Alvo da PF diz que Marun pediu informações sobre registro sindical

Júlio Canelinha, chefe de gabinete do ministro do Trabalho, admitiu que recebeu solicitações do ministro da Secretaria de Governo da Presidência

Breno Pires e Fábio Serapião / BRASÍLIA

05 Julho 2018 | 19h34

Preso nesta quinta-feira, 5, pela Polícia Federal na Operação Registro Espúrio, Júlio de Souza Bernardo, chefe de gabinete do então ministro do Trabalho, Helton Yomura, admitiu que recebeu pedidos de informações do ministro da Secretaria de Governo da Presidência da República, Carlos Marun, sobre andamento de registro sindical.

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Filiado ao PTB, Júlio Canelinha, como é conhecido, respondeu afirmativamente à pergunta da PF se Marun falou com ele sobre um pedido de registro do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias e Cooperativas de Carnes e Derivados, Indústrias da Alimentação de São Gabriel do Oeste (Sintrael).

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No depoimento prestado nesta quinta, Júlio Canelinha admitiu que já conversou com Marun quatro ou cinco vezes e disse que eles chegaram a assistir juntos ao jogo da seleção brasileira na segunda-feira, 2, contra o México, válido pela Copa do Mundo, na casa de um amigo em comum. Eles teriam assistido ao jogo por coincidência, segundo o depoimento.

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O chefe de gabinete de Helton Yomura, no entanto, não disse que houve irregularidade ou ilegalidade em relação a pedidos de Marun nem em relação a outros pedidos que recebeu de informações sobre registros sindicais.

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A suspeita da PF é que Marun tinha ingerência e se teria atuado em favor de sindicatos. Fachin negou pedido de busca e apreensão em relação a Marun. Mesmo sem essa medida autorizada, a Polícia Federal fez perguntas a Júlio Bernardo sobre a relação com Marun, no intuito de verificar se houve algum tipo de ilegalidades.

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No pedido de prisão temporária encaminhado pela PF ao ministro Edson Fachin, a instituição destacou que um pedido de Marun foi tema de uma conversa de Julio Canelinha com Renato Araújo Júnior, servidor do Ministério do Trabalho e personagem de destaque na organização criminosa investigada.

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Na conversa, Renato afirma que um segundo registro sindical será deferido (aprovado). Isso, segundo a PF, é uma evidência de que Marun “se vale de sua força política para solicitar concessões de registros das entidades de seu interesse”. A chefe de gabinete de Marun, Vivianne, também tratou com Renato sobre pedidos do ministro, segundo a PF.

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“Diálogos mantidos entre Renato e Júlio Bernardo no dia 23/5/2018 reforçam o suposto envolvimento do ministro Carlos Marun nos fatos investigados. Com efeito, Julio Canelinha reencaminha a Renato as mensagens que solicitam a reversão de um despacho publicado no DOU, assinado pelo Secretario-adjunto Luís Carlos Silva Barbosa, informando que é muito ruim. Júlio afirma que recebeu o pedido do ministro Carlos Marun e pergunta se dará para resolverem. Renato informa que já havia recebido de Maurício e que resolverá. Nota-se que a publicação foi contra os interesses do ministro Carlos Marun e que foi pedido para Canelinha interferir no processo, a fim de reverter os efeitos do despacho”, afirmou a PF.

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A PF diz, ainda, que em 25 de maio Julio Bernardo voltou a falar com Renato sobre as demandas passadas pelo ministro Marun, pedindo informações sobre o que já havia sido resolvido. “Percebe-se que, pela insistência, Julio Canelinha está sendo cobrado para dar celeridade nos processos de interesse do ministro Carlos Marun, pressionando Renato a priorizar tais processos”, diz a PF.

COM A PALAVRA, MARUN

O ministro Carlos Marun (Secretaria de Governo) reagiu irritado à Operação Registro Espúrio da Polícia Federal que o associou a um suposto esquema de fraudes de registros sindicais. “Estou sendo enxovalhado por causa de uma safadeza”, afirmou.

Em entrevista no Palácio do Planalto no final da tarde desta quinta-feira, 5, Marun leu uma nota para relatar que ‘nunca’ pisou no Ministério do Trabalho, mas admitiu que mandou, num procedimento de ‘rotina’, uma assessora acompanhar sindicalistas de Mato Grosso do Sul numa visita à pasta.

Um dos principais conselheiros políticos do presidente Michel Temer, Marun chegou a desmontar, durante a entrevista, a base usada para aparar os microfones das emissoras de rádio e televisão. “Eu vou apresentar uma queixa crime contra esse vazamento pusilânime, canalha e vagabundo que me faz passar por esse constrangimento e deixou minha família sofrendo. Meu pai, de 87 anos, acaba de sair do hospital, e minha, está com 86”, disse, exaltado. “Se alguém fez isso pensando que ia me assustar, se enganou redondamente”, disse Marun. “É uma conspiração asquerosa contra governo e presidente Temer.”