Anotação de preso na Furna da Onça registrava ‘amigo’ que monitorava investigação

Anotação de preso na Furna da Onça registrava ‘amigo’ que monitorava investigação

Delegada da PF comunicou vazamento de informação, ações de contrainteligência e listou indícios de que alvos buscavam canal na PF, MPF ou Justiça, ao indiciar cúpula da Alerj, em 5 de dezembro de 2018

Ricardo Brandt

25 de maio de 2020 | 10h00

Paulo Melo preso pela 1.ª vez em 2017, pela Lava Jata: dia 14, voltou para a cadeia. Foto: Wilton Júnior/Estadão

Relatório da Polícia Federal que indiciou os alvos da Furna da Onça, entre eles os ex-presidentes da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Paulo Melo e Jorge Picciani, o ex-governador Sérgio Cabral, o ex-líder do governo Edson Albertassi – todos do MDB -, apontou o suposto “vazamento de informações” sigilosas, indicando a existência de um “amigo” que “teria como ajudar a monitorar a ação dos investigadores”.

“Neste momento de conclusão da investigação é importante destacar os fortes elementos de apontaram o vazamento de informações da presente investigação, quando da deflagração da operação policial, o que demonstra que a orcrim (organização criminosa) continua tendo ‘tentáculos’ que podem alcançar os órgãos de investigação, demonstrando que são atuais e graves as consequências da articulação criminosa dos investigados”, escreve a delegada da PF do Rio, Xênia Ribeiro Soares, no relatório final preliminar da Furna da Onça.

O documento lista pelo menos cinco fatos descobertos com a deflagração da Furna da Onça, em 8 de novembro de 2018, que indicavam já naquela ocasião a atuação dos investigados para destruir provas, atrapalhar a apuração e a ação da Justiça.

‘Amigo’. Um dos mais extensos episódios registrados no relatório da PF envolve “um conjunto de 75 páginas escritas à mão ou impressas” apreendidos na casa de Andréia Cardoso do Nascimento, pela Furna da Onça. Parte deles teria sido escrito por Fábio Cardoso do Nascimento, seu irmão, de dentro da cadeia, antes da deflagração da Furna da Onça.

A delegada da PF, destaca a preocupação dos alvos, registrada nos bilhetes escritos pelos presos da Furna da Onça, em manter “pessoa a quem se refere como ‘ele'” na cadeia. O relatório registra que, possivelmente, “ele” seria “algum integrante de qualquer dos órgãos envolvidos nas atividades de investigação, como a própria Polícia Federal, o Ministério Público Federal, ou mesmo a Justiça“.

“Vc precisa continuar conversando com amigo, outras operações vão surgir com continuação das investigações das empresas citadas. Vão tentar manter ele aqui com novos dados. Veja se estão agindo e fazer o que tem que ser feito.”

“O extrato acima demonstra que Fábio Cardoso tem exata noção de que há mais fatos sendo investigados que o implicam, tanto que orienta alguém – provavelmente um de seus advogados – para que dedique especial atenção às prováveis investigações em curso, e para isso deveria manter contato com pessoa a qual se refere como ‘amigo’”, registra a PF, ao transcrever um relatório de análise sobre o material.

Contrainteligência. Fábio e Andréia foram presos pela primeira vez em novembro de 2017, na Operação Cadeia Velha,  que antecedeu a Furna da Onça.  Ambas são desdobramentos da Operação Lava Jato, com documentos de provas compartilhados, contra esquemas de corrupção na Alerj, capitaneados por Paulo Melo, Jorge Picciani e Edson Albertassi.

Andréia é ex-chefe de gabinete de Paulo Melo, na Alerj, e Fábio apontado como operador de Paulo Melo e também ex-assessor de Picciani. Em 22 de agosto de 2018, foram soltos, por decisão da Justiça, e presos depois em 8 de novembro, alvos da Furna da Onça.

Para a PF, os bilhetes encontrados mostravam que Paulo Melo e os assessores atuaram em ações de contrainteligência, monitorando investigadores, e buscando ocultar rastros dos crimes, atrapalhando as apurações e obstruindo a ação policial e da Justiça.

