Ano de 2020. Jules Rimet ou 7×1?

Ano de 2020. Jules Rimet ou 7×1?

Roberto Dumas*

10 de julho de 2020 | 07h00

Roberto Dumas. FOTO: DIVULGAÇÃO

Futebol arte, futebol moleque, futebol criança. A copa de 70 há 50 anos nos causa certa nostalgia. Com as alegrias, lembramos também das mazelas dos governos militares tentando cercear a. população de informações “secretas”. Em 1974 surgia a epidemia de meningite, ainda me lembro. No começo nada demais, mas depois, nem sair de casa para uma festa com aglomeração era possível. Alguma coincidência com os dias de hoje? Tirando o tricampeonato de futebol no México em 1970 pelo 7×1 no Mineirão, parece que pouca coisa mudou.

O governo agora parece querer minimizar a doença para não assustar e derrubar a economia e depois percebe o estrago ocasionado na esfera da saúde e da própria economia. Em tempo, o governo militar da época reconheceu o problema, mas mesmo depois de derretermos a taça Jules Rimet, o Brasil ainda continua politizando uma crise de saúde.

Como se não bastasse, sem juízo de valor aqui, o Brasil entrou em uma guerra mesquinha entre executivo, legislativo e judiciário. E enquanto discutimos se devemos passar a “boiada” na legislação ambiental e zombamos do nosso maior parceiro comercial, a China, ainda perguntam se sairemos dessa crise rapidamente.

Pelo lado de nossas relações exteriores estamos armando cada vez mais a retórica de outras nações parceiras, de que qualquer acordo comercial do Mercosul deverá vir acompanhada de uma reviravolta em nossa política ambiental, que tende a prejudicar o nosso agronegócio. Meias verdades ou não cumpre ao governo mostrar iniciativas propositivas nesse sentido e não responder com mais arrogância. Pois é exatamente isso que os nossos competidores do agronegócio querem. Infelizmente mordemos a isca, pondo ainda em risco a ratificação pelas 27 nações europeias do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. Mal agouro para o setor do agronegócio. Se juntarmos os desmandos de algumas autoridades com posts deselegantes, chega a dar calafrios nos players do único segmento que logra ter algum crescimento no Brasil.

Mas e 2021? Teremos a América Latina deverá ter uma recuperação em “V” ou em formato de “nike“, comumente usados por muitos economistas? Ora, mesmo em momentos de lua de mel entre os três poderes, no início do governo brasileiro, infelizmente conseguimos aprovar apenas uma reforma que realmente endereçasse um pouco a dinâmica explosiva da nossa dívida pública. Louros ao ministro Paulo Guedes, jogado na cova dos leões e ainda sozinho, sem nenhum bravateiro da família para ajudá-lo. Há de se considerar dois riscos cruciais, que podem pavimentar ou enterrar nossa recuperação para 2021: Ao observar que de fato teremos nosso PIB ceifado um pouco mais do que 7.5% em 2020, qual o risco do executivo querer dar uma guinada fiscal irresponsável, jogando todas as fichas em um novo “plano Brasil”? Nesse caso a curva de juros deve se inclinar suscitando o famoso crowding out effect em investimentos privados e consumo. Ideia já tentada e fracassada no passado inúmeras vezes. Outro risco não menos importante: Em que pese uma nova aproximação do executivo com o centrão, e levando em consideração as manifestações contra o congresso “on a weekly basis”, qual será a vontade do legislativo em aprovar as reformas tão necessárias, que colocariam o pais em uma trajetória ascendente, justamente na largada da corrida presidencial?

Enfrentamos uma crise de saúde, política e econômica sem um plano conjunto entre os três poderes e outras instâncias governamentais. Nem um protocolo único de saúde temos. Urge que o país pense em como quer sair dessa crise e não desprezar os riscos expostos acima. Ainda há tempo.

Confesso que Colômbia e Peru poderão ter uma recuperação mais rápida dada suas contas fiscais mais acertadas. Receio maior ainda corre na Argentina, que continua suas tratativas com seus credores e alguns desacertos em sua política econômica, como congelamento de preços para controlar a inflação. Ora, los Hermanos esqueceram o plano Austral? Esqueceram o nosso Plano Cruzado? Congelamento de preços abaixo do nível de equilíbrio apenas suscita uma menor oferta de bens e serviços, causando uma deterioração ainda maior no bem estar da população. Se compararmos a recuperação da América Latina com os países da zona do Euro, que não tem política fiscal única e nem política cambial para cada país, talvez nossos irmãos logrem sair melhor que eles e até que o Japão, mas dificilmente teremos uma recuperação econômica mais rápida do que os norte-americanos e os chineses. Tristes trópicos!

*Roberto Dumas, economista, professor do Insper e Ibmec

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