Aos mestres com respeito

Aos mestres com respeito

Ricardo Viveiros*

15 de outubro de 2020 | 07h30

Ricardo Viveiros. FOTO: DIVULGAÇÃO

No mundo moderno, nestes velozes e competitivos tempos de informação global online, o conhecimento nunca foi tão essencial para a sobrevivência, para o progresso de qualquer ser humano. Sem educação de qualidade — aliás, como tal, não se pode conceber diferente — o mundo está condenado ao atraso, à estagnação. O progresso nasce no aprendizado, no crescimento, no saber cada vez mais amplo e melhor.

Do latim “insignare”, que significa “assinalar” no sentido de “mostrar algo a alguém”, o professor, em todos os níveis, hoje transcendeu a esse distanciamento original e se integrou ao aluno na busca de um aperfeiçoamento mútuo nas relações da educação. Ensinar e aprender são um só caminho de mão dupla, permanente e humilde prática de quem, de fato, quer evoluir. Brilhante educador baiano, Anísio Teixeira, disse: “Quando monto na asa de um pensamento, uma ideia, eu vôo nessa ideia como se ela fosse uma ave”.

Como o sonho, o saber é ilimitado. Aprende mais, quem busca mais. Quem tem a coragem de voar nas asas da criatividade, descortinando outros inimagináveis horizontes. Hoje, a tecnologia de ponta oferece as chamadas “máquinas de ensino”. É o computador que, através de específicos programas (lineares, ramificados etc.), educa à distância. Perfeitamente adaptados à estrutura mental dos alunos, às plataformas digitais e os seus complexos softwares tentam substituir o professor na sala de aula. Engano. Nada substitui o olhar do mestre, o seu carinho pelo aluno, a sua capacidade de ler a alma de cada um e, com a paciência do amor incondicional pelo ato de educar, escolher a melhor forma de transmitir conhecimento.

Tive o privilégio de conviver com dois ilustres professores brasileiros, neste país de tantos abnegados e capazes educadores anônimos: Paulo Freire e Darcy Ribeiro, nascidos e mortos nas mesmas épocas, ambos vieram ao mundo no início dos anos 1920 e morreram em 1997. Entretanto, seus sábios ensinamentos e seus marcantes exemplos ficaram para a eternidade, como cabe aos homens e mulheres de boa vontade que não passam pelo mundo como apenas uma brisa, mesmo que de pura poesia.

Paulo e Darcy, na melhor demonstração do que significa ser professor num país pobre e em desenvolvimento, passaram suas vidas lutando pela democratização do ensino, pela erradicação do analfabetismo. Arriscaram-se na luta contra os regimes ditatoriais que, sempre, preteriram a educação para melhor manipular o povo, triste vítima da desinformação, do desconhecimento. Educação é garantia de independência e soberania.

Em 1994, na Alemanha, passei uns dias em companhia de Darcy Ribeiro e outros intelectuais brasileiros. Participávamos do evento internacional “Brasil – Confluência de Culturas”, quando nosso País foi tema da 46ª Feira Internacional do Livro de Frankfurt. Darcy já estava bastante doente, vítima do câncer que acabou tirando-lhe a vida.

Conversamos, rimos (ele sempre elegante e bem humorado), compartilhamos histórias e, em um inesquecível jantar, ouvi dele que, dentre tudo o que havia feito na vida (escritor, político, antropólogo, parlamentar e gestor público), nada lhe encantava mais do que ser educador. Darcy Ribeiro criou leis, defendeu crianças e indígenas, fundou universidades e foi o idealizador dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps); depois imitados pela prefeita Marta Suplicy, na Capital paulista, com os Centros Educacionais Unificados (Ceus).

No “Dia do Professor”, que se comemora neste 15 de outubro, é preciso lembrar todos os que, por esse imenso Brasil, iluminam (muitas vezes até com um lampião de querosene) os caminhos que levam a um futuro de liberdade, justiça, paz e desenvolvimento.

Com ternura, recorde suas professoras e professores do Ensino Infantil, do Fundamental I e II, do Médio e da Universidade. Sem eles, é possível, você até leria este jornal. Mas, talvez não entendesse as informações e comentários, não soubesse tirar deles motivos para transformar, crescer e progredir como pessoa e profissional.

*Ricardo Viveiros, jornalista, escritor e professor é doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, membro honorário da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da União Brasileira de Escritores (UBE). Tem 49 livros publicados, entre os quais Educação S/A, Pelos Caminhos da Educação e O menino que lia nuvens

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