Antecipação linear de recebíveis

Antecipação linear de recebíveis

Caio Mastrodomenico*

15 de dezembro de 2020 | 14h30

Caio Mastrodomenico. FOTO: DIVULGAÇÃO

Dezembro é um dos meses mais paradoxais do calendário financeiro: enquanto para os funcionários, este mês seja marcado pelo recebimento do décimo terceiro salário, bonificações, cestas de Natal e outros agrados, na outra ponta, o proprietário do negócio precisa se programar ao longo de um ano inteiro para arcar com o pagamento de todos estes benefícios de uma só vez, sem mencionar os impostos.

O aperto nesta época do ano é comum a todos que possuem um negócio, mas no caso dos pequenos e médios empresários o cinto fica ainda mais justo. Isso porque a média de gastos somente com folha de pagamento entre novembro e dezembro chega a atingir 44%, de acordo com a Câmara de Dirigentes Lojistas do Distrito Federal (CDL-DF). Nem mesmo o incremento da receita propiciado pelo movimento intenso das festas natalinas dá conta de repor o que se gasta, uma vez este crescimento chega a ser de apenas 10% a 18%.

No intuito de segurar as pontas, muitos donos de pequenos negócios recorrem às instituições bancárias para obter capital de giro e diluir o valor dos pagamentos em parcelas mais acessíveis. Entretanto, nem sempre a resposta que recebem é positiva: muitos não possuem crédito no mercado, principalmente as empresas novas, que não possuem muita programação ou cujo capital social está alocado em imóveis alugados. Além disso, a falta de organização documental faz com que esse pequeno empresário não consiga comprovar seu faturamento, requisito fundamental para a obtenção de crédito junto a uma instituição financeira.

Para se ter uma ideia do problema, de acordo com o levantamento realizado pelo Sebrae em abril deste ano, 88% dos empresários viram seu faturamento cair 75%, em média. Segundo a entidade, há também muito desconhecimento dos empresários a respeito das linhas de crédito que estão sendo disponibilizadas:  29% não conhecem as medidas oficiais e 57% apenas ouviu falar a respeito.

Diante deste dilema, uma das saídas para manter o equilíbrio financeiro é realizar a antecipação de recebíveis – recurso que permite às empresas receber antecipadamente montantes que só receberiam em um futuro próximo, como compras parceladas, por exemplo.

Resumindo: se uma empresa necessita de dinheiro para pagar o décimo terceiro de seus funcionários, mas esse valor não consta em caixa, ela pode antecipar o recebimento dos créditos de uma venda parcelada, transformando seus recebíveis em títulos de crédito ao vendê-los para investidores. Embora nem todos os empresários do setor PME conheçam esta possibilidade, ela existe e permite que se receba valores de cartões de crédito, duplicatas, cheques e carnês antes mesmo de a cobrança ser feita ao cliente. Os valores referentes a essas operações de compra e venda são, então, embolsados de uma só vez.

A principal vantagem desta operação é que, ao contrário do crédito bancário que chega a levar de 20 a 30 dias para ser aprovado, a antecipação de recebíveis pode ser realizada digitalmente. De maneira ágil e sem processos burocráticos, o empreendedor consegue antecipar seus recebíveis em até 20 minutos e solucionar suas questões financeiras sem dores de cabeça – a partir de um simples cadastro e sem a necessidade de garantias.

Defendo a antecipação de recebíveis como prática contínua pelos inúmeros benefícios que traz para o cliente que não possui capital de giro em caixa. Além de trazer liquidez para o negócio, a antecipação de maneira linear permite ao empreendedor ampliar sua capacidade de utilizar o capital próprio para fazer compras de ativos, sem a necessidade de adquirir empréstimos a juros altos, arriscando um capital que não é dele. Com isso, ele melhora sua capacidade estrutural em um curto espaço de tempo, além de ampliar seu poder de compra e negociação com fornecedores.

Um outro ponto interessante é que o recebimento futuro permite a terceirização das cobranças e libera o empreendedor para outras atividades mais estratégicas. Embora ele venda a prazo – o que garante melhor participação no mercado – o empreendedor recebe sempre à vista.

Certamente você está se perguntando sobre o deságio que envolve este tipo de operação. Como na antecipação a empresa embolsa um valor que será dela em breve, o risco de inadimplência é muito reduzido. Por isso, de modo geral, a antecipação de recebíveis dá mais segurança às duas partes, o que permite que os juros cobrados sejam muito mais atrativos.

As taxas praticadas pelo mercado variam de 1,5% a 6% de juros ao mês, a depender do risco de cada operação; mas ainda assim vale a pena. Observe que algumas instituições financeiras cobram 0,79% ao mês, porém o cliente arca com despesas de IOF, IF e PAC – logo a taxa nunca fica menor do que 1,6% praticado pelo mercado de antecipação de recebíveis. O valor do deságio pago no recebimento futuro já é calculado no repasse do preço final, possibilitando o equilíbrio das contas.

Sempre recomendo aos empreendedores realizarem uma projeção do caixa nos meses seguintes para ter certeza como o montante antecipado será utilizado. Isso garante a saúde financeira da empresa em médio e longo prazos, fazendo com que ela seja sustentável por muito tempo.  Adotar uma planilha, por exemplo, é uma ótima alternativa para manter as informações organizadas, de modo que seja fácil visualizá-las.

E contar com especialistas capazes de ajudar nos momentos financeiros mais complicados também faz a diferença. Portanto, se o cinto apertar, peça ajuda profissional.

*Caio Mastrodomenico é CEO da Vallus Capital

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