Aliado de Renan pediu R$ 1 milhão para que ‘obras andassem’, diz delator

Aliado de Renan pediu R$ 1 milhão para que ‘obras andassem’, diz delator

Dinheiro para Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, teria sido entregue em dinheiro vivo, em São Paulo, segundo o dono da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa

Julia Affonso e Andreza Matais

15 de dezembro de 2015 | 15h50

Sérgio Machado. Foto: Marcos de Paula/Estadão

Sérgio Machado. Foto: Marcos de Paula/Estadão

O dono da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, revelou em sua delação premiada que o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, pediu a ele R$ 1 milhão para que ‘as obras andassem normalmente’. À Procuradoria-Geral da República, o delator afirmou que sabia que Sérgio Machado estava na Transpetro desde 2003 por indicação do senador Renan Calheiros (PMDB/AL).

Nesta terça-feira, 15, a Polícia Federal fez buscas no apartamento de Machado, em São Conrado, Rio. Os agentes levaram malotes com documentos do aliado de Renan, que o indicou para o cargo.

O empreiteiro Ricardo Pessoa é um dos delatores do esquema de corrupção e propinas investigado na Operação Lava Jato. O delator disse que a UTC obteve um contrato com a Transpetro em 2006, em uma ‘licitação legítima’.

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Sérgio Machado deixou a Petrobrás Transporte S/A (Transpetro) em fevereiro de 2015, após 12 anos na presidência da subsidiária da estatal petrolífera. A Transpetro é a maior processadora brasileira de gás natural. Sérgio Machado foi nomeado em 2003 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Sérgio Machado já havia sido citado pelo ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa (Abastecimento). Em delação premiada, no dia 8 de agosto, Costa afirmou que recebeu de Mahcado R$ 500 mil em dinheiro vivo ‘como parte de um pagamento de propina referente ao fretamento de navios entre 2009 e 2010, que envolvia a Diretoria de Abastecimento e a Transpetro’.

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Segundo Ricardo Pessoa, durante a execução do contrato da UTC com a Transpetro – assinado em 20 de julho de 2006 -, a empreiteira teve dificuldades em relação ‘à fiscalização, ao planejamento, à liberação de frentes, à realização de medicações e à consequente efetivação dos pagamentos’.

“Diante dessas dificuldades, o declarante procurou o presidente da Transpetro, Sergio Machado, para superar os entraves na execução das obras”, narrou Ricardo Pessoa. “Nos encontros que teve com Sergio Machado, este disse que poderia ajudá-lo e solicitou que o declarante lhe pagasse o valor de R$ 1 milhão; que Sérgio Machado disse que o pagamento serviria para fazer com que as obras andassem normalmente; que o declarante efetuou o pagamento, mas não houve melhora na execução do contrato com a Transpetro.”

Ricardo Pessoa, dono da UTC que virou delator da Lava Jato. Foto: Reprodução

Ricardo Pessoa, dono da UTC que virou delator da Lava Jato. Foto: Reprodução

Ricardo Pessoa afirmou que o pagamento foi feito por meio de 3 ou 4 parcelas. O dinheiro teria sido entregue em dinheiro em espécie, em São Paulo, na sete da UTC, ou em um aparthotel no bairro do Itaim, na Rua Leopoldo Couto de Magalhães, próximo ao Condomínio São Luís da Avenida Faria Lima, a uma pessoa de nome Felipe Parente.

“Sergio Machado havia dito ao declarante que a pessoa responsável pelo recebimento dos valores seria Felipe Parente”, declarou.

O delator disse que repassou os dados de Felipe Parente a seu diretor financeiro, Walmir Pinheiro Santana – também delator do esquema investigado na Lava Jato. “O pagamento das parcelas foi feito provavelmente entre o 2º semestre de 2007 e o primeiro semestre de 2008; que os valores foram obtidos a partir do caixa dois da UTC, formado com base em contratos superfaturados ou fictícios com as empresas Rock Star e SM Terraplenagem, pertencentes a Adir Assad ou com o escritório de advocacia Trombeta.”

