Amém ou amem-se?

Amém ou amem-se?

Ricardo Viveiros*

11 de setembro de 2020 | 07h00

Ricardo Viveiros. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Jihad é uma ação que integra o conceito de “guerra santa”. Pode ter diferentes interpretações que vão desde um ato jurídico, passando por princípio religioso até a prática de terrorismo. O termo se tornou popular no mundo em razão de grupos fundamentalistas islamistas.

Nos primeiros séculos do islã, o jihad era parte de uma ideologia imperialista árabe de conquista. Mais tarde, se tornou universalista na expansão e defesa da fé professada pela sua comunidade e, por fim, mais recentemente, se constituiu em elemento filosófico da luta armada nacionalista contra os colonizadores. Por fim, um elemento de luta espiritual na prática da guerrilha em nome de Deus. A rigor, um modo de vida e missão moral.

Há 19 anos, em 11 de setembro de 2001, a Al-Qaeda (que significa “alicerce”, “base”) – organização fundamentalista islâmica criada nos anos 1980 por Osama bin Laden e outros líderes –sequestrou aviões comerciais lançando-os contra as Torres Gêmeas e o Pentágono, nos EUA. Morreram milhares de pessoas.

Planejados sob astuta estratégia inserida no conceito de jihad, as ações envolveram 19 terroristas bem treinados pela Al-Qaeda. Os primeiros alvos dos terroristas, no que se tornou conhecido como “11 de Setembro”, foram as Torres Gêmeas, parte do complexo do World Trade Center (WTC), em Nova Iorque. Os terroristas embarcaram em quatro voos diferentes partindo da Costa Leste dos EUA com destino a Califórnia. Os aviões pertenciam a American Airlines e a United Airlines. Dois deles colidiram contra as torres Norte e Sul, outro contra o Pentágono (sede do Departamento de Defesa norte-americano) e o último, cujo destino era o Capitólio (que abriga o Senado e a Câmara), caiu antes de atingir o alvo, estes dois últimos locais em Washington.

O World Trade Center era um complexo formado por sete edifícios, sendo as Torres Gêmeas os mais conhecidos entre eles. Inaugurado em 1973, era um dos cartões-postais de Nova Iorque. O conjunto ficava no centro financeiro da cidade e, quando do ataque, cerca de 15 mil pessoas estavam nas torres. O avião lançado contra o Pentágono, causou a morte de 125 pessoas.

Logo após o ataque à primeira torre, a imprensa já havia se mobilizado. No momento em que a segunda torre foi atacada, as imagens transmitidas “ao vivo” pela TV alcançaram o Mundo. A cobertura jornalística das consequências dos ataques acompanhou o trabalho de resgaste e o incêndio que atingiu os alvos. As Torres Gêmeas desmoronaram criando uma onda de fumaça e terror por centenas de metros ao redor.

Realizado o trabalho de contagem das vítimas, dias depois, os atentados resultaram em 2.996 mortes, das quais 2.606 foram de pessoas em Nova Iorque, 125 em Washington, 246 dentro dos aviões (tripulação e passageiros inclusos). E por fim, soma-se também a morte dos 19 terroristas que atuaram nos ataques.

Fato interessante para um país de reconhecido poderio bélico e grande estrutura de defesa, o “11 de Setembro” foi o primeiro grande ataque que os EUA sofreram em seu território desde o realizado pelo Japão contra a base naval de Pearl Harbor, em 1941. Depois desses atentados as normas de segurança de voos comerciais tornaram-se extremamente rígidas, e o país tomou severas medidas para combater o terrorismo. Por essa razão, foi criada uma lei chamada de Ato Patriota, que, posteriormente, foi substituída pelo USA Freedom Act.