O material confirmaria que os alvos, não só reforçam os indícios de que houve vazamento da operação, como agiram para dificultar prisões e o encontro de provas: destruindo documentos, apagando arquivos físicos e digitais e contas de e-mails, se desfazendo de telefones e computadores, eliminando rastos dos crimes cometidos. Entre eles, corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, falsidade ideológica, entre outros.

Documento da PF diz que “praticamente em sua totalidade”, os bilhetes versam sobre “os fatos relacionados ao trio de presos, desde a Operação Cadeia Velha” – em referência a Paulo Melo e seus dois assessores.

“Uma análise inicial nos permite verificar que em sua maioria, os escritos são ordens a pessoa – ou pessoas – que as operacionalizariam fora da cadeia, seja destruindo provas, seja movimentando recursos para pagamento de despesas.”

São notas como: “sobre tel escrit., limpar todo e jogar ele fora”; “e-mail geral limpeza”; “achar um wifi sem vínculo (tipo público)”; “excluir qq e-mail do Guilherme, no meu e-mail”; “fazer nomeação, mas tem que trabalhar”.

O fato de os operadores de Melo terem passado os dois “meses fora da prisão”, antes de serem novamente detidos na Furna da Onça, teria servido para que apagassem ainda mais provas, procurando ainda potenciais testemunhas e aliados.

A PF diz ter visto evidência de que da preocupação de Fábio Cardoso “em adotar verdadeiras medidas de contra inteligência“.

Um bilhete destacado, nesse sentido, é uma ordem para que o emissário procurasse um dos filhos de Picciani, para tratar de nomeação no gabinete, em que o autor anota também a seguinte ordem: “Digitar esse papel, ñ circula com isso com minha letra não, P. favor”.

Ouvido na Furna da Onça, Paulo Melo negou que tivesse dado as ordens de destruir provas, registradas por Fábio Cardoso nos bilhetes apreendidos. Disse que nunca conversou com o assessor “sobre nenhuma daquelas orientações contidas naqueles documentos, nem antes, nem depois da prisão”, registra seu depoimento. “Nunca deu qualquer orientação para Fábio destruir ou ocultar qualquer prova.”

O autor dos bilhetes do cárcere foi interrogado pela PF, depois que eles foram descobertos na casa da irmã, em novembro de 2018. Fábio Cardoso negou o envio deles para fora da cela, disse que escreveu no período que esteve detido pela primeira vez – alvo da Cadeia Velha -, entre novembro de 2017 e agosto de 2018, e que nunca foram recebidos por ninguém.

O agente que analisou o conteúdo das notas escreveu no relatório que os bilhetes mostram “de maneira inquestionável que Fábio Cardoso atuou – ainda dentro da cadeia – para o comprometimento das investigações, emitindo determinações/ordenes/orientações” para terceiros adotassem ou repassassem os recados “para destruição de provas e outros elemento que corroborassem os avanços da equipe de investigação”.

Em um bilhete destacado,  o autor indica como contas de e-mails deveriam ser apagadas, sem registro do fato: usando uma rede de internet pública, que tornaria impossível a identificação do responsável e, ainda, eximiria o ordenante de culpa, já que estava preso e não poderia ter como acessar uma rede wi-fi fora da prisão.

Vazamento. Com 244 páginas, o relatório final da Furna da Onça é de 5 de dezembro de 2018. O material foi enviado ao Ministério Público Federal e ao Tribunal Regional Federal da 2.ª Região (TRF-2) e as suspeitas de vazamento, registradas nele, tornaram-se de conhecimento público, no dia seguinte a deflagração da operação – maior ofensiva da Lava Jato , aos esquemas de corrupção generalizada na Alerj.

Ao negar os primeiros pedidos de liberdades dos presos, no dia seguinte da operação, o desembargador Abel Gomes, relator da Furna da Onça no o TRF-2, registrou em sua decisão existência dos indícios de suposto “vazamento” de informações sigilosas”. Destacou que um dos alvos, ex-secretário do governo do Estado, recebeu a PF às 6h vestido formalmente e com diplomaem mãos – para evitar ser levado para uma cela comum.

