Anotações de Marcelo Odebrecht relacionam Vaccari a obras

No celular do maior empreiteiro do País, Polícia Federal encontrou mensagens cifradas que citam políticos e números, inclusive ex-tesoureiro do PT

Redação

22 Julho 2015 | 05h00

Atualizado dia 22 às 23h35

Por Mateus Coutinho e Ricardo Brandt

Vaccari. Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Vaccari. Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Relatório da Polícia Federal sobre as anotações no telefone do presidente da Odebrecht Marcelo Odebrecht mostram que, em mais de uma ocasião, o maior empreiteiro do País relacionou o nome do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto a valores e a porcentagens ligadas obras da companhia.

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Tanto Marcelo Odebrecht como João Vaccari estão presos na Lava Jato sob suspeita de participarem do esquema de pagamento de propinas a diretores da Petrobrás e a partidos políticos responsáveis pelas indicações de cargos na estatal petrolífera. O ex-tesoureiro é réu em duas ações penais na Justiça Federal no Paraná e apontado pelos investigadores como o responsável por operar a cota de 1% dos valores dos contratos repassados como propina para o PT na diretoria de Serviços da estatal.

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No relatório de 31 páginas da Polícia Federal chamou a atenção dos investigadores a utilização da palavra “feira” em vários tópicos, e que posteriormente aparece relacionada a João Vaccari Neto. “Presume-se que esteja diretamente relacionada a distribuição de valores para pagamentos de contas estranhas a operação normal das atividades econômicas do grupo Odebrecht, tal assertiva se baseia em anotações datadas de 09/01/2013, onde Marcelo utilizava tal palavra vinculando-a ao número 40 e a Vaca (alusão a Vaccari)”, assinala a Polícia Federal.

Documento

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Na mesma anotação, de 9 de janeiro de 2013, há também um tópico específico sobre “créditos”, no qual há referência de porcentagens de 3% seguidas dos nomes “Vacareza”, uma possível referência ao ex-líder do governo na Câmara Cândido Vaccarezza e “Zaratini” (que a PF coloca uma tarja preta na identificação completa), logo depois da sigla BMX, que a Polícia Federal identifica como o empreendimento “BMX Empreendimento Imobiliário e Participações S/A”, da Odebrecht Realizações Imobiliárias a ser construído na capital paulista.

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Há ainda o tópico “notas antigas”, no qual surge referência “adiantar 15 p/JS” e em seguida a anotação “IPI até dez e pis/Cofins até jan”. Ainda relacionado a este tópico, há o título “Contribuição”, a partir do qual surgem várias referências de valores seguidas de siglas que a Polícia Federal ainda não buscou identificar.

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Documento também faz referência a ‘Vacareza’. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O nome do ex-tesoureiro do PT, segundo a PF, aparece ainda associado a outra obra, em um trecho mais abaixo da agenda do celular de Odebrecht. “Transnordestina. Vs. Embranav. Vaca 2,2M?”. De acordo com os investigadores, “Vaca” seria uma das referências a Vaccari. Ao longo das anotações, Marcelo utiliza de várias siglas e códigos para evitar identificar principalmente os políticos que cita. A Odebrecht atuou em trechos da obra da Transnordestina até 2013.

No pedido de indiciamento de Marcelo Odebrecht encaminhado à Justiça Federal, a PF atribui ao empresário preso “doações e pagamentos diretos” e “influência junto a instituições inclusive o Judiciário”. “Podemos constatar referências a nomes de autoridades públicas, doações e ‘pagtos. diretos’, influência junto a instituições (inclusive o Judiciário) sendo tais assuntos tratados em meio aos interesses comerciais do grupo empresarial.”, apontam os investigadores.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE CÂNDIDO VACCAREZZA

O advogado Marco Aurélio Toscano, que defende Cândido Vaccarezza informou que não vai se manifestar sobre o relatório da Polícia Federal pois ainda não teve acesso ao documento.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA LUIZ FLÁVIO BORGES D’URSO, DEFENSOR DE JOÃO VACCARI NETO

