Alicerçando o protagonismo global do Brasil no agronegócio

Alicerçando o protagonismo global do Brasil no agronegócio

Rodrigo Más*

22 de maio de 2021 | 04h00

Rodrigo Más. FOTO: DIVULGAÇÃO

O agronegócio é um setor econômico de extrema importância para o mundo inteiro. Segundo projeções da Organização das Nações Unidas, a população mundial deve aumentar 26% nos próximos 30 anos, e isso significa termos 2 bilhões de pessoas a mais a serem alimentadas. A ONU também indica que atualmente cerca de 9% da população mundial passa fome, e se esta tendência se mantiver esse número poderá aumentar atingindo quase 10% em 2030. Combater a fome já é e continuará sendo um grande desafio para a humanidade.

Com recursos naturais limitados e a correta necessidade de preservação ambiental dos recursos naturais ainda não explorados, não há outra saída: o agronegócio deve continuar aumentando a produtividade para acompanhar as necessidades de alimentos da humanidade e evitar o colapso.

O agronegócio é extremamente relevante para o Brasil. Em 2020, o setor representou 26,6% do PIB, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Além disso, contribuiu na balança comercial com superávit de 87,8 bilhões de dólares em 2020 e entrega 48% de todas as exportações do país.

O Brasil é um dos protagonistas do agronegócio no mundo. É atualmente o maior produtor global de soja, cana de açúcar, café e laranja, além de ser o terceiro maior produtor de milho. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a produção agrícola brasileira alimenta cerca de 10% da população global.

O que é pouco intuitivo para muitos é a relevância da indústria química como suporte ao agronegócio. A indústria química é responsável pelo fornecimento dos principais insumos que viabilizam a produção agropecuária. Parte dessa presença ocorre de forma indireta por meio do fornecimento de matéria-prima para ferramentas e equipamentos, como tubulações para irrigação (polietileno), embalagens reutilizáveis de armazenagem e transporte de grãos (polipropileno) e filmes plásticos utilizados para proteger hortaliças e berçários. A indústria química também atua de forma direta, provendo insumos críticos como fertilizantes, defensivos agrícolas e aditivos para nutrição animal. Esses compostos são essenciais para a viabilização dos ganhos de produtividade.

O agronegócio é um mercado muito relevante para a indústria química. Aproximadamente 9% das vendas de produtos químicos no mundo são destinados ao setor. Empresas químicas investem e atuam continuamente e em conjunto com os agentes da cadeia do agronegócio no desenvolvimento de inovações e soluções competitivas.

Mesmo sendo um dos principais mercados de produtos químicos para o agronegócio no mundo, o Brasil é bastante dependente de insumos importados. Cerca de 78% da demanda de fertilizantes no Brasil foi atendida por importações em 2019. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), aproximadamente 5,2 bilhões de dólares de defensivos agrícolas foram importados em 2020. Essa dependência implica em riscos sistêmicos para o suprimento da cadeia do agronegócio brasileiro, como a exposição às variações cambiais e a escassez de insumos devido a choques de (menor) oferta ou (maior) demanda.

Em 2020, vivenciamos um novo fator de risco: a pandemia. Globalmente, o abastecimento de insumos químicos para o agronegócio sofreu impactos. A Austrália, por exemplo, enfrentou dificuldades de reabastecimento de fertilizantes e defensivos agrícolas durante o curto período de forte redução das atividades de exportação da China.

Embora o Brasil não tenha passado por crise similar, certamente esse fator de risco deve passar a ser considerado. A mitigação de riscos de suprimento passa necessariamente pelo fortalecimento do papel da indústria instalada no Brasil para atender à crescente demanda por insumos para o agronegócio.

Estamos avançando no estabelecimento de condições favoráveis. E isso envolve o aumento da disponibilidade e mudanças no mercado de gás natural, matéria-prima para produção de fertilizantes nitrogenados.

A Nova Lei do Gás, aprovada recentemente, poderá favorecer o desenvolvimento de projetos produtivos. O arrendamento e reativação das fábricas de fertilizantes da Petrobras, agora sob gestão da Unigel, também é indicativa da viabilidade de produção de fertilizantes no país.

O tema, entretanto, é bem mais complexo. O maior suprimento nacional de fertilizantes críticos, como potássio e fosfatos, depende da viabilização de atividades de mineração no Brasil. O fortalecimento da produção nacional de defensivos agrícolas depende do desenvolvimento de projetos competitivos de produção de ingredientes ativos, também comumente chamada de química fina.

Diante da relevância atual e futura do agronegócio para o Brasil, a indústria química que abastece o setor deve ser vista como estratégica. Com visão integrada, o Brasil poderá fortalecer ainda mais a cadeia agrícola e assegurar o papel de protagonista global.

*Rodrigo Más é sócio da Bain & Company

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