Antes que seja tarde demais

Antes que seja tarde demais

Mônica Andreis e Laura Cury*

16 de julho de 2021 | 03h00

A pandemia de Covid-19 ceifou quase quatro milhões de vidas até o momento, em todo o planeta, e vimos uma agilidade da resposta da ciência, conseguindo desenvolver vacinas e produzir conhecimento. Tornou-se possível trabalhar para mudar o cenário num futuro próximo, mas é preciso ter afinco e responsabilidade para evitar uma tragédia ainda maior. Em relação ao futuro da humanidade e de nosso planeta, podemos traçar um paralelo bem parecido e agir rápido.

Mônica Andreis e Laura Cury. Foto: Divulgação.

Acaba de ser lançada a quinta edição do Relatório Luz da Sociedade Civil sobre a Agenda 2030 no Brasil, em plena convergência entre as crises sanitária, social, econômica e ambiental, que aumentam nossas imensas desigualdades. Continuamos a ver como as  parcelas mais vulneráveis ​​da sociedade são as mais duramente atingidas, tanto pela pandemia quanto pela resposta, insuficiente, a ela.

A análise das 169 metas dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), realizada por especialistas nas mais diversas áreas, indica a clivagem existente entre as aspirações contidas na Agenda 2030 e a realidade brasileira. O Sistema Único de Saúde continua desfinanciado e sobrecarregado. Mais da metade da população convive com algum grau de insegurança alimentar e cerca de 19 milhões de pessoas passam fome. As taxas de desemprego saltaram enquanto a concentração de renda foi favorecida, sendo que, em 2020,  surgiram 66 novos bilionários, 21 a mais que em 2019, e o 1% mais rico do Brasil detém metade da riqueza nacional.

A perda de direitos sociais, econômicos e ambientais, arduamente construídos nas últimas décadas, fica patente nas 92 metas em retrocesso, que representam 54,4% do total, nas 27 estagnadas, ou 16%, e nas 21 ameaçadas, ou 12,4%. É possível observar que apenas 13 delas, ou 7,7%, têm algum progresso, embora insuficiente. Sobre 15, ou 8,9% do total, não há informação, o que, mais uma vez, marcou a produção deste documento. O chamado apagão de dados em curso é um fato que não consegue ocultar as enormes dificuldades enfrentadas pela população brasileira, principalmente pela maioria mais vulnerável. Não houve uma meta sequer com avanço satisfatório neste Relatório.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Em um momento que exige união de esforços, devemos promover o debate sobre como atingir equidade e um modelo mais saudável de desenvolvimento e de vida em sociedade.  Precisamos, urgentemente, mudar o jogo, mote das duas últimas campanhas do Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda de Desenvolvimento Sustentável. Já passou da hora de efetivamente repensarmos o status quo, movimento que deve ser ordenado por um desejo coletivo de prosperidade e paz, e onde os materiais e recursos necessários para a vida, incluindo os cuidados com a saúde, estejam disponíveis, tanto agora quanto para gerações futuras. Devemos nos comprometer a reconstruir melhor, usando a recuperação da Covid-19 para buscar uma sociedade, uma economia e um meio ambiente mais resilientes, justos e sustentáveis.

Cientistas estimam que, para além dos efeitos já tão devastadores da pandemia, o mundo pode atingir um nível irreparável num curto prazo, devido às mudanças climáticas se continuarmos no curso atual. O futuro distante está cada vez mais próximo. Não haverá recuperação possível do derretimento das camadas de gelo polares e de outros efeitos devastadores do aquecimento global. A emergência de saúde pública provou ser um teste  para a promessa de não deixar ninguém para trás. Ainda estamos deixando milhões de brasileiras e brasileiros para trás, infelizmente.

É preciso repensar práticas comerciais, de consumo e modo de fazer política. Precisamos agir e reconectar com aquilo que compactuamos como nações para um futuro sustentável. Antes que seja tarde demais.

*Mônica Andreis, diretora executiva da ACT Promoção da Saúde

*Laura Cury, assessora de relações internacionais da ACT Promoção da Saúde

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.