Amazônia: aumenta o cerco

Amazônia: aumenta o cerco

José Renato Nalini*

21 de abril de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

O mundo inteiro se revoltou com o massacre imposto ao maior patrimônio inexplorado desta Nação: a Amazônia. Antes mesmo de conhecido o potencial da biodiversidade contido nessa última grande floresta tropical, acelera-se o processo de seu extermínio.

Primeiro era o abandono, fruto da ignorância crescente. Em seguida, o estímulo a toda sorte de ilicitudes criminosas: invasão de áreas protegidas, desrespeito à demarcação indígena, proteção a madeireiros clandestinos, porteiras abertas para o garimpo confiado à grande delinquência.

A explicitude do “soltar a boiada” não precisaria de maior ênfase. Mas a ação concentrada foi bastante exitosa: desmanche das estruturas de fiscalização, troca de cientistas que ousassem falar a verdade, substituição de Superintendente da Polícia Federal que detectou a nefasta e incestuosa relação entre o Ministério contra o Ambiente e as quadrilhas de madeireiros.

Enquanto o Brasil permanecia inerte, ressalvadas as vozes solitárias dos biólogos, cientistas heróis que enxergam o que acontece, a comunidade internacional se manifestou. O acordo Mercosul e União Europeia começou a fazer água. A OCDE mandou recado e passou a exigir prestação de contas do descalabro ambiental. Os Fundos mantenedores de uma rede protetiva foram escandalosamente rechaçados e os administradores de trilhões para investimento recuaram no seu interesse pelo Brasil.

Enquanto os Estados Unidos estavam sob a sombra retrógrada, parecia tranquila a permanência da antipolítica ecológica aqui praticada, em evidente retrocesso de toda a lenta e sólida escalada na tutela de nossa natureza. Agora, Joe Biden escolhe John Kerry, um respeitado conhecedor do tema, lúcido para exigir um comportamento moralmente idôneo do governo brasileiro.

Os Estados Unidos são conhecidos por seu pragmatismo. Sempre souberam trabalhar com as republiquetas cognominada “de banana”, sujeitas às vicissitudes eleiçoeiras dos países periféricos. Não aceitarão cartas, promessas retóricas, idas e vindas, e a inconsistência da política externa confiada ao mais medíocre dentre os diplomatas da Casa de Rio Branco.

Se o Brasil tiver um mínimo de vergonha, resignar-se-á a aceitar a sua condição de pária ambiental, além de ser pária no maltrato à população acossada pela pandemia e fará a sua lição de casa.

Os americanos querem resultado e não promessa. E isso não é impossível de se fazer. Basta cumprir a lei. Houve um tempo, no passado recente, em que o Brasil era modelo de nação ecológica. Produziu o mais belo texto constitucional do século XX, o artigo 225 da Constituição que é chamada “verde” ou “ecológica”. Ainda era o detentor de 12% da água doce do planeta, de biomas exuberantes e de uma consciência ambiental que começara com José Bonifácio de Andrada e Silva, e prosseguiu em ascensão, até Paulo Nogueira Neto, para mencionar apenas os que já se foram.

Talvez a ignorância não se convença do que deve ser feito. Mas a ganância e o interesse podem suprir a falta de consciência ético-ambiental. A “grande fazenda” só continuará a exportar seus grãos, se o mercado externo se convencer de que nossa soja não provém do desmatamento. Que nosso gado não foi criado em áreas devastadas.

Enquanto a União dá mau exemplo, a forma federativa pode atenuar os malefícios deliberadamente perpetrados. Os Estados-membros podem e devem conferir outro trato ao ambiente. Municípios idem. Não foi por acaso que o constituinte incluiu o Município como entidade da Federação. É urgente mostrar o mundo que a insanidade não é geral. Está localizada e não pode vencer essa luta que envolve milhões de brasileiros.

Vamos aguardar a postura do Brasil no encontro desta semana. Enquanto isso, é o momento de tomada de posição dos brasileiros que se preocupam com o aquecimento global, não perderam a capacidade de indignação ante o desastre sob a batuta do governo e querem proteger a Amazônia e os demais biomas, para assegurar a subsistência das atuais e futuras gerações.

Academia, Terceiro Setor, Universidade, Empresariado, Igreja, sociedade civil e indivíduos, todos devem formar uma robusta cruzada em defesa da natureza. As redes sociais têm o seu lado útil e benevolente. Não podem servir apenas para divulgar ódio e inverdades. Exigir vergonha e seriedade do governo. Pois governo é servo do povo e não seu senhor. Proteger o habitat é proteger a vida. O bem deve prevalecer. Sem isso, a humanidade será aquilo que os desalentados já pensam: um projeto fracassado.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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