“Vê-se que há indicativos fortes de que as diligências para recolhimento de elementos de convicção, que deveriam ocorrer em caráter sigiloso, de alguma forma ‘vazaram’, possibilitando, com isso, o conhecimento prévio por parte de investigados, que acabaram, ao que tudo indica, por destruir e ocultar provas”, registrou o despacho, de 12 de novembro de 2018.

A PF abriu em 2019 uma investigação para apurar o fato, mas o caso foi encerrado sem indicar a origem dos vazamentos. O caso foi retomado, após o empresário Paulo Marinho  afirmar em entrevista a Folha de S. Paulo, publicada dia 17, que em ouvi de Flávio Bolsonaro (Republicanos/RJ), de quem é suplente no Senado, que um delegado da PF do Rio “simpatizante” da família teria vazado dados da Furna da Onça, para assessores de sua confiança, entre o primeiro e o segundo turno das eleições daquele ano, realizadas nos dias 7 e 28 de outubro.

Paulo Marinho, ex-aliado. Crédito: Werther Santana/Estadão

Marinho, que é pré-candidato a prefeito do Rio pelo PSDB e ex-aliados da família Bolsonaro, disse ter ouvido de Flávio que o presidente, Jair Bolsonaro, teria ordenado a demissão imediata Fabrício Queiroz, que era assessor do senador na Alerj (ele foi deputado estadual de 2003 a 2018), e sua filha Nathalia Melo de Queiroz, que era assessora no gabinete na Câmara, de Jair. As demissões foram feitas no mesmo dia, 15 de outubro de 2018.

O Núcleo de Controle Externo da Atividade Policial, do MPF, que apura as informações de vazamento dadas por Marinho, requisitou os dados dos processos da Furna da Onça e da Cadeia Velha e deve ouvir nesta semana os assessores de Flávio, que teriam participado do episódio. Um deles é o chefe de gabinete do senador – que também cumpria a função, quando ele era deputado na Alerj -, o coronel da reserva Miguel Ângelo Braga Grillo.

“Rachadinha’. A Furna da Onça tinha entre seus documentos relatório de inteligência financeira feito no âmbito da Cadeia Velha e compartilhado com outras investigações – federais e estaduais. O documento do Coaf revelado pelo Estadão em 6 de dezembro de 2018, apontava movimentação suspeita de recursos de assessores, servidores e deputados da Alerj. Queiroz aparecia no material, mas não era alvo das investigações da PF e do MPF sobre “mensalinho” nos governos Cabral e Pezão.

Flávio em seu assessor Fabrício Queiroz. Foto: Reprodução

O ex-assessor de Flávio era investigado pelo Ministério Público Estadual, por suposto esquema de “rachadinha” nos gabinetes. O relatório do Coaf era a origem. Em outubro de 2018, as suspeitas levantadas de desvios no gabinete do filho Zero Um, que indicavam Queiroz como operador, eram competência do MP estadual do Rio. As apurações estavam em andamento, desde abril.

Nas investigações do MPF e da PF, o relatório do Coaf – em que aparece o nome de Queiroz – é apenas um dos elementos que comprovaram, segundo a denúncia, o esquema de pagamentos mensais de propinas a deputados estaduais – o chamado “mensalinho” da Alerj – conselheiros do Tribunal de Contas do Estado (TCE), contratações de servidores fantasmas, loteamento de cargos, no Executivo, Legislativo, nas autarquias e empresas estatais, no Detran (controlado politicamente por Paulo Melo), fraudes em contratos, entre outros.

A PF já havia pedido em agosto de 2018, no âmbito da Furna da Onça, uma quebra de sigilo dos alvos em que constava a existência do relatório do Coaf entre os documentos da investigação, sem indicar que Flávio Bolsonaro ou Queiroz eram alvos de interesse da apuração federal. Os documentos não incluem o senador no esquema de “mensalinho” da Alerj, durantes os governos do MDB, nem ele integrava a base aliada de sustentação dos governo Cabral e Luiz Fernando Pezão.

‘Mensalinho’. A Cadeia Velha e a Furna da Onça fazem parte da ofensiva iniciada pela Lava Jato sobre a “corrupção generalizada” nas gestões do Estado, durante os governos de Cabral e Pezão, do MDB, que garantiam a “fidelidade da base parlamentar aliada”, no Legislativo, com  pagamentos mensais de propinas, que variavam de R$ 20 mil a R$ 100 mil. Um rombo inicialmente calculado em mais de R$ 55 milhões.

