Ansiedade e transtornos desencadeados pela pandemia de covid-19

Ansiedade e transtornos desencadeados pela pandemia de covid-19

Monica Portella*

08 de junho de 2021 | 04h00

Monica Portella. FOTO: DIVULGAÇÃO

De acordo com a OMS, o Brasil é o país recordista mundial em casos de transtornos de ansiedade, com cerca de 9,3% da população. Os impactos psicológicos podem ser mais duradouros e prevalentes que o próprio acometimento da pandemia.

Segundo diversas pesquisas, o medo de ser infectado pela covid-19 afeta o bem-estar psicológico das pessoas. Preocupações com escassez de suprimentos e perdas financeiras também acarretam prejuízo ao bem-estar psicológico. Em resumo, durante epidemias, o número de pessoas cuja saúde mental é afetada tende a ser maior que o número de afetados pelo patógeno. Implicações na saúde mental duram mais tempo e têm maior prevalência do que a própria epidemia. Impactos psicossociais e econômicos podem ser incalculáveis e ter ressonância em diversos contextos.

Cabe destacar, aumento do auxílio doença e aposentadoria por invalidez devido a transtornos mentais (como transtornos de ansiedade e depressão) bateram recorde nacional graças à pandemia de Covid19. Houve alta de 26% de pedidos em comparação com o ano de 2019, bem como alta no número de concessões de 33% em comparação com o ano de 2019 (Secretaria Especial da Previdência e Trabalho, 2021).

Dentre as possíveis causas para desenvolvimento de transtornos mentais na população em geral, temos: isolamento social (que para uma cultura relacional como a nossa é terrível); preocupação em pegar e em passar a doença para familiares, amigos e pessoas em geral; estresse (lembrando que grande parte dos transtornos psiquiátricos pode ser desencadeada pelo estresse agudo e\ou contínuo, e que estressores não estão faltando no atual cenário); preocupação com desemprego, renda, família etc. hiper convivência familiar; ausência de atividades de reequilíbrio, como atividades de lazer e descompressão; home office e o excesso de vídeo conferências.

Ansiedade em relação à saúde também pode provocar ataques de pânico. A diminuição das conexões face a face, por sua vez (devido ao fechamento de escolas e universidades, distanciamento social, lockdown etc), consiste em um estressor importante que precisa ser considerado e trabalhado a fim de evitar consequências piores na saúde mental no médio e longo prazo de todos.

Existem algumas possíveis causas para desenvolvimento de sintomas relacionados à ansiedade e à depressão em familiares de portadores de covid 19, como por exemplo: afastamento do ente querido durante a doença. A incontrolabilidade em relação a situação (não poder “ajudar”, “fazer algo pelo familiar doente”). Dificuldade de obter informação a respeito de familiares internados, estresse agudo e\ou contínuo (estamos sendo submetido a forte estresse e incontrolabilidade há mais de uma ano). Medo e preocupação com a situação do familiar doente.

Vivemos tempos diferentes e de grande empatia com o próximo, precisamos parar, refletir e autoavaliar. Tudo isso vai passar, mas o ser humano ainda vai precisar de muita ajuda e reflexão.

*Monica Portella, psicóloga, pós-doutora em psicologia pela PUC-Rio, doutora em psicologia social e cognitiva pela UFRJ e mestre em psicologia social pela UFRJ

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