O lobista Adir Assad está preso desde março deste ano. Os investigadores suspeitam que empreiteiras teriam pagos valores ao lobista, entre os anos de 2006 e 2011, período em que ele é investigado por envolvimento nos desvios de recursos nas obras da refinarias da Petrobrás Repar, no Paraná, e Replan, em São Paulo.

O contador Roberto Trombeta é um dos delatores da Lava Jato. Em novembro, a Polícia Federal indiciou Trombeta e seus sócios Rodrigo Morales e Mariana de Paula por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro junto ao doleiro Alberto Youssef, na Lava Jato. Trombeta foi acusado pelo dono da UTC e delator Ricardo Pessoa de lavar dinheiro da empreiteira para o caixa dois das campanhas de Aloizio Mercadante ao governo de São Paulo, e do tucano Aloysio Nunes, ao Senado, ambas em 2010.

Sérgio Machado já é acusado por improbidade administrativa em licitação para compra de barcaças em Araçatuba (SP). Em setembro de 2014, o Ministério Público Federal requereu à Justiça o afastamento do então presidente da Transpetro e o bloqueio de seus bens. Na ação, o MPF atribui a Sérgio Machado envolvimento em suposto esquema para fraudar o processo de licitação para compra de 20 comboios com 80 barcaças no valor de US$ 239, 16 milhões destinadas ao transporte de etanol pela hidrovia Tietê/Paraná, no interior de São Paulo.

A ação foi protocolada no dia 29 de setembro na Justiça Federal em Araçatuba (SP) onde foi realizada a licitação, em 2010. Seis procuradores da República subscrevem a ação. Eles sustentam que Machado e outros alvos da investigação, entre pessoas físicas e jurídicas, “agindo livre, deliberada, orquestrada e conscientemente, frustraram a licitude do processo licitatório da Transpetro”.

Na ação, os procuradores pediam, ainda, nulidade do processo licitatório, nulidade dos 20 contratos de aquisição dos comboios dele decorrentes e de todos os seus termos aditivos, celebrados entre a Transpetro e o consórcio ERT (Estaleiro Rio Tietê, que também foi alvo de buscas da Polícia Federal nesta terça, 15). Este processo das barcaças foi transferido para a Justiça do Rio de Janeiro.

Quando seu nome foi citado no escândalo Lava Jato, por meio de sua assessoria de imprensa, Sérgio Machado repudiou taxativamente envolvimento em irregularidades. Nesta terça, 15, a assessoria de Sérgio Machado informou que ele está ‘à disposição de todos os órgãos envolvidos nas investigações para prestar esclarecimentos’.

Alvo de buscas na Operação Catilinárias, o Estaleiro Rio Tietê (ERT) afirmou, em nota, que é ‘o maior interessado na elucidação dos fatos’.

“O Estaleiro Rio Tietê (ERT) informa que membros da Polícia Federal estiveram em suas instalações nesta manhã para cumprir ordem judicial de busca e apreensão. O ERT, como maior interessado na elucidação dos fatos, está colaborando com as autoridades no que for necessário e estiver ao seu alcance.”

COM A PALAVRA, O SENADOR RENAN CALHEIROS

NOTA À IMPRENSA

O diretório do PMDB Alagoas tem todas suas contas aprovadas e publicadas de maneira transparente.

O presidente do Senado, Renan Calheiros, informa ainda que, mesmo tendo prestado todas as informações, colocou à disposição quaisquer outros elementos que se façam necessários, bastando uma requisição.

O senador Renan reitera, mais uma vez, que jamais autorizou, credenciou ou consentiu que terceiros falassem em seu nome em qualquer circunstância em qualquer lugar.

Secretaria de Imprensa
Presidência do Senado Federal

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