Alvos da Sem Limites temiam ação do ‘homem da capa preta’

Alvos da Sem Limites temiam ação do ‘homem da capa preta’

Em conversa telefônica monitorada, ex-executivo da Petrobrás e advogado acusado de lavagem de dinheiro mencionam venda de imóvel supostamente comprado com propinas e preocupação com ex-juiz Sérgio Moro; acabaram pegos pela nova juíza da Lava Jato

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

05 Dezembro 2018 | 18h53

Uma conversa gravada pela força-tarefa da Operação Lava Jato em telefones de alvos investigados por corrupção nos negócios bilionários de compra e venda de petróleo e derivados da Petrobrás, presos nesta quarta-feira, 5, na Operação Sem Limites, mostra que em 2017, mesmo com as investigações nas ruas e os processos em plena expansão, eles continuaram a atuar na lavagem dos bens comprados com propinas e temiam ser pegos pelo “homem da capa preta” – uma suposta referência ao ex-juiz federal Sérgio Moro, futuro ministro da Justiça.

“Eu, Carlão, sinceramente, eu vou te falar, Analisando assim o que a gente fez aqui. Considerando a possibilidade do homem da capa preta não fazer nada né…”, afirma um dos alvos. “A gente fez uma merda com o Guinle né. A gente nunca deveria ter vendido o Guinle e dane-se né”, completa. (Ouça aos 13:30 do áudio abaixo)

A citação ao “homem da capa preta” é de agosto de 2017 e foi captada em uma longa conversa telefônica entre o ex-gerente da área de Marketing e Comercialização da Petrobrás Carlos Roberto Martins Barbosa – o “Carlão” no grampo – e o advogado André Luiz dos Santos Pazza, preso nesta última fase da Lava Jato.

No despacho em que determinou a prisão dos envolvidos, a juíza federal Gabriela Hardt, da Lava Jato em Curitiba, destaca a passagem e os registros feitos pela Polícia Federal para pedir a prisão de Carlão, Pazza e do advogado Gustavo Bueno. A força-tarefa afirma que os dois advogados, ambos do Rio, são suspeitos de ajudarem o ex-executivo da Petrobrás a lavar R$ 6,5 milhões de propinas, em especial, em negócios imobiliários.

“De se observar que grande parte das transações descritas acima ocorreram já durante a fase ostensiva da Operação Lava Jato, sendo que essa última (a permuta do apartamento 803 do Edifício Ipanema Guinle Residence Service pela Loja 102 do prédio situado na Avenida Lucio Costa nº 3150, com o recebimento da diferença em dinheiro) foi realizada em 09/11/2016, com o objetivo manifesto de se furtar à ação do “homem da capa preta”, conforme conversa telefônica entre Carlos Barbosa e André Pazza.

O grampo foi feito nas investigações da 44.ª fase da Lava Jato, que tinha como alvo alguns dos envolvidos na Sem Limites. Segundo os investigadores, o termo “capa preta” foi dito “em provável alusão ao então Excelentíssimo Senhor Juiz Federal titular da 13.ª Vara Federal de Curitiba”. Moro deixou o cargo de juiz há duas semana para ser ministro do governo eleito de Jair Bolsonaro (PSL).

“Na ligação, Pazza informava a Barbosa que teriam feito algo errado ao vender ‘o Guinle’, ainda que o tivessem feito em caráter preventivo à atuação do Excelentíssimo Juiz Federal Titular da 13.ª Vara Federal, Sérgio Fernando Moro, referido na ligação como o ‘homem da capa preta'”, escreve o delegado Filipe Hille Pace.

“Imaginava-se, à época daquela investigação, se tratar de alguma peça de obra de arte. No entanto, considerando que a atividade investigativa é dinâmica e em etapas nem sempre pré-delineadas, com o conhecimento investigativo adquirido pela atual apuração, foi possível entender o real significado da ligação e dos graves crimes nela relatados. O ‘Guinle’, na verdade, é referência ao apartamento 803 da Rua Prudente de Morais, transferido por Gustavo Bueno a Carlos Barbosa com recursos de propina.”

 

Na mira da força-tarefa – PF, Ministério Público Federal e Receita Federal – estão as gigantes do setor de petróleo e derivados VitolTrafigura e Glencore, com faturamento superior ao da estatal. “A investigação revelou ao menos a existência de duas organizações criminosas compostas de agentes públicos da Petrobrás, agentes privados consultores de empresas estrangeiras que negociavam com a estatal na área de trading, executivos de algumas empresas estrangeiras, representantes de empresas estrangeiras no Brasil, além de agentes particulares que auxiliavam na prática dos crimes”, informa pedido de prisão e buscas feito pela PF.

A Sem Limites apura o pagamento total de pelo menos US$ 31 milhões em propinas para funcionários da Petrobrás, entre 2009 e 2014. Segundo a Lava Jato, os subornos beneficiavam funcionários da gerência executiva de Marketing e Comercialização, subordinada à diretoria de Abastecimento. As operações de trading e de locação que subsidiaram os esquemas de corrupção foram conduzidas pelo escritório da Petrobras em Houston, no estado do Texas, EUA, e pelo centro de operações no Rio de Janeiro.