Anões morais

Anões morais

José Renato Nalini*

25 de fevereiro de 2022 | 09h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Impressionante a baixa qualidade da política partidária tupiniquim. Com os índices de credibilidade em baixa, parecem não perceber que ninguém mais se considera representado. A Democracia Representativa está falida. Os cidadãos repudiam os representantes que se esquecem do interesse público e cuidam de seus exclusivos interesses. Nenhuma relação com a urgência no trato da miséria e da exclusão.

A pandemia escancarou a situação trágica de milhões de brasileiros. Mais de vinte milhões passam fome todos os dias. Outras dezenas de milhões estão sofrendo insegurança alimentar. Quinze milhões de desempregados ainda não desistiram de procurar trabalho. Mas não são computados os milhões de subempregados, os que desistiram de procurar emprego, os informais, os sem perspectiva. Aqueles que eram “invisíveis” para os políticos, mas cuja visibilidade foi um soco na boca da representação partidária.

A situação de “pária ambiental” mostrou que o Brasil dilapidou, rapidamente, o patrimônio obtido após longa e gradual edificação reputacional, como protagonista importante na ecologia. Assiste-se, na inércia da Universidade, do empresariado, das instituições financeiras e até do Terceiro Setor, ao desmantelamento da estrutura de controle ambiental, em paralelo com o extermínio da Amazônia e dos demais biomas. Toma-se conhecimento de que o BNDES concedeu financiamento de mais de trinta e nove bilhões a exploradores ilegais de recursos da Amazônia. É o descaramento de se prestigiar o crime e de se punir a inocência.

Disseminam-se falsidades, mentiras, meias verdades, um processo de fanatização da sociedade, que atinge não apenas os iletrados, mas também os que se autodenominam cultos, escolarizados, intelectualizados. As redes sociais, concebidas para agregar, converteram-se em hostes agressivas, iradas, maledicentes e violentas. Incentivadas por uma política de armamento da população, sob o infeliz argumento de que não é só bandido que deve andar armado. Ilude-se quem quer ser iludido, reforça-se a tendência hobbesiana do “homem lobo do homem”.

Parece que o Brasil já era povoado por tribos aguerridas, perversas, preconceituosas e negacionistas, mas não tinha coragem de exibir esse obscurantismo. Foi preciso que o exemplo viesse de cima, para que a verdadeira face já não tivesse vergonha de se exibir. Despudoramente!

Diante dessa melancólica realidade nacional, em lugar de se trazer à mesa dos debates – e o Parlamento serve para isso: parlare, falar, dialogar – os temas cruciais e urgentes – como eliminar a miséria, reduzir a desigualdade social e enxugar o Estado – o que merece atenção e esgota o tempo dos partidos é a reeleição e o vexaminoso e inacreditável Fundo Partidário.

Um país que tem “orçamento secreto”, que aprova legislação para introduzir mais venenos na agricultura predatória da biodiversidade, que perpetua oligarquias no Parlamento, que acaba com a frágil e anquilosada educação, emascula a cultura, desrespeita a história, as artes e a tradição, legitima a apatia da juventude.

A mocidade tem repulsa pela política. E tem razão.

No momento em que se procuram alternativas à perpetuidade dos cargos, em que seria necessária uma abertura a novas ideias, já que as antigas não fascinam nem enganam mais ninguém, a não ser os lamentáveis currais eleitorais, verifica-se mais um exemplo da mentalidade pigmeia de alguns considerados “líderes” partidário.

Longe de renunciarem a práticas antigas, consagradas pela praxe do “político profissional”, uma excrescência denunciadora de nosso subdesenvolvimento, impõem o seu menu reivindicatório. Não se pensa no Brasil, tão combalido em todos os setores, mas no mesquinho e egoístico interesse pessoal: quais serão os meus cargos no próximo governo? Quais os familiares e protegidos que eu poderei emplacar em cargos federais ou estaduais? O que é que uma eventual coligação ou aliança trará, concretamente, em meu proveito?

Tal comportamento, próprio a anões morais, é um dos sintomas da indigência da vida político-partidária brasileira. Uma instituição agônica, a necessitar de remédios muito fortes, sob pena de fatal perecimento. É hora de se pensar na implementação do “recall”, para cassação do mandato em seu pleno curso, o “veto popular”, para revogar normas lesivas às atuais e futuras gerações e uma estratégia eficiente para reduzir o número de partidos. Instrumentos de enriquecimento de seus integrantes, de malversação de dinheiro público e de manter intocável a tirania dos que se eternizam e a seus filhotes no quadro político da Nação.

Alguém acredita na possibilidade de alteração desse quadro?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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