Apontando para cima

Expectativas para o Brasil são positivas, com privatizações e reformas a caminho

Alexandre Pierantoni*

05 de fevereiro de 2020 | 06h00

Alexandre Pierantoni. FOTO: DIVULGAÇÃO

O primeiro mês de 2020 chega ao fim com uma lista de pendências e ações que devem, uns mais, outros menos, causar solavancos e manter a incerteza e preocupações dos investidores ao longo do ano todo. Para o Brasil – que não deve ficar isento dos efeitos de nenhum desses problemas –, no entanto, as expectativas não se tornaram mais nebulosas, contrariando aquele certo instinto de esperar pelo pior, fruto de décadas de desempenho decepcionante.

O coronavirus nem bem se alastrou, mas já afeta a rotina de empresas no mundo todo, e os efeitos vão ser vistos nos balanços (e PIBs de todos países – afirma-se que pode ser 0,5% no PIB mundial. Impacto no Brasil pode ser substancialmente maior dada infeliz combinação de queda de preços de commodities e volume de exportação, ao principal país afetado, a China). A guerra comercial entre EUA e China ganhou um acordo recente (denominada Fase 1), mas ainda há mais incertezas do que certezas sobre o que ela ainda virá a causar na economia global. A aprovação do Brexit aconteceu em cima da hora e trará impactos políticos e econômicos que ainda não se sabe quais serão. A União Europeia, e em particular a Alemanha, estão em desaceleração.

Mesmo neste contexto, há sinais importantes de recuperação à vista para o Brasil, e as expectativas são, afinal, o que move investimentos e investidores (além de suas irmãs, previsibilidade e confiança). Desde a posse do atual governo, um otimismo cauteloso atravessou a comunidade brasileira de negócios. Seguindo a condução do ministro Paulo Guedes, o novo governo propôs reformas que acenderam o interesse de investidores domésticos e estrangeiros. A reforma da Previdência foi aprovada em 2019. A tributária e a administrativa serão objeto de discussão neste ano (que é eleitoral, sempre um percalço para qualquer tema a ser debatido por parlamentares que terão efetivos 120 dias de trabalho), e temos o pacote anticrime, aprovado no apagar das luzes do ano passado.

Juros que nunca foram tão baixos e o movimento rumo a mais privatizações também alimentam novos investimentos. O índice Ibovespa flerta com os 120 mil pontos (apesar da recente retração com a crise de saúde na China). O risco-país apresenta trajetória decrescente (encerrou 2019 a menos de 100 pontos base) e tem valores inferiores à época em que o Brasil era grau de investimento (período de março de 2008 a setembro de 2015), quando o risco país, medido pelo Credit Default Swaps/ CDS 5 anos, teve média de 171 pontos base; após atingir 500 pontos base em março de 2016. O investidor estrangeiro continua a apostar e investir no Brasil.

As tendências de investimentos estrangeiros diretos e a atividade de fusões e aquisições são positivas. Para lembrar alguns números, a B3 registrou 13 ofertas (IPOs e follow-ons) em setembro e outubro de 2019, com R$ 26,6 bilhões negociados. Nos 12 meses até outubro houve 32 ofertas, com R$ 70,4 bilhões no total – um recorde, superando 2007 (quando alcançou R$ 70,1 bilhões). Tudo isso sem considerar IPOs de brasileiras nos EUA.

Mesmo o acordo comercial EUA-China não chega a ser um risco absoluto. A presença da China tem impacto importante em setores como infraestrutura, logística, alimentos e bebidas e no agronegócio, para nomear só alguns. O Brasil aprendeu com a China. E a China com as oportunidades no Brasil, principalmente em infraestrutura. Competitividade, produtividade e cadeias de fornecimento brasileiras hoje são mais ousadas como consequência das relações e força das relações e dos investimentos entre os dois países. O programa de privatizações e concessões do governo brasileiro está nos radares dos chineses – e deve se reforçar até 2021. Processos recentemente completados em óleo e gás, portos, aeroportos e estradas foram o começo de uma lista com mais de 100 projetos.

O nome do jogo é: expectativa e previsibilidade. Quando o novo governo assumiu, elas eram altas. Se hoje não estão onde estavam há um ano, também não se tornaram desprezíveis. O ano de 2020 será de desafios, que ninguém se iluda quanto a isso. Mas, em meio a tudo que parece apontar para baixo, vemos um Brasil que parece apontar para cima.

*Alexandre Pierantoni é diretor-executivo da Duff & Phelps no Brasil e lidera as operações de Fusões e Aquisições na América Latina

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