Anotações de Marcelo Odebrecht indicam preocupação com delação e ‘caixa 2’

Anotações de Marcelo Odebrecht indicam preocupação com delação e ‘caixa 2’

Registros no celular do empreiteiro revelam estratégias e preocupações do executivo que utiliza várias siglas para se referir a políticos e até a repasses que estão sob suspeita da Lava Jato

Redação

20 de julho de 2015 | 19h47

Por Mateus Coutinho, Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba e Fausto Macedo

 

Marcelo Odebrecht. Foto: Enrique Castro/Reuters
Marcelo Odebrecht. Foto: Enrique Castro/Reuters

Relatório da Polícia Federal sobre o celular de Marcelo Bahia Odebrecht apreendido na 14ª fase da Lava Jato revelam a preocupação do empreiteiro com a eventual delação de Rogério Araújo, ex-diretor que foi afastado da Odebrecht após ser preso na operação e apontado por delatores como responsável por operar os pagamentos de propina no exterior.

Nas anotações no celular do empreiteiro, feitas em tópicos e utilizando siglas e códigos, há um tópico específico “delação/fallback(RA)”, abaixo do qual aparecem as seguintes anotações: “Livrar todos e só eu; era amigo e orientado por eles pagou-se Feira de cta (possivelmente conta) que eles mandaram. ODB pagava campanha a priori, mas eh certo que aceitava algumas indicações a título de bom relacionamento”, diz o texto.

“Outro ponto polêmico na anotação 10048 (conferir abaixo), se refere a questão urdida por Marcelo para que Marcio Faria(outro ex-diretor da empresa preso na Lava Jato) e Rogério Araújo não movimentem nada e que serão reembolsados, bem como terão suas famílias asseguradas, pelo que se verifica, trata- se de estratégia para que Marcio Faria e Rogério Araújo não movimentem contas bancárias (remanescendo a dúvida se tais contas seriam nacionais ou não), que todos os gastos dos mesmos serão ressarcidos, bem como suas famílias não sofrerão desgastes financeiros.” aponta o relatório da Polícia Federal.

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VEJA A PRIMEIRA PARTE DO TÓPICO SOBRE DELAÇÃO NO CELULAR DE MARCELO ODEBRECHT

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Logo após a frase indicando a proteção aos executivos, há o tópico “higienizar apetrechos MF e RA”, que segundo a PF indica a tentativa de apagar material comprometedor nos celulares, tablets e pendrives dos ex-executivos.  Em seguida, aparece o tópico “vazar doação campanha”, que, contudo, não deixa claro de qual campanha seria este vazamento.

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Em outro momento, a anotação no tópico sobre a eventual delação chega a admitir possibilidade de “caixa 2”. “Campanha incluindo caixa 2, se houver era soh com MO, que não aceitava vinculação. PRC (Paulo Roberto Costa) soh se foi rebate de cx2. Armadilha Bisol/contra-infos”, seguem as anotações.

ABAIXO, SEGUNDA PARTE DAS ANOTAÇÕES DE MARCELO ODEBRECHT REFERENTES À EVENTUAL DELAÇÃO

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‘Feira’. Chamou a atenção da Polícia Federal ainda utilização da palavra “feira”, que posteriormente aparece relacionada a João Vaccari Neto. “Presume-se que esteja diretamente relacionada a distribuição de valores para pagamentos de contas estranhas a operação normal das atividades econômicas do grupo Odebrecht, tal assertiva se baseia em anotações datadas de 09/01/2013, onde Marcelo utilizada tal palavra vinculando-a ao número 40 e a Vaca (alusão a Vaccari)”, assinala a Polícia Federal.

Ao final do tópico sobre a eventual delação de Rogério Araújo, Marcelo Odebrecht ainda elenca várias siglas em referência a políticos, seguidas por um ponto de interrogação. ” Marcelo ainda anota as seguintes siglas: GA, FP, AM, MT, Lula e Ecunha, acompanhadas de ponto de interrogação, contudo, sem relacioná-las diretamente a qualquer assunto. Tais siglas se referem possivelmente a Geraldo Alckmin (governador de São Paulo), Fernando Damata Pimentel (governador de Minas), Adriano Sá de Seixas Maia (diretor jurídico da Odebrecht Transport), Michel Miguel Elias Temer (vice-presidente da República) Lula (ex-presidente) e Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados)”, aponta a Polícia Federal.

O relatório foi anexado ao pedido de indiciamento de Marcelo Odebrecht encaminhado à Justiça Federal no Paraná nesta segunda-feira, 20.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT

“Embora sem fundamento sólido, o indiciamento do executivo  e ex-executivos da Odebrecht já era esperado. As defesas aguardarão a oportunidade de exercer plenamente o contraditório e o direito de defesa. Em relação à Marcelo Odebrecht, o relatório da Polícia Federal traz novamente  interpretações distorcidas, descontextualizadas e sem nenhuma lógica temporal  de suas anotações pessoais. A mais grave é a tentativa de atribuir a Marcelo Odebrecht a responsabilidade pelos ilícitos gravíssimos que estão sendo apurados e envolveriam a cúpula da Polícia Federal do Paraná, como a questão da instalação de escutas em celas dentre outras.”

COM A PALAVRA, A DEFESA DE ROGÉRIO ARAÚJO

“A defesa de Rogério Araújo lamenta que a Polícia Federal tenha incorrido no mesmo erro do Ministério Público Federal ao associar telefonemas de Rogério Araújo a Bernardo Freiburghaus e pagamentos ao delator Paulo Roberto Costa. A defesa já demonstrou em petição apresentada à Justiça Federal que o cruzamento de dados feitos pelo MPF está repleto de inconsistências.
Tidos como prova de crime, comprovantes bancários, se submetidos a análise atenta, demonstram, entre outras observações, que:

pagamentos a Paulo Roberto supostamente ocorridos logo após ligações de Araújo foram feitos, em realidade, em datas anteriores a muitos dos telefonemas e não naquelas indicadas;
cruzamento feito pelo MPF desconsiderou a diferença de fuso horário entre Brasil e Suíça;
depósito citado de US$ 400 mil ocorreu quatro dias antes do telefonema a ele relacionado.

Nesse mesmo cruzamento de informações, o MPF aponta transferência para uma empresa chamada GB Maritime Ltda. e desconsidera que o próprio delator Paulo Roberto Costa afirmou à Força Tarefa que referida empresa foi criada pelo então cônsul da Grécia no Rio de Janeiro, ou seja, nada relacionado a Rogério Araújo ou ao Grupo Odebrecht.

Dra. Camila Vargas do Amaral
R,C, VA Advogados”

 

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