Almodóvar, mulheres e memórias

Almodóvar, mulheres e memórias

Nina Nobrega Martins Rodrigues*

23 de fevereiro de 2022 | 07h00

Nina Nobrega Martins Rodrigues. FOTO: DIVULGAÇÃO

“Mães Paralelas”, o novo filme de Pedro Almodóvar, traz consigo seu notório jogo de cores, sua aclamada parceria com a estonteante Penélope Cruz e sua sagaz combinação de arte e política. Muito mais do que abordar a história de duas mães solo que se entrecruzam e, eventualmente, permeiam-se, o longa-metragem trabalha com a ideia de ausências, sejam elas forçadas ou espontâneas.

Realizada no contexto em que tramita, na Espanha, o Projeto de Lei de Memória Democrática, o qual procura aprofundar os intentos da Lei de Memória Histórica e aprimorar seus resultados, a película trata de mulheres incapazes de olvidar o passado franquista que lhes subtraiu seus maridos, pais, irmãos, tios, primos e avôs, tendo deixado seus corpos em fossas e valas espalhadas pelo território nacional. A busca incessante pelo reconhecimento de tal violência institucional, com intuito de exumar e de prover dignidade a esses desaparecidos – ainda tão presentes – é o fio condutor indireto da narrativa.

Ao iniciar com a gravidez de duas mães que, sozinhas, dão a luz a duas novas meninas, o filme dialoga com a dualidade do nascimento e da morte, ocorrências essas que se mostram igualmente relevantes para o desenrolar da vida das protagonistas (Janis e Ana).

A indagação sobre sua ancestralidade, arrancada à força de uma delas e voluntariamente negligenciada a outra, faz com que ambas as mulheres se encontrem em um trajeto de autodescoberta, no qual perseguem a constituição total do seu sentido individual com base, também, em suas origens.

Frisando o caráter atual de sua obra, Almodóvar surpreende ao acentuar o sutil embate entre a juventude de Ana e a já amadurecida vivência de Janis, quando da sua discussão sobre a importância do rememorar para a construção do vindouro. Nessa seara, não passa despercebida a preocupação do diretor com a recente ascensão da extrema-direita na Espanha, onde discursos negacionistas e revisionistas ganham espaço.

Contudo, isso não dá o tom da estória. Muito pelo contrário, o filme preza pela superação consciente e coletiva das adversidades existentes no percurso. Unidas pelo desalento e reciprocamente fortalecidas por seu encontro, Janis e Ana transformam experiências brutais em afeto mútuo, criando um ambiente em que o sentimento ultrapassa barreiras temporais, conjunturais, geracionais e genéticas.

Nem tão paralelas assim, mas muito mais coincidentes, a vida dessas mães e mulheres é o que vocifera sobre a barbárie pretérita e sobre os caminhos de revelação que irão permitir o efetivo fim da ditadura de Francisco Franco e da guerra narrativa que insiste em permanecer. Agora, mais do que nunca, é preciso saber a verdade sobre o país em que se mora – seja ele a Espanha ou não.

*Nina Nobrega Martins Rodrigues, mestre em Direito do Estado pela Universidade de São Paulo (USP). Advogada

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