Antes de mais nada, uma crise humana

Antes de mais nada, uma crise humana

João Marcio Souza*

19 de abril de 2020 | 10h00

João Marcio Souza. FOTO: DIVULGAÇÃO

Seja qual for a crise, ela é invariavelmente palco de um cenário que escapa do rumo normal que esperamos das coisas. Sucessivos desdobramentos causados pela pandemia que enfrentamos hoje, e cá estamos nós diante de uma nova emblemática crise. Uma bola de neve que avança mais e mais, com velocidade impressionante. Só que dessa vez, mostra-se bem diferente das recessões econômicas que nossa geração já superou. Antes de ser econômica, essa é uma crise preponderantemente humana.

Isso significa dizer que os impactos na economia são reflexos da tentativa global de conter a ameaça provocada pela covid-19. E, nessa linha, medidas restritivas adotadas em todo o planeta acabam por reformular o modo como se dão as interações humanas, bem como os modelos de trabalho tradicionais. Com boa parte do mundo em regime de lockdown, os efeitos da ansiedade, da angústia e da depressão nas pessoas – já em condições normais consideradas males do século – manifestam-se com ainda mais força. Exatamente por isso, essa é uma crise que abala não só estruturas econômicas, mas antes de tudo o núcleo humano.

Fazendo uma fotografia do mundo corporativo hoje, muita coisa já mudou da noite para o dia em consequência da crise – e muito ainda vai mudar talvez com mais velocidade e intensidade. E, dentro das empresas, caberá ao líder do RH o papel decisivo e determinante de equilibrar os pratos e atravessar essa corda bamba.

Como em todo contexto de recessão econômica, hoje grande parte das empresas lutam por sobrevivência, e logo buscam pelo microscópio toda e qualquer oportunidade de reduzir gastos e aumentar receita. Não raro, isso significa colocar em prática um plano de desligamento de seus próprios colaboradores. Outras empresas, de setores que encontraram na crise o momento de surfar a onda do mar revolto (área da saúde, indústria química e bens de consumo não duráveis, por exemplo), enfrentam o desafio oposto: como recrutar as pessoas certas para ontem.

O home office também é uma novidade. De acordo com um levantamento realizado pela Talenses, hoje mais de 90% das empresas passaram a adotar este modelo de trabalho para 100% de seus colaboradores enquanto o lockdown for a alternativa mais aconselhável. Isso se desdobra em outros desafios: como garantir o espírito de equipe em alta mesmo à distância? Como manter elevado o grau de engajamento? Como estar próximo de sua equipe, mesmo que fisicamente longe? Como demonstrar / ler skills comportamentais em tempos de home office?

Outro desafio para as empresas é fazer com que seus colaboradores continuem todos remando no mesmo ritmo e para o mesmo rumo. A combinação do confinamento físico com a acentuada indefinição do amanhã pode ser extremamente perigosa para a saúde mental das pessoas, e isso pode repercutir em perda de produtividade ou, em um nível extremo, paralisação total por pânico.

Diante de tantas quebras de paradigma, rupturas com processos burocráticos e de inúmeras decisões que precisam ser tomadas sob muita pressão, nunca nos últimos tempos foi tão exigida dentro das empresas a capacidade de gerir seus recursos humanos. Afinal, mais desafiador que lidar com uma crise, é lidar com uma crise com cada um de nós dentro de suas próprias casas, rodeados de imprevisibilidades e incertezas que extrapolam conjecturas econômicas. Se a complexidade de lidar com uma recessão essencialmente econômica já é de tirar o sono, ela se multiplica quando o protagonista da crise é o combate a um vírus capaz de afetar o modo como nos relacionamos e trabalhamos. Com isso, líderes dos, literalmente, Recursos Humanos das empresas serão altamente testados. E, depois dessa, o RH das empresas nunca mais será o mesmo.

*João Marcio Souza, CEO da Talenses Executive

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