Anos de chumbo

Anos de chumbo

José Renato Nalini*

04 de outubro de 2020 | 10h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A ignorância teimosa sempre acompanhou a humanidade pretensiosa. A história registra inúmeros episódios que evidenciam essa opção pelo mais vantajoso, ainda que fatal. O uso do negacionismo como tática diversionista, apta a gerar dúvidas. Principalmente naqueles que não gostariam mesmo de acreditar na versão perigosa.

Um dos exemplos foi a temeridade de se usar chumbo na gasolina. Foi em 1921 que Thomas Midgley Júnior, em Ohio, empregado da General Motors, investigou o chumbo tetraetila e descobriu que ele poderia reduzir a vibração que todos chamavam “batida do motor”.

A utilização do chumbo era disseminada. As latas de alimentos recebiam solda de chumbo. A água era guardada em tanques revestidos de chumbo. O arseniato de chumbo era aspergido como pesticida nas plantações de frutas. A pasta de dente era acondicionada em tubos de chumbo. Por isso, entendeu-se natural o seu adicionamento à gasolina.

Não era desconhecido o trágico leque de efeitos por ele causados. Como neurotoxina, danifica o cérebro e o sistema nervoso central. A exposição ao chumbo causa cegueira, insônia, insuficiência renal, perda de audição, paralisias e convulsões e, além do mais, chumbo é cancerígeno.

Em 1923, General Motors, Du Pont e Standard Oil formaram uma joint-venture, a Ethyl Gasoline Corporation, para produzir o máximo de chumbo tetraetila. O produto fabricado recebeu o nome “etilo”, mais simpático e aparentemente inofensivo, já que “chumbo”, traduzia a ideia de algo pesado.

De imediato, os operários que fabricavam o produto começaram a cambalear e ostentar confusão mental. A Ethyl Gasoline, como é comum, negou qualquer correlação. A resposta era “os operários enlouqueceram porque trabalharam demais”. Quinze deles morreram logo no início da produção e muitos outros adoeceram de forma abrupta. A empresa abafava as notícias.

É o que normalmente ocorre ainda hoje, com os pesticidas proibidos no mundo civilizado e aqui liberados sem qualquer cuidado. A defesa da saúde é considerada conspiração contra a soberania nacional. Exagero de fundamentalistas ecológicos, que não percebem o quanto invejam o Brasil e querem vulnerar a sua ascensão ao pódio das nações mais consequentes e cuidadosas do planeta.

Aquele que nega a evidência e consegue se comunicar com desenvoltura, – ganhando pontos se passar por cientista e tiver obras publicadas – consegue fazer sua voz mais ouvida do que a dos cautos. E eles vão avançando com desenvoltura, em práticas pelas quais não responderão.

Foi o que aconteceu com o Midgley, entusiasmado com o etilo e agora pensando em resolver o problema do gás dos refrigeradores. Criou o CFC – clorofluorcarbono. Desde 1930, passou a entrar em geladeira, ar-condicionado, desodorante spray, tornando-se popular. Cientistas mostraram que eles estavam acabando com o ozônio da estratosfera.

O lucro suplanta qualquer crítica. Os estudos científicos são lidos por poucas pessoas. Imagine-se num país de iletrados, onde a habilidade leitora é algo restrito a um percentual ínfimo da população. Por isso é que o capitalismo selvagem, sem pátria e sem lei, faz o que quer em territórios deficitários em democracia participativa.

O episódio do chumbo é bastante eloquente. O efeito do chumbo nos seres humanos não era objeto de estudos aprofundados. Fazia-se uma apuração simplória, examinando-se a urina dos expostos ao chumbo. E concluíam que tudo estava bem. Não podiam ignorar que o chumbo não é excretado como produto residual. Ele se acumula nos ossos e no sangue.

Não é também de se estranhar que as pesquisas sobre o tema, durante quase meio século, foram custeadas exclusivamente pelos fabricantes de chumbo. Pior: o chumbo não desaparece. Em laboratórios credenciados, apurou-se que antes de 1923 não havia chumbo na atmosfera e, a partir daí, o nível crescera de forma assustadora. O cientista que conseguiu provar cientificamente esse fato, Clair Patterson, encontrou toda espécie de dificuldades. Foi boicotado, perseguido, caluniado. Não cedeu. Apenas em 1986 suspendeu-se a venda de gasolina com chumbo nos Estados Unidos. Os CFCs foram proibidos em 1974, mas seus efeitos perduram. As multinacionais continuam a produzi-los em fábricas espalhadas pelo mundo, menos na América do Norte.

Essa a luta de quem invoca o princípio da precaução para que a humanidade tome cuidado com aquilo que ainda não conhece. Mas que é fabricado, distribuído e tem o seu consumo incentivado pelo mercado. A massa ignara prefere acreditar naquilo que lhe dá menos problema, preocupação ou necessidade de pensar.

Melhor fingir ignorar que o mundo está acabando, pegando fogo, envenenado, poluído, sujo e perigoso. Só que a resposta não vem disfarçada. E, ao que parece, ela já chegou. Alguma coisa, aqui no Brasil, faz lembrar a estória do chumbo?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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