O advogado Luiz Flávio Borges D’Urso, que defende o ex-tesoureito do PT, declarou que João Vaccari Neto desconhece oficialmente o conteúdo das mensagens do celular do empreiteiro Marcelo Bahia Odebrecht. D’Urso reiterou. “O sr. Vaccari jamais solicitou propina ou doação de origem ilegal para o PT. Na verdade, a sua atribuição, enquanto tesoureiro do PT, era de pedir doações ao partido, todas lícitas, depositadas em conta bancária do PT. Foram expedidos os respectivos recibos com a conta prestada às autoridades competentes. Ou seja, tudo dentro da mais absoluta legalidade.”

COM A PALAVRA O DEPUTADO FEDERAL CARLOS ZARATINI

Carlos Zaratini (PT-SP) informou ao Estado que já se encontrou com Marcelo Odebrecht, apenas em eventos, e disse não saber do que se tratam as anotações. “Não tenho a menor ideia do que seja isso”, afirmou.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT

“As defesas aguardarão a oportunidade de exercer plenamente o contraditório e o direito de defesa.

Em relação a Marcelo Odebrecht, o relatório da Polícia Federal traz novamente interpretações distorcidas, descontextualizadas e sem nenhuma lógica temporal de suas anotações pessoais. A mais grave é a tentativa de atribuir a Marcelo Odebrecht a responsabilidade pelos ilícitos gravíssimos que estão sendo apurados e envolveriam a cúpula da Polícia Federal do Paraná, como a questão da instalação de escutas em celas, dentre outras.

O Relatório da Polícia Federal presta um desserviço à sociedade e confunde a opinião pública ao estabelecer suposições a partir de anotações pessoais de Marcelo Odebrecht, quando deveria ater-se a fatos concretos. Apenas no anexo 11 do referido Relatório constam 16 variantes de termos como “presume-se”, “possivelmente”, “é possível que” e “pode ser”…

A Odebrecht repudia especialmente a intenção de atribuir ao diretor-presidente da holding pretensas intenções extraídas de raciocínios especulativos, com o objetivo claro de prolongar prisão que, como a dos demais executivos que atuaram na Odebrecht, é totalmente ilegal e abusiva.

Em relação ao despacho do Juiz Sergio Moro, as defesas responderão dentro do prazo legal.”

POLÍCIA UTILIZA TARJAS PARA PRESERVAR A INVESTIGAÇÃO:

Por se tratar de investigação na 1.ª instância da Justiça, o relatório da Polícia Federal sobre as anotações do empresário Marcelo Odebrecht, revelado pelo Estado na terça-feira passada, possui tarjas pretas cobrindo os nomes de políticos.

A medida da PF, de cobrir os nomes, tem como objetivo preservar as investigações. As tarjas estão sobre as citações feitas a políticos que detêm, conforme a lei, foro privilegiado perante os tribunais superiores.
Com várias siglas e referências a obras e aos políticos, o relatório consta das investigações da 14.ª fase da Lava Jato que correm na 1.ª instância na Justiça Federal no Paraná.

Essa prática utilizada pela Polícia Federal é corriqueira quando a investigação depara com nomes e dados pessoais (como telefones) de parlamentares que só podem ser julgados perante o Supremo Tribunal Federal. A partir do relatório, os investigadores transcrevem mensagens que citam várias siglas e levantam dados de contatos e agenda no aparelho do executivo que, de acordo com os próprios investigadores e conforme divulgado pelo Estado, indicam nomes de políticos.

Em alguns casos, há registros de reuniões do empreiteiro com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), em outubro de 2014. O governador admitiu ter se encontrado com Odebrecht. Também há registro de reunião com o vice-presidente Michel Temer. No caso de Alckmin e Temer, os nomes não foram preservados porque, segundo a PF, apareciam citados na agenda em reuniões oficiais com o empreiteiro.