Antes feliz do que mal acompanhada

Antes feliz do que mal acompanhada

Emanuela Carvalho*

13 de janeiro de 2017 | 16h49

Emanuela Carvalho. Foto: Divulgação

Emanuela Carvalho. Foto: Divulgação

Em tempos de empoderamento feminino, há de se pensar que estar feliz, antes de estar acompanhada, é a prioridade. Infelizmente, para muitas mulheres, não. E por que não? Porque há aquelas que preferem estar num relacionamento abusivo, por não conseguirem ficar sozinhas.

E os relacionamentos abusivos estão aí, mais próximos e reais do que imaginamos. Não se configuram apenas nas relações amorosas – e quando nessas, somente entre homens e mulheres – , mas também nas relações de trabalho, de amizade, entre pais e filhos. Qualquer relação é um possível terreno fértil para que os abusos aconteçam.

A palavra abuso pode ter ligação, à primeira vista, com questões físicas como estupro, agressão, violência, mas não se resume a isso, por pior que pareça. Aliás, o tipo mais comum de abuso é aquele que não é facilmente visto: o psicológico. Isso porque a agressão física deixa marcas, então é mais naturalmente percebida por quem está de fora da relação, mas o abuso psicológico não. Ele é como um pequeno e discreto vazamento, que vai, aos poucos minando, comprometendo a estrutura, abalando a autoestima da mulher, a confiança nela mesma, o amor próprio e a sua capacidade de ser independente emocionalmente.

Há mulheres que não conseguem se identificar numa relação abusiva. Elas percebem que a amiga, a irmã, está nesse tipo de relação. Aconselham, oferecem ajuda, acham um absurdo, mas não são capazes de fazer uma autoavaliação e se identificar como vítimas de abuso. Essa negação pode ser uma fuga, o medo de enfrentar a realidade e precisar tomar uma decisão.

Por outro lado, há mulheres que conseguem se identificar como vítimas desse tipo de relação. Elas têm à sua frente dois caminhos. O primeiro é o de quem consegue identificar que a outra pessoa – seja homem ou mulher – com quem elas se relacionam tem o perfil de uma pessoa abusadora. E quando identificam, passam a observar melhor e confirmando a suspeita, decidem sair da relação. Esse caminho inicialmente parece o mais difícil e muitas mulheres optam por não segui-lo. Escolhem então o de quem consegue perceber que está sendo vítima de uma pessoa abusadora, mas acham que têm o poder de modificá-la. Acreditam que a outra vai mudar por amor. Ilusão com destino certo: o sofrimento.

Para muitas mulheres que permanecem na relação abusiva, nenhum comportamento adoecido é suficiente para que elas busquem forças e se libertem. Ao contrário, quanto mais sofrem, mais acham que as coisas vão mudar e a pessoa abusadora com quem elas se relacionam vai melhorar. Claro, que essa mudança é possível, mas muito difícil. Ainda mais difícil é ficar desenvolvendo estratégias para salvar esse tipo de relação.

É cansativo. Mas ainda sim, muitas mulheres acabam buscando justificativas para os mais diversos tipos de demonstração de abuso. É o caso de você aceitar que o seu companheiro seja grosseiro diariamente só porque ele está muito cansado do trabalho ou estressado com o trânsito. Então ele reclama da comida, diz que você não faz nada certo, apela para um discurso pejorativo, que configura a humilhação. Ou ainda a sua companheira não lhe permita fazer as coisas que gosta, sair com as amigas ou a família, porque ela é insegura e controladora, mas você acha que ela lhe ama muito e essas atitudes querem dizer cuidado, zelo.

Não. Essas atitudes querem dizer abuso.

É fácil identificar que alguma coisa não está bem no seu relacionamento. Basta querer enxergar. E esse é o ponto principal, querer enxergar para decidir mudar.

Não se pode desconsiderar que a mulher ainda sofre uma pressão social muito grande para não estar sozinha. Por mais absurdo que pareça, é como se a figura masculina (e aí não serve qualquer companhia, tem que ser um homem) validasse a mulher. Tudo começa com o tão simples quanto inconveniente questionamento da família ou dos amigos: “E o namorado?”, se a mulher está namorando: “Vai casar quando?”, e quando casa precisa ter o primeiro filho e logo em seguida o segundo, porque reza a lenda que “quem tem um, não tem nenhum”, e coitada da mulher que decida não parar no segundo filho, porque a situação econômica do país não permite que se tenha mais de dois filhos.

E assim os seus papéis estão definidos. Se ela aceitar. Nesse caso, para não ficar solteira, ouvindo as cobranças inconvenientes, ela se envolva numa relação abusiva, aceite seguir as regras impostas, por quem, ao certo ela nem sabe.

A dependência emocional, traço marcante em muitas mulheres que vivem relações abusivas, é fundamental para que elas permaneçam, sem forças para lutar e mudar de vida.

Quer identificar se está vivendo uma relação abusiva? O primeiro passo é estar atenta aos sinais de ciúmes e possessividade em excesso. É importante perceber se a outra pessoa se sente bem ao lhe constranger, ao tentar lhe diminuir, principalmente diante dos outros. Se ela faz você se sentir incapaz de tomar decisões. Faz você acreditar que não é digna de atenção, de amor, de respeito. Quer comprometer a sua autoestima e a sua independência emocional.

Identificando alguns desses sinais, esteja atenta. Busque ajuda.

O ideal mesmo é seguir aquele primeiro caminho, o que inicialmente parece ser mais complicado, mas a longo prazo trará uma sensação de alívio por ter feito a melhor escolha. Ao perceber que está se relacionando com uma pessoa abusadora, afaste-se enquanto é tempo.

Porque a prioridade deve ser estar feliz, antes de estar acompanhada.

*Emanuela Carvalho é professora e autora do livro “Antes feliz do que mal acompanhada”, que será lançado em São Paulo no dia 28 de janeiro, na Livraria da Vila, na Alameda Lorena

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