Anotações do front do tratamento de dependentes químicos

Anotações do front do tratamento de dependentes químicos

Cirilo Tissot*

07 de julho de 2019 | 06h00

Cirilo Tissot. FOTO: DIVULGAÇÃO

A mudança de foco da Política Nacional de Drogas, de redução de danos para o modelo exclusivo da abstinência, estimulou debates reverberados pelos meios de comunicação sobre a eficácia de tratamentos. Infelizmente, os argumentos não passaram pelo crivo de apuração que deveria sustentar tais tipos de questão. A cui prodest questo? (A quem interessa isso?)

O cidadão paciente está deslocado desta discussão, bem como as pessoas direta ou indiretamente afetadas pelo vício. Pablo Roig, médico psiquiatra e diretor da Clínica Greenwood definiu com precisão que a adicção impõe desafios no tratamento, em especial quando há negação dos pacientes pelo reconhecimento da doença. Impacta família, trabalho e sociedade. Neste cenário, diferentes modelos de tratamento são propostos para a discussão sobre esta patologia e, por muitas vezes, são perspectivas divergentes que travam determinadas batalhas ideológicas ao se considerarem “donas” de eventuais soluções.

Num dos tipos de fronts de tratamento de dependentes químico, a medicina baseada em evidências apurou:

Nenhum modelo de tratamento aplicado isoladamente reabilita mais do que outro;

75% das recaídas ocorrem nos primeiros seis meses, contando do início da proposta de abstinência;

Alternar diferentes propostas de tratamento, respeitando o momento e a necessidade individual de cada pessoa, aumentam as chances de reabilitação.

Particularmente, nenhum tratamento faz com que uma pessoa pare de usar drogas, mas ensina o paciente a viver sem. Neste sentido, sou a favor de toda e qualquer modalidade de ajuda que contemple as necessidades e individualidades das pessoas para promoção da abstinência total as drogas.

O paciente e seus familiares necessitam ter crítica ampla e total sobre a patologia e funcionamento das compulsões, desde sua origem e influência genética, as modificações biológicas presentes no organismo e o lugar rígido ocupado no sistema social.

Portanto, para este problema, sem ser completa, a resposta é diagnostico técnico, sem julgamento moral, abstinência pelo tempo mínimo necessário para recuperação da capacidade de pesar ganhos e perdas, compreensão do legado genético para propulsão ao vício, e, muito importante, o reconhecimento do ambiente social como agente impulsionador da busca por estado de euforia combinada com relações familiares em diferentes graus de disfunção.

Independente da porta de entrada para a dependência, o perfil do compulsivo está, de fato, muito longe da visão comum que o define. Nem é o marginal revoltado padrão das drogas. O irresponsável gastador de jogos e compras. O tarado enrustido da Internet. O fumante inveterado. O amigão bom de copo. O obeso mórbido preguiçoso. E, muito menos, o adepto de remédios faixas pretas para inúmeros fins.

A prática e os retornos dos submetidos à recuperação demonstram que são pessoas em distopia. Num estado imaginário da vida sob condições (não reconhecidas inicialmente por eles) de extrema opressão, desespero ou privação.

O eixo fundamental do trabalho se constitui em diagnóstico preciso do grau de consciência que a pessoa tem sobre a sua dependência; a aplicação de protocolos de tratamento de reeducação de valores de convivência, inclusive envolvendo a família; e a adoção de processos de ressocialização com acompanhamento terapêutico.

A abstinência é fator essencial para a retomada do paciente do controle sobre si mesmo. De entender o que o oprime, desespera e o levou ao estado de privação que o angustia. A entender, talvez, a busca sem rumo por estados eufóricos depressivos sem fim. E, assim, se ver apenas como um doente que precisa estar em permanente atenção de tratamento.

Por isso, entendo que tratamentos baseados na redução de danos – questões econômicas à parte – mantém os pacientes como um tipo de vítima, ao invés de serem cuidados como doentes.

Em exposições sobre a função paterna, a orientação básica é no sentido de se aplicar uma educação que estabeleça, claramente, o quão relevante é estarmos envolvidos com os futuros adultos para que, desde cedo, por meio de exemplos que espelhamos, aprendam limites e responsabilidades.

*Cirilo Tissot, diretor técnico da Clínica Greenwood, especializada em tratamento de compulsões

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