresas dos políticos e empresários envolvidos. Os agentes apreenderam documentos, mídias e valores.

COM A PALAVRA, A PREFEITURA DE SENADOR GUIOMARD

A reportagem tentou contato com a Prefeitura de Senador Guiomard. O espaço está aberto para manifestação.

Foto: PF

Foto: PF

Foto: PF