Após exoneração, ex-assessora de Flávio Bolsonaro pediu ajuda a investigado por milícias: ‘Tenho contas’

Após exoneração, ex-assessora de Flávio Bolsonaro pediu ajuda a investigado por milícias: ‘Tenho contas’

Danielle Mendonça da Costa pediu ao ex-marido, capitão Adriano, ajuda com demissão do gabinete do filho do presidente

Caio Sartori/RIO

18 de dezembro de 2019 | 23h32

Depois de ser exonerada do gabinete do senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), em 6 de dezembro do ano passado, a assessora parlamentar Danielle Mendonça da Costa Nóbrega teria procurado seu ex-marido, acusado pela Polícia de chefiar a milícia Escritório do Crime, para cobrar explicações e pedir que ele intercedesse para evitar sua demissão. Segundo troca de mensagens revelada pelo Ministério Público no pedido de medidas judiciais da operação desta quarta-feira, 18, Adriano Magalhães da Nóbrega, o capitão Adriano, estaria a par do que acontecia na Assembleia Legislativa do Rio e respondeu a ela que “as coisas mudam”.

Alerj. Foto: Fabio Motta/Estadão

O diálogo começa no dia em que o Estado publicou uma reportagem sobre um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta do assessor parlamentar Fabrício Queiroz, entre depósitos e saques feitos de janeiro de 2016 a janeiro de 2017. Naquele dia, Queiroz avisou Danielle que ela seria exonerada. Na sequência, ele mandou uma foto da reportagem do Estadão, de acordo com troca de mensagens reproduzida pelo MP.

No mesmo dia, Danielle teria enviado mensagem a Adriano dizendo que o “amigo” avisou de sua exoneração. Segundo o MP, “Amigo” é um apelido de Queiroz. Adriano se limitou a informar que ia ver o que acontecera, de acordo com o MP. “Tá bom. Pq tenho contas”, retrucou a mulher, que ficaria 23 dias sem resposta.

No dia 29, então, Danielle voltou a cobrar o ex-marido. “Eu preciso de um posicionamento seu. Você disse que nada iria mudar”, escreveu, de acordo com o diálogo reproduzido pelo MP. Oito dias depois, Adriano respondeu: “Mas as coisas mudam. Não dependem só da gente.”

As conversas foram apreendidas pelo Ministério Público do Rio e estão na investigação que motivou a operação da manhã desta quarta-feira que cumpriu 24 mandados de busca e apreensão contra pessoas ligadas a Flávio Bolsonaro.

Ex-parceiro de Queiroz no batalhão da Polícia Militar de Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, Capitão Adriano também disse para Danielle que “as coisas” não estavam fáceis para ele. “Só vim no (sic) Rio para passar o fim de ano com a minha mãe e ajeitar umas coisas. Amanhã já tô indo de novo.”

Ele está foragido desde janeiro, quando foi deflagrada a Operação Os Intocáveis, que mirou no Escritório do Crime.

Os dois também acertam detalhes sobre como Danielle sobreviveria financeiramente após a exoneração. Adriano diz que vai passar para o nome dela um apartamento que tem no Anil, bairro da zona oeste controlado pela milícia. “Porque aí vc já tem um imóvel de garantia”, aponta o ex-marido, que também afirma que irá ajudá-la com um “complemento” financeiro.

Outras conversas que aparecem no relatório do MP mostram que Queiroz conversou com Adriano e Danielle sobre a exoneração e o esquema em curso no gabinete. Em outros diálogos, Danielle também revela a uma amiga identificada como ‘Paty’ que sabia do funcionamento do esquema.

De acordo com o documento, Queiroz trocou mensagens com Danielle pedindo cópias de seus contracheques e declaração de imposto de renda para ‘prestar contas’, demonstrou preocupação com a ‘exposição’ que a campanha de Flávio em 2018 poderia razer para o esquema de rachadinha e até interferiu no depoimento prestado por Danielle ao MP após a revelação do esquema, pedindo a ela que faltasse. “Cuidado com que vai falar no celular”, teria alertado.

Além de Danielle, a mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães, também ocupou cargo no gabinete de Flávio na Alerj no período investigado pelo MP (2007-2018).

O Estado não conseguiu localizar as defesas de Danielle e Adriano.

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