Após vídeo de reunião, associação de juízes pede afastamento de ministros e denuncia ‘escalada do autoritarismo’

Após vídeo de reunião, associação de juízes pede afastamento de ministros e denuncia ‘escalada do autoritarismo’

Em nota pública, AJD alerta para possível ‘golpe de Estado’ em curso no país

Rayssa Motta

23 de maio de 2020 | 16h27

Reunião ministerial do dia 22 de abril. Foto: Marcos Corrêa/PR

Em nota divulgada neste sábado, 23, a Associação Juízes para a Democracia (AJD), repudiou o que classifica como uma ‘escalada do autoritarismo’ no Brasil. A entidade alerta que existe um possível ‘golpe de Estado’ em curso no país e defende ‘afastar dos postos de poder pessoas que atuam apenas movidas por interesses próprios ou que colocam a economia acima da saúde da população brasileira’.

A manifestação vem após a divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, tornado público ontem pelo ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito do inquérito que apura se houve tentativa de interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal para obter informações sobre investigações que pudessem prejudicar seu núcleo familiar. As trocas no comando da corporação e na superintendência do Rio de Janeiro levaram ao pedido de demissão do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, que revelou suposta intenção do presidente em indicar delegados mais próximos à ele para os cargos de comando da corporação.

A reunião foi marcada por palavrões, briga de ministros, anúncio de distribuição de cargos para o Centrão e ameaça do presidente Jair Bolsonaro de demissão ‘generalizada’ a quem não adotasse a defesa das pautas do governo. 

A AJD classificou as falas do encontro como ‘ofensivas e desrespeitosas nesse momento de luto nacional’. Ainda segundo a associação, as declarações ‘revelam oportunismo econômico diante da barbárie da COVID19, desrespeito com o ambiente e com as pessoas que vivem do trabalho’.

Na gravação, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, pede a prisão dos integrantes do STF e se refere aos ministros como ‘vagabundos’. Seguindo a mesma linha, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, pede que governadores e prefeitos sejam colocados na cadeia por medidas tomadas para combater a disseminação do coronavírus. O chefe do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugere ser preciso aproveitar a ‘oportunidade’ que o governo federal ganha com a pandemia da doença para ‘ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas’. Paulo Guedes, da Economia, defendeu a venda do Banco do Brasil e, ao falar sobre a necessidade de incentivos ao turismo no Brasil, disse que é preciso deixar ‘cada um se foder do jeito que quiser’.

O presidente também protagoniza ataques pessoais aos governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC) pela medidas de enfrentamento à pandemia do coronavírus. Doria foi chamado de “bosta”, Witzel de “estrume”.

“As declarações de possível interferência “na segurança” para assegurar impunidade em benefício próprio e/ou da  família, assim como os pedidos de prisão de autoridades públicas, as palavras de baixo calão e a distopia diante da realidade enfrentada pela população brasileira, reforçam nossa convicção de que é preciso, mais do que nunca, lutar pela democracia”, diz, em nota, a AJD.

Para a associação, o governo age com descaso diante da epidemia de coronavírus no país. “Quase 22.000 pessoas já morreram em razão da pandemia, que não ocupa um momento sequer da atenção do governo nas duas horas da referida reunião ministerial”, critica a entidade.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.