Alvo da Polícia e da Promotoria, ex-presidente da CBV diz que denúncia por desvios se apoia em fatos já investigados, sem que fossem encontradas ilegalidades

Alvo da Polícia e da Promotoria, ex-presidente da CBV diz que denúncia por desvios se apoia em fatos já investigados, sem que fossem encontradas ilegalidades

Rayssa Motta/São Paulo e Márcio Dolzan/Rio

21 de maio de 2021 | 19h16

Denunciado ao lado de outras nove pessoas na Operação Desmico, aberta nesta quinta-feira, 20, o ex-presidente da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), Ary Graça da Silva Filho, veio a público negar as acusações levantadas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio. Ele foi apontado como integrante de uma organização criminosa que teria desviado dinheiro da CBV, incluindo patrocínios do Banco do Brasil, através de contratos falsos de prestação de serviços.

Documento

Por meio dos advogados Fernando e Marcos Thompson, Ary afirma que a operação foi apoiada em um relatório antigo da Controladoria Geral da União (CGU), produzido em 2014, que deu origem a uma investigação encerrada há dois anos, a pedido próprio Ministério Público do Rio, ‘sem encontrar qualquer ilegalidade’.

“A investigação policial durou cerca de 4 (quatro) anos, período de tempo em que foram ouvidas inúmeras pessoas, oficiado a diversos órgãos, entidades e instituições e, ao final, foi determinado o arquivamento pelo Ministério Público do RJ (Gaedest), homologado em maio de 2019”, diz a nota.

Ary comanda hoje Federação Internacional de Vôlei (FIVB) e, em razão do cargo, se mudou para Lausanne, na Suíça. Durante as buscas feitas ontem, o apartamento que ele mantém no Rio de Janeiro estava fechado. Os advogados alegam que o imóvel foi arrombado por chaveiro sem o acompanhamento de testemunha.

“Em violação ao disposto pelo artigo 245, §4o e §7o do Código de Processo Penal, como comprovam as imagens das câmeras de segurança do edifício”, expuseram.

A defesa diz ainda que o ex-presidente da CBV segue à disposição, ‘ainda que para esclarecimentos já prestados’. “O que reforçará seu interesse em confirmar sua conduta dentro da legalidade e permitirá que o vôlei brasileiro siga escrevendo uma história de conquistas, como fez nas últimas décadas”, afirmam.

O ex-presidente da CBV, Ary Graça Filho. Foto: Daniel Teixeira/AE

Entenda

A denúncia acusou um esquema que teria permitido desvios da ordem de R$ 52 milhões em Saquarema, no litoral fluminense, com participação do ex-prefeito da cidade, Antonio Peres Alves (2000-2008), e do ex-presidente da CBV.

O ponto de partida do inquérito foi uma fiscalização do extinto Ministério do Trabalho e Emprego em imóveis comerciais de Saquarema. Os fiscais perceberam que três salas em dois edifícios na região central foram registradas como sede de mais de mil empresas diferentes. A concentração levantou suspeitas sobre possível uso de CNPJs fantasmas para operacionalização de fraudes.

Mais de quatro anos depois, o MP e Polícia Civil concluíram que essas sociedades empresariais passaram a declarar sede em Saquarema para garantir benefícios fiscais abaixo do piso constitucional, autorizados pelo então prefeito através de três leis complementares editadas nos anos de 2004, 2005 e 2007. De acordo com a denúncia oferecida à Justiça, em troca dos benefícios, Alves ganhava em duas frentes: fazia parecer que a administração municipal havia aumentado a arrecadação da cidade, o que lhe conferia capital político, e lucrava com contratos falsos de sublocação para as empresas de fachada.

A participação do ex-presidente da CBV, cujo centro de treinamento foi construído em um terreno doado pelo ex-prefeito, teria relação com o direcionamento de contratos milionários a empresas que participariam do suposto esquema. No papel, essas companhias eram controladas por funcionários da confederação subordinados a Ary, que teria inclusive desviado recursos de patrocínio do Banco do Brasil.

COM A PALAVRA, A CBV

A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) confirma que recebeu nesta quinta-feira (20.05) pela manhã a Polícia Civil em suas sedes na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro (RJ), e em Saquarema (RJ), por conta de uma investigação iniciada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em 2013 sobre ex-dirigentes da entidade.

Funcionários da confederação prestaram todo o auxílio às autoridades policiais que buscavam documentos relativos a um suposto esquema de fraude tributária que teria contado com o auxílio do ex-presidente da CBV, Ary Graça Filho.

De acordo com as investigações, a CBV teria sido vítima dos seus então dirigentes, que teriam criado contratos fictícios para desviar dinheiro da instituição.

A atual gestão da confederação cooperará integralmente com a investigação e, se forem comprovados prejuízos financeiros à CBV, tomará todas as medidas necessárias para que estes valores sejam integralmente ressarcidos à comunidade do voleibol.

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