Ambientes fechados: recomendações da OMS criam desafios para contenção da covid-19

Ambientes fechados: recomendações da OMS criam desafios para contenção da covid-19

Gerson Luqueta*

08 de agosto de 2020 | 05h00

No início de julho de 2020 a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu, baseada em um documento referendado por vários cientistas em todo o mundo, que a transmissão da Covid-19 pode ocorrer pelo ar. De acordo com as novas diretivas, há o entendimento que o vírus causador da doença pode “pegar carona” em partículas menores suspensas no ar e alcançar distâncias bem maiores do que se acreditava até então, o que tornaria o distanciamento social de dois metros insuficiente.

Os estudos relativos ao tema levaram a OMS a recomendar que, sempre que possível, os ambientes devem ter ventilação natural.

A recomendação se baseia no fato que em ambientes ventilados naturalmente a concentração de partículas aspiráveis no ambiente é menor, ao mesmo tempo que o ar tem velocidade relativamente baixa. Com menos partículas suspensas e velocidade de deslocamento reduzida, o vírus tem menor probabilidade de propagação, diminuindo o contágio.

Por isso, entrar em um elevador, passear no shopping, fazer compras no supermercado ou até mesmo ir ao cinema ou a um museu virou tarefa das mais difíceis.

Em ambientes fechados, principalmente os que utilizam condicionadores de ar convencionais ou centrais, a situação geralmente segue no sentido oposto, ou seja, há uma tendência natural do aumento de partículas que carregam agentes patogênicos e o deslocamento de ar tende a ser mais intenso, pois é forçado pelos ventiladores internos dos aparelhos.

Gerson Luqueta. Foto: Acervo pessoal

Muitas edificações como escritório, shoppings, cinemas, entre outros não permitem, todavia, a mudança de um ambiente totalmente confinado para ventilados naturalmente, seja pela natureza do projeto ou pela problemática causada pela perda de acústica ou conforto térmico. Surge aí um problema: o que se pode fazer para reduzir o contágio em ambientes que não podem contar com ventilação natural? A resposta pode estar no uso dos chamados esterilizadores de ar.

Esterilizadores de ar são equipamentos que captam o ar contaminado por um ponto de entrada e devolve-o em ponto de saída livre da grande maioria dos fungos, bactérias e vírus causadores de doenças. As técnicas mais utilizadas para esterilização de ar são o uso de filtros bacteriológicos (capazes de reter partículas muito pequenas), calor (onde o ar passe por uma superfície incandescente que destrói os microrganismos) e radiação ultravioleta (que destrói os microrganismos pela ação da luz UV).

O uso dos filtros bacteriológicos conhecidos HEPA (do inglês High Efficiency Particulate Arrestance) é o mais comum, inclusive sendo aplicados em sistemas de ar condicionado modernos. Suas vantagens estão no baixo custo de aquisição e simplicidade de aplicação. Sua principal desvantagem é que por serem uma barreira mecânica filtrante, podem deixar “passar” vírus e partículas menores.

Os esterilizadores por calor são de simples construção e tem baixo custo, mas tem como principais desvantagens o fato de aquecerem o ambiente, provocando maior consumo de energia elétrica.

A radiação ultravioleta tipo C (UVC) é, entre os três métodos, a mais eficiente em termos de capacidade virucida, mas também é a mais cara. Um outro problema do uso da luz UVC é que ela não pode ficar exposta diretamente nos ambientes onde ocorre a presença de pessoas, pois a exposição direta à luz UV pode causar danos aos olhos e a outros tecidos. Câmaras de UVC devem ser enclausuradas, aumentando ainda mais o custo de implantação dessa solução.

A boa notícia é que já tem empresas no Brasil produzindo um equipamento que combina a filtração esterilizante e a radiação por luz ultravioleta e uma única máquina para prover uma medida complementar às ações de contenção da Covid-19 em ambientes fechados.

Diferentemente dos sistemas de ar condicionado, que tem a insuflação e a retirada do ar pela parte superior das instalações (geralmente junto ao teto), esse sistema capta o ar mais próximo das pessoas e das superfícies e o devolve esterilizado quase que instantemente no ambiente.

Como a ventilação interna do equipamento é controlada, esse esterilizador de ar se comporta como se fosse uma janela aberta no ambiente, emulando um processo de ventilação natural, mesmo com o sistema de ar condicionado ligado.

Além do esterilizador de ar, já estão produzindo também um equipamento específico para elevadores, que representam um risco adicional, já que fica mais difícil o distanciamento a níveis adequados.

O sistema desenvolvido permite, depois que as portas são fechadas, que o ar seja totalmente processado em menos de um minuto. Dentro do elevador, as pessoas recebem um “chuveiro” de ar esterilizado. Com isso, mesmo que existam pessoas desprendendo partículas contaminadas, essas serão rapidamente capturadas e a carga microbiana será reduzida. Quanto mais tempo o elevador permanecer fechado, maior será a quantidade de partículas retiradas.

*Gerson Luqueta – doutor em biomédica, especialista em controle de contaminação e gerente da Divisão Purifica do Grupo Baumer

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