Antes de matar por engano, policial bebeu assistindo ao jogo do Brasil

Segundo relatório da Polícia Civil do Amapá, o agente Jorge Henrique Banha Picanço teria bebido seis garrafas de 600 ml e levado 12 latas para casa horas antes de atirar em dois jovens, matando um, e cometer suicídio

Luiz Vassallo

08 Julho 2018 | 05h15

“Jorge, não atira, não é assalto”, alertou a lojista de estabelecimento a agente da Polícia Civil do Amapá pouco antes de confundir dois jovens com assaltantes e efetuar disparos, nesta sexta-feira, 6. Jorge Henrique Banha Picanço, 47 anos de idade, cometeu suicídio após o engano. Um jovem morreu e outro passou por cirurgia. A dona do estabelecimento, que levou tiro de raspão, relatou à Polícia neste sábado, 7, que o agente teria ingerido pelo menos 3,6 litros de bebida alcoólica e comprado 12 latas para levar para casa horas antes do ocorrido.

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Neste sábado, a Polícia Civil fez diligências e conversou com os donos do bar onde os disparos foram feitos, para relatório preliminar de investigações.

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O documento elaborado pelo delegado adjunto Armando Jacob Vargas Júnior e endereçado ao delegado-geral, Antônio Uberlandio Azevedo Gomes, foi obtido pelo Estado. Por meio de nota, o delegado-geral afirma que ‘são absolutamente inverídicas as versões que se propagaram nas redes sociais, umas pregando que o policial civil estava alcoolizado e em surto, disparando a esmo sua arma de fogo ou então que os dois jovens, ambos oriundos de famílias decentes e conhecidas da sociedade local, haviam chegado ao local e anunciado, ainda que de brincadeira, voz de “assalto” e muito menos que tenha havido troca de tiros entre os protagonistas’.

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“Por derradeiro, os fatos serão apurados dentro do mais estrito rigor legal, compromisso que assume a Polícia Civil do estado do Amapá”, afirma a nota.

Segundo o relato de Maria da Conceição Cascaes, dona da loja, antes do ocorrido, por volta das 15h, Jorge Henrique Banha Picanço assistiu o jogo da seleção brasileira com a família, já que era ‘pessoa da casa’. Ele teria consumido seis garrafas de cerveja e comprado outras 12 para levar para consigo, quando saiu, às 17h. O estabelecimento fica na Rua Padre Manoel da Nóbrega, Bairro Jesus de Nazaré, no centro de Macapá.

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Por volta das 19h15 desta sexta-feira, 06, Maria disse estar na varanda da casa – acoplada ao bar -, quando a campainha tocou. Ronald Willian Souza de Oliveira, de 21 anos, e seu primo, Ricardo Brito de Oliveira, 22 anos, apareceram para comprar cerveja.

Como já conhecia ambos, ela diz ter aberto a grade para que entrassem. De acordo com o relatório preliminar da Polícia, ela teria ficado em frente ao freezer, segurando a porta aberta, enquanto os dois jovens, de frente para o eletrodoméstico, pegavam as cervejas as colocavam em uma grade que estava no chão.

Naquele momento, teria aparecido, novamente, Jorge Banha, que voltou ao local e, silenciosamente, se posicionou a um metro e meio dos dois rapazes, como relatou a dona da loja. Ela alegou tê-lo visto com ‘um semblante estranho’, mas não disse nada. Em ‘um átimo’, teriam começado os estampidos, que foram confundidos pela dona da loja com ‘fogos de artifício’.

“Instalado o pânico, Maria da Conceição se levantou e um dos rapazes, a quem disse ter sido Ricardo, passou correndo, espremido por ela e uma pequena mesa, ao passo que Ronald, vindo logo atrás, também correndo, caiu, no entanto, antes da passagem que dava acesso ao local de lazer da família, ficando de bruços no chão, morto”, narra o delegado, em relatório.

Ela diz ter gritado: “Jorge, não atira, não é assalto!”. Sua cunhada, Nazira, também teria alertado o policial: “Para, para, não é “assalto”!.

Atingido por três tiros, Ricardo também caiu e desfaleceu. Logo em seguida, Maria da Conceição diz ter ouvido outro tiro, desta vez, de Jorge, contra a própria cabeça.

