Aprender a ser humano

Aprender a ser humano

Mario Sergio Cortella*

09 de julho de 2020 | 07h00

Mario Sergio Cortella. Foto: Tomás Arthuzzi / Nova Escola

Nós, seres humanos, podemos construir a nossa trajetória baseada em dois lemas bastante distintos: “cada um por si e Deus por todos” ou “um por todos e todos por um”. 

A ideia do “cada um por si e Deus por todos” ou variações a depender da crença – “cada um por si e a vida que decida” ou “cada um por si e o acaso que nos proteja” – é uma possibilidade. E sua adoção como conduta pode até ser facilitada em tempos mais tranquilos. Quando não há alguma perturbação mais forte, a noção do “cada um por si”, fica até mais palatável. 

Essa é uma escolha. Convém lembrar, entretanto, que a Humanidade, em sua trajetória até aqui, só conseguiu sobreviver, em grande medida, pela capacidade de cooperar, de trabalhar junto, de colaborar. Outras espécies eram mais fortes, mais resistentes, mais velozes do que a nossa. Contudo, nós conseguimos desenvolver maneiras de nos proteger como uma comunidade de vida.

Claro que existe a competitividade, a disputa, o enfrentamento. Especialmente em momentos de agudização de dificuldades, pode prevalecer a atitude de priorizar o interesse individual, “eu me virando, depois vejo o que posso fazer pelo outro, se é que posso fazer algo”. Essa postura pode até ser protetiva no ponto de partida, mas não é suficiente para a jornada. 

Nós não podemos abrir mão da nossa grande habilidade gregária, do nosso sentido de cooperação. Nós, humanos e humanas, precisamos ter companhia, sermos capazes de partilhar a vida, o pão, a jornada. Há um ditado, que circula em países da África, que é muito marcante: “Se quiser ir apenas rápido, vá sozinho. Se quiser ir também longe, vá com alguém”. 

Muitos podem argumentar: “Ah, mas essa é uma visão romântica. Como é possível esse nível de convivência, se às vezes é difícil até conversar?”. Cabe observar que a neutralidade é uma impossibilidade na comunicação. O que devemos buscar é a objetividade. Num diálogo, não seria possível supor a neutralidade, porque, obviamente, eu trago todos os meus conceitos, as minhas ideias, as minhas convicções, os meus conhecimentos. E a outra pessoa também. Nenhuma e nenhum de nós é neutro numa relação dialógica. Mas, eu devo me esforçar na busca da objetividade e o primeiro passo para isso é ter a clareza daquilo que eu penso, daquilo que em mim pode ser um “pré-conceito”, um “pré-juízo”. Assim como o meu interlocutor tem a bagagem dele. 

Mas, quando nós estabelecemos contato, eu preciso ter generosidade para abrir mão momentaneamente daquilo que penso e me dispor a acolher aquela ideia que é divergente. Por outro lado, eu devo ter permeabilidade e inteligência para perceber que posso melhorar aquilo que penso e sou, quando recebo algo capaz de aprimorar meus pensamentos, minhas ideias e as intenções que carrego. Nesse sentido, o diálogo é muito mais decente, sincero e proveitoso. Afinal de contas, essa predisposição me ajuda a não ser dominado por aquilo que já pensava e a estar aberto àquilo que posso vir a pensar. Ou ainda obter a confirmação de que devo continuar na mesma rota em que eu estava. 

Daí o valor da diversidade. Se nós fôssemos os mesmos ou as mesmas o tempo todo, teríamos uma restrição imensa do nosso repertório de soluções para a vida. 

Qual é o segredo da vida, em geral? A Biodiversidade. Qual é o segredo da vida humana, em especial? A Antropodiversidade, isto é, a diversidade humana. Não podemos perder a perspectiva de que a diversidade é um grande bem para a nossa existência. Ela é um patrimônio e não um encargo. Embora, vez ou outra, o fato de termos de existir com outras pessoas possa parecer um encargo, trata-se de algo a ser manejado com inteligência, compaixão, fraternidade. Essa conjunção de atributos permite que sejamos capazes de fazer com que a convivência se torne um pecúlio, e não um fardo. 

Desse modo, vamos na vida com pessoas que têm religiosidades diferentes, sexualidade de um modo específico, um determinado posicionamento político, etnias e origens distintas, e tudo isso nos faz companhia, aumenta as nossas referências, amplia o nosso repertório. 

A outra pessoa permite que eu entenda algo especial: não há ninguém como eu no universo. Nem alguém exatamente como você. Cada pessoa é única. Eu sou único, mas, atenção, eu não sou o único. Tal como eu sou único, outras pessoas também o são, cada qual a seu modo. Se queremos caminhar juntas e juntos, teremos de lidar com essa diversidade.

Esse é um horizonte possível e deve ser buscado. O educador Paulo Freire usava expressão “inédito viável” para designar aquilo que ainda não é (por isso, inédito), mas que pode vir a ser (por isso, viável). Nós temos um inédito viável, que é não permitir o apequenamento da vida, recusar qualquer forma de violência evitável e cultivar uma sociedade que seja pautada por uma vida de paz. 

Por isso, a cada pessoa que use a expressão “cada um por si e Deus por todos”, tenho esperança que haja a substituição pela adoção do “um por todos e todos por um”, na busca da vida plena e da aprendizagem em sermos, juntos e juntas, humanas e humanos.

*Mario Sergio Cortella é filósofo e doutor em Educação, professor, escritor e palestrante; autor do livro “A Diversidade: Aprendendo a Ser Humano”, pela Littera Books.

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