América Latina, aço e as mudanças climáticas

América Latina, aço e as mudanças climáticas

Máximo Vedoya*

15 de novembro de 2021 | 14h35

Máximo Vedoya. FOTO: DIVULGAÇÃO

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas em Glasgow (COP26) alertou, mais uma vez, sobre a necessidade urgente de reduzir a pegada de carbono em todo o mundo.

É necessário que todos os setores (governos, indústria e consumidores) atuem sobre o assunto para realizar ações concretas, precisas, mas, acima de tudo, tangíveis e viáveis ​​para reduzir as emissões de CO2.

Nesse sentido, o aço é o protagonista no combate às mudanças climáticas e na transição energética para uma economia descarbonizada. Isso se deve à sua presença em todos os setores necessários a essa mudança como infraestrutura, habitação, mobilidade ou energias renováveis, mas, principalmente, pela sua alta reciclabilidade. No mundo, o aço é mais reciclado do que todos os outros materiais combinados, então o potencial é enorme. Não há substituto para o aço na economia circular e devemos trabalhar para uma produção cada vez mais limpa.

A indústria siderúrgica global está avançando. A América Latina, em particular, também assumiu esse compromisso. As grandes empresas siderúrgicas regionais lançaram planos e programas para reduzir essa pegada até 2030 e continuar esse caminho até 2050, de acordo com o Acordo de Paris.

No entanto, devemos ser realistas. O maior desafio que temos no setor siderúrgico é, principalmente, a redução das emissões dos altos-fornos. No momento, não existe uma solução definitiva para este problema. Existem maneiras de reduzir ligeiramente as emissões, mas ainda não há uma resposta técnica disruptiva no nível do mercado, como o hidrogênio verde, o uso de biomassa ou energias renováveis ​​passíveis de serem implementadas em operações em escala industrial.

Se buscarmos ter uma indústria com menor pegada de carbono que invista em processos mais limpos e sustentáveis, teremos que trabalhar juntos, pois serão necessários investimentos de capital significativos, além de infraestrutura, acesso ao gás como combustível de transição e com baixa emissão, promoção do desenvolvimento de energias renováveis, disponibilização de sucata para reciclagem e promoção da pesquisa tecnológica.

Este é o maior desafio que enfrentamos como indústria e como região, com desafios ou restrições macroeconômicas não menores. Todos nós queremos e investimos na produção de um aço mais verde, mas o caminho é complexo e requer grandes injeções de capital: quem vai arcar com esses custos, a indústria, os governos ou o mercado?

Não existe uma resposta única. Cada parte do mundo é muito diferente e as soluções também deveriam ser. As emissões médias da indústria siderúrgica mundial são de 1,8 toneladas de CO2 para cada tonelada de aço produzida, a China 2,2, enquanto a América Latina gera 1,6 toneladas de CO2 para cada tonelada de aço fabricado. A nossa região, que já apresenta um nível de emissões inferior, tem uma posição ímpar devido às suas condições geológicas e geográficas e ao seu acesso a recursos naturais renováveis.

Se os governos adotarem ações mal planejadas, sem levar em conta as diferenças regionais e desestimulando os grandes investimentos que se fazem necessários, podem gerar um crescimento das importações de outras regiões, em detrimento de uma produção regional mais eficiente em questões ambientais e tão necessárias ao nosso desenvolvimento.

Por isso, e pelo impacto em outras indústrias, o diálogo e a colaboração público-privada são essenciais para definir os mecanismos, incentivos e financiamentos necessários a essa transição. Europa, Canadá e Estados Unidos já têm esses temas em pauta, a China também fez anúncios. É hora de decidir como vamos estruturar esse processo na América Latina e como podemos atrair as futuras gerações de profissionais, engenheiros e engenheiros, para nos ajudar a alcançá-lo.

Na próxima semana nos encontraremos para discutir todas essas questões de São Paulo no Alacero Summit 2021, junto com líderes industriais como Aditya Mittal e Paolo Rocca, e especialistas internacionais como Jeffrey Sachs, Xavier Sala-I-Martín, Moisés Naim e Susan Segal entre outros.

O caminho é claro, como percorrê-lo pode determinar como nossa região pode aproveitar as oportunidades e ser protagonista de um mundo mais sustentável.

*Máximo Vedoya, presidente da Associação Latino-Americana do Aço (Alacero)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.