Ambientes compartilhados e a solidão

Ambientes compartilhados e a solidão

João Roncati*

08 de outubro de 2019 | 15h00

João Roncati. FOTO: DIVULGAÇÃO

Andando por várias empresas principalmente de grande porte, pude observar que está totalmente consolidada a tendência dos ambientes abertos e compartilhados.

Lembrando que no gênese das grandes empresas, os escritórios, como as fábricas eram dominados por grandes salões. Fruto da dinâmica da supervisão direta, os chefes à época sentavam-se às vezes, em lugares mais altos, para conseguir enxergar todos os seus funcionários. Com o tempo, instalaram-se salas para separar áreas, restringir acesso à informações ou documentos restritos, por hierarquia e uma série de outros motivos. Na década de 90, o movimento de reinstalar os grandes salões ganhou muita força e foi a acelerado nos últimos cinco anos. Agora denominados de ambientes compartilhados, um retorno a espaços comuns, derrubando paredes e divisórias.

Acredito que não erro em afirmar que esta mudança profunda e de grande impacto na cultura das organizações, trouxe ganhos inequívocos, mas também preocupantes incômodos. E a questão é: será possível aumentar o isolamento das pessoas num ambiente compartilhado? Quando olhamos em retrocesso, os projetos inicialmente concentraram-se em reduzir muito o número de sala individuais, realocando profissionais em grandes bancadas ou mesas, às vezes separados em áreas ou departamentos (como Financeira, Marketing, Atendimento, etc). O impacto visual era evidente, pois abriram-se “horizontes” em andares inteiros que antes eram entrecortados por salas de diversos tamanhos.

Junto com os ambientes abertos foi possível ver muitas outras novidades como extinção das gavetas nas bancadas (algumas empresas disponibilizaram armários ou escaninhos individuais), mesas e bancadas que se convertiam em mesas de reuniões, salas de reunião em menor número e totalmente envidraçadas. Os ambientes ficaram mais abertos, a luz passou a ser melhor distribuída, as janelas (que antes eram privilégios de alguns: “sua sala tem janela? Que máximo!”). A circulação melhorou, e muito!

Progressivamente, empresas passaram a adotar áreas de convivência também, como áreas de café e lanches, salas com sofás e puffs, mesas cercadas de sofás de parede (como víamos apenas em lanchonetes). As cores multiplicaram-se: os primeiros ambientes compartilhados eram cinza ou gelo, cores predominantes nos móveis de escritório. Pouco a pouco, muitas outras cores, tons e texturas passaram a predominar, impregnando o dia a dia de cores vivas. No início de forma decorativa, agora também com superfícies para escrever (vidros, quadros brancos, paredes em “lousa”), adornados por muitos post-its ou semelhantes, impulsionadas por muitas técnicas adotadas como na gestão “Agile”.

A comunicação visual avançou muito e foi perdendo a sisudez. As empresas aproveitaram a ampliação dos horizontes internos e aprofundaram o endomarketing sobre diversos temas (Propósito e valores, programas de Cultura, campanhas de saúde, etc). Hoje é bastante comum entrar em andares e ver banners pendurados, portas e paredes adesivadas com conteúdos que reforçam a identidade da organização e trazem para o cotidiano símbolos fundamentais.

As pessoas passaram a se olhar mais, se “enxergar”. A individualidade dos espaços de trabalho foi cedendo lugar ao um coletivo, que interessava muito no desenvolvimento da cooperação e no aumento da velocidade de compartilhamento de informações e “situações”: você vê e ouve o seu colega de trabalho discutindo assuntos ou problemas em que pode contribuir. Ganhou- se muito em comunicação efetiva.

A ginástica laboral ganhou aceleração também, porque os espaços passaram a ser abertos, e um profissional orienta movimentos para um conjunto maior de pessoas.

Junto com este processo, algumas empresas motivaram o “home office” e reduziram os postos de trabalho possíveis, ou seja, uma redução de lugares nas bancadas (espaço e cadeira) e não raro, ouvi com orgulho executivos dizerem: “se todos nossos funcionários vierem trabalhar no mesmo dia aqui, não temos lugar para eles sentarem”. No aprofundamento do coletivo em detrimento do individual, ninguém mais tem lugar fixo: senta onde tiver espaço.