Osama bin Laden foi morto por uma ação norte-americana em Abbottabad (Paquistão), em 2 de maio de 2011. Outro articulador do atentado, Khalid Sheikh Mohammed, está preso à espera de julgamento previsto para o ano que vem. É possível considerar que o grande motivo do ataque foi o extremismo de Laden e seus comandados. Eles consideravam os Estados Unidos como um grande inimigo em razão da presença de tropas americanas no Oriente Médio. Laden foi um instrumento dos EUA na Guerra Fria contra a União Soviética. Mais tarde, a criatura se voltou contra o criador…

Os americanos passaram a apoiar grupos reacionários do interior do país, que recebiam dinheiro e armas dos EUA. Esses grupos, conhecidos como mujahidin (“guerreiro santo”) convocaram um jihad contra os soviéticos – depois que o Afeganistão foi invadido pela URSS – e começaram a defender ideias conservadoras, o que resultou em fundamentalismo islâmico. No curso da guerra, bin Laden foi convocado a aderir à luta armada e, por isso, mudou-se para o Afeganistão.

No final da década de 1980, bin Laden ampliou o combate contra os “infiéis” fora do Afeganistão e, assim, participou da criação da Al-Qaeda. Até essa época, a relação dele com os americanos era ótima, mas veio a Guerra do Golfo e tudo mudou. Em 1990, o Kuwait foi invadido pelo Iraque, e a família real kuwaitiana foi abrigada em Riad, capital da Arábia Saudita. A situação azedou as relações entre sauditas e iraquianos e criou a possibilidade de invasão do território saudita pelas tropas iraquianas. Bin Laden, aproveitando-se disso, ofertou ao governo saudita suas tropas (da Al-Qaeda) para proteger o território da Arábia.

Os sauditas, por sua vez, recusaram o apoio de bin Laden e aceitaram a ajuda dos norte-americanos. Laden considerou isso uma ofensa, afirmando ser um sacrilégio o fato de “infiéis” protegerem o solo sagrado da Arábia Saudita. Vale dizer que Osama bin Laden era de família nobre e rica, próxima da corte saudita. Ele afirmava que o solo pátrio estava sendo profanado. Assim, passou a nutrir um ódio profundo pelos EUA. Tal situação levou bin Laden a ser expulso da Arábia Saudita, refugiou-se no Sudão e, depois, no Afeganistão – local onde a Al-Qaeda organizou o ataque contra os Estados Unidos como forma de vingança.

Em outubro de 2001, tropas americanas invadiram o Afeganistão com o objetivo de derrubar o Talibã do poder. O atentado de 11 de Setembro gerou grande comoção nos EUA, e o revide do governo norte-americano foi imediato. Em outubro de 2001, o exército americano iniciou a invasão do Afeganistão. O objetivo era derrubar o Talibã, o governo (também de orientação fundamentalista) que havia dado abrigo à Al-Qaeda.

A invasão derrubou o Talibã, mas até hoje não normalizou a situação do país. Barack Obama havia prometido em campanha para a presidência dos EUA retirar as tropas norte-americanas do Afeganistão, não cumpriu. Ainda há combates no Afeganistão contra tropas do Talibã, que procura recuperar o poder. E segue a presença de tropas norte-americanas no conflito mais longo da história dos EUA. A consequência dessa guerra para o Afeganistão foi que, entre 2001 e 2016, só entre civis, cerca de 31 mil pessoas já morreram.

Enfim, neste 11 de setembro de 2020, em plena luta contra a pandemia da Covid-19 e suas tristes consequências, vale refletir sobre o que disse o filósofo iluminista francês François-Marie Arouet, conhecido pelo pseudônimo de Voltaire: ” O curioso da guerra é que cada chefe de assassinos faz abençoar suas bandeiras e invoca solenemente a Deus antes de lançar-se a exterminar o seu próximo”.

Amém ou amem-se?

*Ricardo Viveiros, jornalista e escritor, é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP) e da Academia Paulista de Educação (APE). Autor de vários livros, entre os quais Justiça seja feita (Sesi-SP); A vila que descobriu o Brasil  (Geração); e Educação S/A (Pearson)

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