Alma fidalga: Anna Maria Martins

Alma fidalga: Anna Maria Martins

José Renato Nalini*

29 de dezembro de 2020 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Um 2020 de tanta tristeza tinha de acicatar ainda mais os corações já doloridos, neles impondo mais um ferimento: a morte de Anna Maria Martins em 26 de dezembro. A paulistana que nasceu em 28.11.1924, havia menos de mês antes completado 96 anos. Em plena e esfuziante atividade.

Quem a conheceu pode testemunhar o quão gratificante foi assistir à multiplicidade de atuações a que se devotou com eficiência e entusiasmo. Fui privilegiado com sua amizade, que teve início na década de noventa e que se estreitou nestes últimos trinta anos.

Era a companhia mais assídua e permanente de Lygia Fagundes Telles, a quem apanhava para conduzir até às sessões da Academia Paulista de Letras, sem registro de uma ausência sequer.

Honrou-me com seu voto para integrar esse nicho intelectual que é a Casa de Cultura por excelência de São Paulo e se mostrou o paradigma do espírito acadêmico. Nunca se recusou a qualquer missão. Ao contrário, a todos os eventos para os quais era pessoalmente convidada, fazia questão de representar também a Academia.

Ocupou, seguidamente, vários cargos na Diretoria e seu desempenho era algo inacreditável. Sua estirpe a fez conservar hábitos tradicionais e de há muito extintos num convívio que perdeu muito charme e glamour. Fazia-se presente a todas ocasiões em que a polidez se mostrava necessária. Lembrava-se das datas significativas, comparecia a todos os lançamentos de livro, palestras, conferências, simpósios e cursos. Estava ao lado daqueles que perdiam pessoas queridas, confortando-as. Não faltava às missas de sétimo dia.

Anna Maria Martins, em São Paulo, em julho de 2009. FOTO: ZECA WITTNER/ESTADÃO

Paralelamente, cuidava de cultuar a memória acadêmica. Todos os artigos assinados por seus colegas eram lidos, comentados, elogiados e, recortados, passavam a integrar a hemeroteca da Academia. Era a gentilíssima provedora de um acervo que passaria desarquivado, não fora a sua delicadeza atenciosa.

Delicadeza é um verbete que tipifica a personalidade de Anna Maria Martins. Sua elegância natural era eficaz lição de etiqueta sem rebuscamentos e sem afetação. Ao telefone iniciava a conversação a indagar se aquele era um bom momento, se não estaria a importunar ou se a pessoa chamada não preferiria atender em outra hora.

Ninguém diria que aquela dama que irradiava um perfil armorial, tivera uma vida tão plena de lances românticos. Casou-se muito jovem e, viúva e mãe, viu-se alvo de uma arrebatadora paixão. Luís Martins, (1907-1981), escritor e jornalista carioca, vivia então com Tarsila do Amaral (1886-1973), que era prima de Anna Maria.

Paixão correspondida, casaram-se e viveram juntos até à morte de Luís Martins, num acidente, em 1981. Ele foi cronista do Estadão durante 36 anos, assinando seus textos como L.M.

A filha de ambos, também escritora, Ana Luísa Martins, resgatou a correspondência do pai com Tarsila e com a mãe, no livro “Aí vai meu coração” (Global Editora). Por sinal, Ana Luísa afirmou, sobre a mãe: ela “lutou a vida inteira para sair das convenções sociais com muita educação e delicadeza, mas fazendo o que queria”.

Até há pouco, Anna Maria dirigia sozinha até Indaiatuba, para visitar a família. Estava sempre disposta e não se estranhava que numa noite chuvosa, daqueles temporais paulistanos, ela arrostasse a aventura de se locomover a qualquer canto longínquo da metrópole para abraçar um amigo solitário, a autografar mais um livro.

Ela fez muito mais. Era excelente tradutora de Agatha Christie, Maurice Leblank, Anthony Berkeley, Heinriche Heine, Gerhardt Haptmann John Kenneth Galbraith e Aldous Huxley, entre outros. De sua autoria, publicou “A Triologia do Emparedado e outros Contos”, que a fez merecer o Jabuti, depois “Sala de Espera”, Katmandu e Retrato sem legenda. Ainda dirigiu a Oficina da Palavra na Casa Mário de Andrade, fazia funcionar o “Clube de Leitura” da Academia, nunca recusou integrar Júris de premiação em concursos literários. Era amiga dos amigos, respeitava todos os seres humanos. Lealdade foi um lema de que não se afastou.

A literatura foi outra de suas paixões. Mas é vã tarefa tentar retratar em algumas linhas o que foi Anna Maria Martins, uma expressão bem sólida daquilo que os paulistas um dia levaram a sério: o compromisso com a melhor herança dos costumes avoengos, o bom tom, a airosidade, o aprumo, o donaire, a distinção, a faceirice, a galhardia, o garbo, o donaire, que praticamente desapareceram, mesmo nas hoje impropriamente chamadas elites.

A louçania e o verniz discreto da galharda postura de Anna Maria Martins a convertem no arquétipo do que deveria ser a mulher bandeirante. O conforto possível é que uma das missões de uma Academia é reverenciar seus membros, manter viva a lembrança deles. Recordar Anna Maria Martins constituirá a façanha de restaurar um verdadeiro guia de boas maneiras, de cuja leitura e prática se encontra tão carente a sociedade brasileira.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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