A corrupção era paga com dinheiro desviado de contratos públicos, em conluio com empresários e empreiteiros, com negócios milionários com o governo. Era o sobrepreço em obras, com as do PAC, do Arco Metropolitano, entre outras, que era mantido o “caixa único” para distribuição das mesadas, alvo da Cadeia Velha, da Furna da Onça, da Senhores Feudais, Quinto do Ouro – segundo revelaram os operadores financeiros do esquema.

Os pagamentos foram confirmados por mais de um delator da Lava Jato – o operador do governador, Carlos Miranda, o doleiro Álvaro Novis, o diretor da federação da empresa de transportes Lélis Teixeira, e até mesmo por Cabral.

Além de Paulo Melo, Jorge Picciani e Edson Albertassi, foram presos os estão deputados: André Correa (DEM), Chiquinho da Mangueira (PSC), Jairo Souza Santos, o Coronel Jairo (MDB), Luiz Martins (PDT), Marcelo Simão (PP), Marcos Abrahão (Avante) e Marcus Vinícius ‘Neskau’ (PTB). Todos negam as acusações.

A rede de propinas mensais garantia aos ex-governadores – também presos pela Lava Jato – a governabilidade, a aprovação de projetos de interesse – bons ou duvidosos – e a garantia de blindagem aos negócios, que envolviam corrupção e arrecadação de dinheiro – para campanhas ou para enriquecimento próprio.

O delegado federal Alexandre Ramagem, atual chefe da Abin, foi um dos delegados da Cadeia Velha, que mandou para cadeia em 2017 Paulo Melo, Picciani, Albertassi, entre outros. Indicado pelo presidente, Jair Bolsonaro, para ser o diretor-geral da PF no episódio que resultou na demissão do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro e anulação da nomeação por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), ele já estava afastado na época da deflagração da Furna da Onça, cuidando da segurança pessoal do presidente, em sua campanha.

A PF registrou que mesmo depois de sua deflagração, com a prisão dos cabeças do esquema – Picciani, Melo e Albertassi -, ainda se verificava que eram “vários os esquemas criminosos em andamento”. “Ficou claro que as atividades criminosas não cessaram”, escreveu a delegada Xênia Soares.

‘Invenção’. O senador Flávio Bolsonaro rebate a acusação do ex-aliado da família e pré-candidato a prefeito Rio. Ele classificou a acusação de “invenção” e disse que Marinho tem interesse em prejudicá-lo, já que é seu suplente no Senado Federal.

Em nota publica, Flávio Bolsonaro disse que “o desespero de Paulo Marinho causa um pouco de pena” e que o empresário “preferiu virar as costas a quem lhe estendeu a mão”, ao trocar a “família Bolsonaro” pelos governadores de São Paulo, João Dória (PSDB), e do Rio, Wilson Witzel (PSC). “Parece ter sido tomado pela ambição.”

“É fácil entender esse tipo de ataque ao lembrar que ele, Paulo Marinho, tem interesse em me prejudicar, já que seria meu substituto no Senado. Ele sabe que jamais teria condições de ganhar nas urnas e tenta no tapetão”, escreveu Flávio, em seu perfil de rede social da internet.

“E por que somente agora inventa isso, às vésperas das eleições municipais em que ele se coloca como pré-candidato do PSDB à Prefeitura do Rio, e não à época em que ele diz terem acontecido os fatos, dois anos atrás?”, questiona o senador. “Sobre as estórias, não passam de invenção de alguém desesperado e sem votos.

COM A PALAVRA, A DEFESA

Os advogados de Fábio Cardoso do Nascimento argumentaram nos processos da Cadeia Velha e Furna da Onça que houve falhas nas acusações e negaram crimes.

Picciani, Melo e Albertassi negam envolvimento nos crimes narrados pelas acusações.

A reportagem busca contato com a defesa dos reús. O espaço está aberto para manifestação. (pepita.ortega@estadao.com) (rayssa.motta@estadao.com)

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