Ameaças ao poder

Ameaças ao poder

José Renato Nalini*

08 de março de 2022 | 05h30

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A ânsia de poder enlouquece os homens. Em sua busca, esquecem-se dos princípios, renegam a virtude, vendem sua alma. Uma vez alcançado, ele se torna fonte de tormento. O medo de perdê-lo. Daí a intensificação da volúpia preservadora, a insensatez sem limites, o rompimento de qualquer espécie de freio inibitório.

Em “O poder em cena”, Georges Balandier observa que “o poder está sujeito a ameaças constantes: a da verdade que quebra o quadro de suas aparências; a da suspeita que o obriga a manifestar sua inocência; a do desgaste que o obriga a revigorar-se periodicamente”.

No século 21, notadamente neste emblemático 2022, a verdade já não representa ameaça. Vive-se a era da inverdade. A falsidade, a mentira, a versão repaginada, tudo impulsionado pelos algoritmos que manipulam os dois neurônios que ainda funcionam na cabeça de milhões.

Repete-se a clássica pergunta de Pilatos a Jesus: – O que é a verdade? Mas em tom de deboche. Hienas gargalham. Desde que lhes sobre carniça.

As suspeitas estão à espreita e aprofunda-se a desconfiança da população quanto a tudo o que envolve a política partidária. Quem presta atenção não tem dificuldade em detectar que tudo aquilo que se confia ao Estado, é menos eficiente, é mais dispendioso, burocratizado, difícil de atender às expectativas do necessitado e paira, plúmbea e pesada, a dúvida sobre a idoneidade dos operadores dos recursos do Erário.

O desgaste é relativo. Os que continuam a auferir vantagens de qualquer espécie de poder, são seus ferrenhos defensores. Não admitem a crítica, são surdos a qualquer ponderação, colocam aquele que pretenda alertar sobre qualquer equívoco ou descaminho, na condição de inimigo a ser abatido. Não é metáfora, mas com o estímulo e o incentivo ao armamento, aumentam as chances de uso efetivo desse instrumento letal que, para uma humanidade civilizada, sequer deveria ser fabricado.

O êxito da indústria armamentista funciona como termômetro do grau de selvageria e barbárie em que a sociedade mergulhou, exatamente ao contrário do que se previa: a evolução contínua rumo à perfectibilidade das criaturas racionais.

O poder dispõe de meios regulares de se por à prova e de mostrar seu vigor. Realiza desfiles militares, para exibir seu poderio. Será que a próxima guerra mundial será convencional? Ou existem mísseis poderosíssimos, bombas de nêutrons que poupam construções e matam os humanos, muito mais eficientes e menos dispendiosos?

Mais efetiva, eficaz e eficiente ainda, recorrer às redes sociais. A Inteligência Artificial programa com seus zelosos algoritmos, as mensagens que vão subjugar todas as mentes. A começar por aquelas que querem acreditar e que já estão predispostas a aceitar qualquer explicação. Por mais absurda, bizarra ou surreal possa parecer.

O Brasil, espaço propício às pesquisas antropológicas, sociológicas, psicológicas e psiquiátricas, oferece infinitas possibilidades de apuração do êxito obtido pelo poder para se perenizar. Conta com o número crescente de iletrados. E também com os mal-intencionados. Além da tradição monárquica. Por mais que se afirme a opção pela República, e uma República Federativa, além de tudo, predomina a visão imperial. O séquito fiel à Coroa. Os rapapés, a tática das homenagens, o servilismo, a opção preferencial pela obediência.

Não há comportamento republicano que servir possa de modelo. Os padrões são miseráveis. Explora-se o imaginário coletivo, com práticas ritualizadas de satanização do adversário. Não é apenas a eficácia simbólica a ser conquistada. É também o promissor alcance político.

Pode-se cancelar o carnaval, por causa da pandemia. Só que as fantasias, aqui, são utilizadas o ano inteiro. O Carnaval deu certo no Brasil, porque ele incide sobre uma estrutura social ilustrada pelos grandes rituais nacionais, tudo para engrandecer a ordem, seus valores, seus códigos, suas hierarquias, como observa Balandier, invocando Roberto da Matta.

Tudo acalentado pelas mídias, que têm sua própria lógica. São onipresentes, converteram ouvintes, telespectadores e leitores em artistas. Todos produzem, todos veiculam sua opinião, todos pontificam. Enquanto isso, o poder sobrepaira, tranquilo, sabendo que vale a pena investir nele mesmo. Cada dia mais. Ele se converte em seu propósito e em sua exclusiva finalidade. Ninguém o ameaça.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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