Altruísmo ou egoísmo velado?

Altruísmo ou egoísmo velado?

Antoine Abed*

12 de julho de 2020 | 06h00

Antoine Abed. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em meio às transformações que nossas vidas têm passado por causa da pandemia, me chama atenção alguns questionamentos sobre determinados comportamentos praticados por indivíduos, corporações e até países. Alguns exemplos incomodam uma parcela da população mas, ao mesmo tempo, agradam a outros. Será altruísmo ou um mero egoísmo velado as atitudes que grandes personalidades e empresas praticam nos dias de hoje? Tal reflexão é bem interessante já que, mesmo antagônicos e contraditórios, eles se entrelaçam. A dificuldade de compreender o limite que separa essas duas formas distintas de se comportar é o que nos induz a atribuir valores, às vezes, equivocados.

O filósofo Auguste Comte foi o primeiro a demonstrar que ao lado dos instintos egoístas existia o seu contrário, sendo esse destinado a prevalecer com o progresso moral da humanidade. Sendo assim, ele definiu altruísmo como o grupo de disposições humanas, sejam elas individuais ou coletivas, que inclinam os seres humanos a se dedicarem aos outros.

Sobre o egoísmo, muitos foram os filósofos que pensaram sobre esse tema e a definição que mais me agrada é a do filósofo Max Scheler. Para ele, o egoísta não se comporta como se estivesse só no mundo, mas sim que está tão absorvido por seu eu social que se apega somente aos seus próprios valores ou àqueles que podem tornar-se seus.

Há algumas semanas, foram várias as atitudes que nos fizeram refletir sobre se um determinado comportamento era altruísta ou de natureza egoísta. Quando países europeus relataram que haviam americanos nos aeroportos chineses pagando três vezes ou mais o valor das encomendas europeias todos ficaram chocados com essa atitude: numa pandemia o mínimo que se espera não é a competição sobre mercadorias. Acusaram os americanos de buscar o interesse próprio, acima dos demais. Porém, como será que a população americana analisou essa ação? Aqueles americanos estavam comprando mercadorias para cuidar e proteger seus conterrâneos. Será que somos obrigados a colocar os interesses dos outros sempre na frente dos nossos para não sermos taxados de egoístas?

O que dizer então das máscaras de oxigênio que caem à nossa frente quando o avião está com problemas? Somos treinados sistematicamente para somente ajudar alguém com problemas depois que nossa máscara esteja colocada. Como podemos classificar esse tipo de comportamento onde deixamos uma criança em segundo plano?

Quando uma empresa, como o Banco Itaú, anunciou a doação de um bilhão de reais para o combate ao coronavírus, muitos celebraram e essa atitude. Porém, da mesma forma que alguns interpretaram esse comportamento como altruísta, outros enxergaram uma jogada de marketing do banco e se perguntam: quanto vale aparecer e ficar marcado pelos jornais e mídias como um grande doador para a saúde da população? A quantia de um bilhão é relativamente pequena se comparada ao quanto a empresa se beneficiará com um possível retorno que essa imagem positiva criada provocou.

Para entender melhor as dificuldades na especificação de um comportamento e outro, é preciso colocar algumas observações fundamentais para esta análise. O egoísmo pode ser tolerado até o ponto em que não interfira negativamente na vida de outrem, mas se torna abusivo quando começa a exigência para satisfação do próprio ego.

Na outra extremidade ética, não se pode entender altruísmo como uma forma de obrigação na satisfação dos desejos de terceiros, muito menos se esses desejos vão de encontro aos nossos valores. Uma ação altruísta só ocorre quando dois requisitos fundamentais são postos em validação: o primeiro baseia-se na equivalência dos valores individuais entre as partes envolvidas, já o segundo diz respeito à existência de um ambiente de liberdade. Sendo assim, não podemos falar em altruísmo se a ação praticada vai de encontro com quem somos e representamos como indivíduos e, concomitantemente a isso, se não existe um ambiente livre para o ato altruísta ser consumado. O altruísmo envolve autenticidade para a tomada de decisões e isso só pode ser encontrado se vivemos de maneira livre, sem armadilhas/prisões de qualquer natureza. Se assim não for, o ato de ajudar, por lógica, não será considerado altruísta.

Por fim, é recomendado refletir sobre quantas vezes tivemos que negar algum pedido que iria contra nossos valores e acabamos chamados de egoístas. Se quiser entrar um pouco mais fundo na reflexão, proponho pensar sobre o seu comportamento durante a pandemia. Você que pertence à classe média brasileira e tem convicção que todos devem ficar em casa respeitando a quarentena, mas que não abre mão do trabalho do porteiro do seu prédio, da faxineira, do jardineiro do seu condomínio, do segurança ou do entregador das suas compras feitas pela internet…. será que essas regalias não são contraditórias com suas convicções e, dessa forma, egoístas? Como você se analisa nessa situação? Será que seu comportamento pode ser classificado como altruísta ou podemos classificá-lo de egoísta velado?

*Antoine Abed é presidente fundador do Instituto Dignidade e autor da obra Ensaio Sobre a Crise da Felicidade

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