Mas será que o ambiente compartilhado é sempre bom? Eu me lembro de ter visitado uma empresa que tinha acabado de investir uma quantia razoável de recursos em reformar todos os seus andares e como última etapa os diretores perderam suas salas e passaram a estar sentados junto às suas equipes. Fui apresentado ao novo ambiente por um diretor jovem, meu cliente. Já na saída, ao me acompanhar gentilmente até o hall dos elevadores, e num tom informal que a nossa convivência permitia, desabafou: “só gosta de ambiente compartilhado quem não trabalha nele! Estou com um problema sério em casa e cada vez que preciso atender ao telefone e discutir assuntos particulares, todo mundo fica olhando e ouvindo!”

Aquilo chamou minha atenção. Certamente era uma situação específica, onde possivelmente a intensidade do que este profissional estava vivendo, o motivou ao desabafo e ao forte incomodo com o novo espaço de trabalho. Mas, quantas outras situações semelhantes os outros 1.500 profissionais viviam ou viveriam a partir dali, onde involuntariamente precisavam compartilhar assuntos pessoais, obrigando-se a quase cochichar ao telefone?

Notei também outras situações: algumas reclamações com gente que fala habitualmente mais alto, profissionais que levantam muito durante o dia, gente que come o dia todo, e por aí vai… paralelamente à mudança dos ambientes de trabalho, a tecnologia continuou avançando e mudando alguns de nossos hábitos. Neste mesmo período, cresceu a adesão aos apps de música, filmes, chats, mensagens. Nossos celulares ficaram muito mais versáteis e potentes e, também os fones de ouvido.

Todos nós passamos a assistir nos lugares públicos às pessoas mergulhadas em seus celulares e, de fone de ouvido. Este acessório, quase esquecido lá na década de 80 e substituído por alto-falantes de alta fidelidade (quem não teve ou quis ter um home theater em casa?) foi ficando mais acessível e barato (maiores também!). Então aqueles fones que vinham junto com os celulares passaram a ganhar potência ou foram substituídos pelos usuários por fones muito maiores, coloridos, sem fio. Estes fones ganharam inibidores de som “externo”, ajudando a melhorar sua experiência e, seu isolamento.

Estes mesmos fones, invadiram os espaços de trabalho. No início ouve alguma discussão sobre o uso: seriam permitidos ou tolerados? Discussão que morreu rápido. Estão presentes, disseminados, incorporados e, para algumas pessoas viraram acessório inseparável (vemos gente almoçando com eles pendurados no pescoço) que vem para o trabalho, vai para a academia e ajuda a dormir.

Portanto, estão lá: no ambiente de trabalho. Olhe ao seu redor. E com eles, o isolamento.

Continuo andando por meus clientes e num deles, entrei num andar compartilhado, bem decorado e notei algo curioso: todos, sim, 100% dos funcionários de fone de ouvido. O que chamou mais ainda a atenção: os fones eram iguais! Bonitos e de alta fidelidade com inibidores de sons externos, foram fornecidos pela empresa porque estavam tendo problemas de muito ruído, falta de concentração, reclamações sobre colegas barulhentos. Achei extremamente curioso: um ambiente compartilhado em que os profissionais estavam fisicamente visíveis, mas isolados, separados, individualizados. E, institucionalmente separados pelo aparelho fornecido pela empresa. Cada um mergulhado em sua rotina, concentrados, um ambiente silencioso, parecido com um andar todo dividido em salas, trancadas com suas portas e as vezes janelas. Um silêncio incomum, quase ruidoso, perturbador.

A correlação direta e curiosa com nossos espaços públicos é inevitável: num mundo visual altamente estimulado pelas redes sociais onde compartilhamos o melhor de nós mesmos em imagens, nós nos vemos, mas nem por isso convivemos.

Será esta uma nova forma de solidão no trabalho? Socialmente sabemos que sim, já que nos vemos mergulhados, de olhos grudados e ouvidos “isolados”, sem nem olhar para os lados.

Mas no trabalho?

Onde ficaram ou ficarão todos os ganhos que obtivemos com o compartilhamento e a aceleração da comunicação? Apenas no alargamento de horizontes? Me parece preocupante e insuficiente para a necessidade de velocidade e convivência dentro dos times.

Sinto que muito em breve, teremos que parar e pensar em saídas para este isolamento que é crescente e, não demonstra sinais de desaceleração, muito pelo contrário.

*João Roncati é diretor da People + Strategy, consultoria de estratégia, planejamento e desenvolvimento humano.

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