Aprenda e viva ESG

Aprenda e viva ESG

José Renato Nalini*

24 de julho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

O discurso ESG chega a todos os ambientes. A lucidez que orienta o mercado fez ver aos inteligentes que o planeta não suportará mais a insanidade que acometeu a quase todos. Desmatamentos, incêndios, poluição, cultura do descarte e do “salve-se-quem-puder”, é uma carga excessiva para um organismo frágil como a Terra.

Ou a humanidade se converte e passa a atuar de maneira madura e séria, ou o planeta poderá continuar a existir, mas desprovido das condições favoráveis ao desenvolvimento de qualquer espécie de vida em sua superfície.

A iniciativa privada, que não tem por ela o erário, com o suado fruto da arrecadação exigida de um contribuinte farto de ver a administração pública dispendiosa e ineficiente a prosperar, foi a mais comovida com a mensagem. As empresas comandadas por pessoas lúcidas começaram a cuidar, simultaneamente, do ambiente, da redução das desigualdades sociais e da governança corporativa.

O capital já possui governança corporativa apta a produzir resultados. O difícil será fazer com que a administração pública, tão contaminada por corporativismos, ranços anacrônicos, inércia e ignorância entranhadas, possa aderir a um projeto que reclamará automutilações drásticas. Não é possível que a máquina estatal, paquidérmica e em grande parte inútil, continue a crescer, vegetativa e impunemente, até o infinito.

Que falta faz uma Democracia Participativa, que fosse o cenário de atuação de uma cidadania crítica, bem formada, fruto de uma educação de qualidade, para cobrar compostura em todos os níveis do governo. Para lembrar o representante de que ele é servo, servidor, empregado da cidadania, não seu patrão.

Uma urgência é formar quadros preparados que tenham condições e talento para disseminar o conceito ESG na empresa, nas organizações e, principalmente, em todas as esferas de governo.

De acordo com o CFA Institute, associação que reúne e certifica profissionais de finanças, a procura por profissionais da área é imensa. A oferta, muito baixa. A PWC, rede global de auditoria e consultoria, anunciou que precisa contratar mais de 100 mil pessoas nos próximos cinco anos, especializadas em ESG. Tudo para oferecer consultoria e assessoria nesse campo, que veio para ficar e que não é mais um modismo, algo que poderia ser comparado à “grife verde”, que serviu como fantasia para inúmeras empresas venderem mais.

O ESG precisa de resultados, de igual forma àqueles que os Estados Unidos, a União Europeia e até a China estão exigindo de um Brasil que não só deixa de punir os infratores ambientais, como os incentiva a continuarem na sanha assassina de dizimar nosso maior patrimônio. Aquele que poderia fazer com que o país conseguisse reencetar a rota rumo ao desenvolvimento sustentável.

Não é fácil encontrar um profissional especializado em ESG. Ele tem de ser experto nas três áreas: ambiental, social e de governança. Existem bons profissionais na compartimentação, não no trato simultâneo e conjunto das três modalidades de preocupação.

O que não deve ser feito é criar um Departamento de ESG, como se isso fosse solução. A filosofia ESG deve estar presente em todos os setores. Desde o CEO, até os acionistas, os stakeholders, os funcionários e toda a rede de contato da empresa.

Mais difícil, muito mais difícil, fazer com que o Poder Público preste atenção a áreas negligenciadas, menosprezadas e maltratadas nos últimos anos. A pandemia serviu também para isso: para mostrar ao mundo – mas também aos brasileiros – que somos dendroclastas, criamos uma sociedade iníqua e desigual, não somos inteligentes na gestão da coisa pública. Tanto que destinamos quase seis bilhões para eleições, quando elas poderiam custar muito menos se adotada a tecnologia que é o terror dos conspiracionistas, dos negacionistas, dos terraplanistas e de todos os cultores dos exotismos surreais que passaram a ocupar o Brasil de nossos dias.

Os educadores têm de suprir a deficiência dos profissionais da ESG. Formá-los, capacitá-los e dotá-los de uma ética significativa e consistente, para que o Brasil consiga, ao perseguir essa via, recuperar as décadas perdidas e voltar a ser uma República digna de confiança e de admiração, por parte das demais nações civilizadas desta maltratada e sufocada Terra.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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