Ricardo ainda estava vivo. Em pouco tempo, o lugar se encheu de pessoas, que não arredaram pé até que ele e Jorge, que ainda não havia falecido, fossem atendidos por uma ambulância e pela Polícia Tecnico Científica. Além dos tiros que atingiram as vítimas, as balas também perfuraram o freezer do bar, de acordo com o delegado adjunto, em seu relatório.

“Em momento algum, quando questionei à senhora Maria da Conceição, o Agente de Polícia Jorge Banha verbalizou qualquer comando para os jovens fazer isto ou aquilo, partindo diretamente para os disparos dos quais, frise-se, um acertou também essa senhora que, medicada ontem, já havia recebido alta”, relata no documento.

A bala que atingiu a dona do bar atravessou seu corpo, mas não atingiu qualquer órgão, segundo disseram a ela os médicos que a atenderam.

O relatório ressalta que ’em momento algum os jovens gritaram ou brincaram com Maria da Conceição dizendo que se tratava de um “assalto”‘.

COM A PALAVRA, O DELEGADO-GERAL DA POLÍCIA CIVIL, ANTÔNIO UBERLÂNDIO AZEVEDO GOMES

A Polícia Civil do estado do Amapá, por meio da Delegacia Geral de Polícia, órgão de direção superior, vem a público esclarecer lamentável episódio envolvendo integrante da instituição, ocorrido em data de 06/07/2018 por volta de 19h15min, na Rua Padre Manoel da Nóbrega, nº 737, Bairro Jesus de Nazaré, nesta capital.

No dia, hora e local, que se tratava de um pequeno comércio de gêneros alimentícios e bebidas, encontravam-se dois jovens – RONALD WILLIAN SOUZA DE OLIVEIRA, de 21 anos de idade, e seu primo, RICARDO BRITO DE OLIVEIRA, de 22 anos de idade, os quais tinham ali se dirigido a fim de comprar cervejas.

Em dado momento, o Agente de Polícia Civil JORGE HENRIQUE BANHA PICANÇO, então com 47 anos de idade, que também estava no local, percebeu a presença dos dois jovens no interior do estabelecimento e se aproximou.

O policial civil, homem vivido e experiente, contando com quase vinte e cinco anos de serviços prestados, achou estranho a dona do estabelecimento ter aberto a grade da porta de onde comumente comercializa seus produtos e, possivelmente interpretando que se tratava de um “assalto”, munido que estava de uma arma de fogo da instituição, efetuou disparos contra os jovens, acertando-os bem como a uma senhora que estava ali os atendendo.

Os dois jovens eram primos e um deles, RONALD WILLIAN SOUZA DE OLIVEIRA, perdeu a vida.

O outro – RICARDO – foi conduzido ao Hospital de Emergências, onde ainda se encontra internado, sob cuidados médicos.

O policial civil, possivelmente percebendo que havia incorrido em erro, num gesto impensado e de desespero, tirou a própria vida com a arma de fogo que carregava.

É imperativo, nesta oportunidade, que a verdade se instale, pois o fato abalou não só a sociedade amapaense, mas a toda família policial civil, mormente porque um dos atingidos, RICARDO BRITO DE OLIVEIRA, é filho do também Agente de Polícia Civil RICARDO JOSÉ NERI DE OLIVEIRA, atualmente lotado na unidade policial do município de Tartarugalzinho.

A versão a que chegou, até o presente momento a Polícia Civil, foi colhida diretamente de duas pessoas presentes no local e também atingidas emocionalmente pelo episódio, sendo elas as senhoras NAZIRA RIBEIRO PEREIRA FORO e MARIA DA CONCEIÇÃO CASCAES, esta última igualmente atingida por um disparo da arma do policial civil, porém estando fora de perigo.

Desta feita, são absolutamente inverídicas as versões que se propagaram nas redes sociais, umas pregando que o policial civil estava alcoolizado e em surto, disparando a esmo sua arma de fogo ou então que os dois jovens, ambos oriundos de famílias decentes e conhecidas da sociedade local, haviam chegado ao local e anunciado, ainda que de brincadeira, voz de “assalto” e muito menos que tenha havido troca de tiros entre os protagonistas.

Por derradeiro, os fatos serão apurados dentro do mais estrito rigor legal, compromisso que assume a Polícia Civil do estado do Amapá.

Antônio Uberlandio Azevedo Gomes

Delegado Geral de Polícia Civil