Alexandrino diz que Odebrecht ajudou filho de Lula a tentar criar liga de futebol americano

Alexandrino diz que Odebrecht ajudou filho de Lula a tentar criar liga de futebol americano

Executivo delator da Lava Jato revela que, em contrapartida, petista teria que agir para aproximar Dilma e Marcelo Odebrecht, 'pessoas de personalidade muito forte'

Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

13 de abril de 2017 | 21h47

Luís Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula. Foto: Paulo Pinto/Estadão

Luís Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula. Foto: Paulo Pinto/Estadão

O delator Alexandrino Alencar, da Odebrecht, afirmou à Operação Lava Jato que a empreiteira ajudou o empresário Luis Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a tentar criar uma liga de futebol americano no Brasil. A atuação da Odebrecht, em 2011, seria uma contrapartida para que Lula ajudasse a melhorar o relacionamento entre o executivo Marcelo Odebrecht e a então presidente Dilma Rousseff.

Alexandrino apresentou à Operação Lava Jato recibo de pagamento da empresa Concept, contratada por ele para trabalhar no marketing da liga de futebol americano. O delator revelou que a Odebrecht pagou 90% da Concept e os outros 10% por Luis Cláudio.

“Combinei com o Luis Cláudio que nós pagaríamos 90% do custo da Concept e ele a Touchdown pagariam 10% para não parece que somos nós. Ele tinha que saber que tinha um contrato. Isso foi feito. Aproximadamente a Concept foi remunerada em torno de R$ 700 mil por ano pelo conjunto, R$ 630 mil por nós e R$ 70 mil por ele, durante três anos. Meu compromisso original com o presidente e com Emilio era de 2 anos e depois ele voava sozinho. No fim de 2 anos, ele se atrapalhava, ele não conseguiu decolar. Nós fizemos mais um ano. Ficamos 3 anos fazendo isso aí. Soube depois que ele teve que desistir do projeto”, declarou.

concept

Segundo Alexandrino, durante uma reunião no Instituto Lula , o patriarca da empreiteira, Emílio Odebrecht, também delator da Lava Jato, fez o pedido a Lula para interceder junto à Dilma e aproximá-la de seu filho, Marcelo Odebrecht.

“Tem uma conversa de Emilio com Lula, solicitando a Lula que se ele pudesse ajudar a mediar, ajudar a interceder junto a presidente Dilma para que o relacionamento dela com Marcelo fosse mais fluido. Tanto Marcelo quanto Dilma são pessoas de personalidade muito forte e de dificuldades”, declarou. “Ele via que a relação de Marcelo com Dilma, ele já via isso aí, era uma relação de muita disputa em vez de buscar objetivos.”

Em contrapartida, declarou Alexandrino, o ex-presidente Lula pediu a Emílio que ajudasse seu filho Luís Cláudio no meio empresarial. A conversa teria ocorrido em 2011.

“Ele pede isso de uma maneira, digamos, de um pai pedindo para outro pai”, afirmou. “Da mesma maneira, Lula pede para ele que se pudesse ajudar o filho dele a iniciar uma carreira empresarial. Isso foi numa conversa, um mês depois voltamos lá. Voltou-se ao tema. Terminada a reunião, Lula disse: ‘peraí’. Na sala ao lado, estava o Luis Cláudio. Luis Cláudio nos apresentou a mim e Emílio o projeto dele, que era um projeto Touchdown, o gol no futebol americano. O projeto dele era criar uma liga de futebol americano profissional aqui no Brasil. O projeto acho que faz sentido. Futebol americano, diz que depois do México, o país que mais se assiste a famosa Super Bowl é o Brasil. Tem público.”

Após Luís Cláudio apresentar o projeto, Alexandrino ficou encarregado de criar a liga.
“Eu fiquei encarregado de criar esse empresário, essa liga”, contou. “O Grupo Odebrecht, característica de empresarial forte e agressivo com gente capacitada, o presidente Lula queria um grupo fizesse, como chamam no jargão administrativo, o coaching do rapaz.”

Alexandrino Alencar declarou que buscaria ‘dentro do grupo ou fora capacitações para ajuda-lo’. O delator declarou que não era atividade natural do grupo Odebrecht e a decisão tinha como objetivo o relacionamento com Lula.

“Decisão visando o relacionamento. Não só o relacionamento como uma contrapartida”, afirmou. “Eu fui o encarregado disso. Logo depois eu fiz uma reunião com ele no meu escritório”, disse.

Segundo o delator, ‘nada escondido’.

“Conversando com ele eu vi que ele precisava de 3 apoios: jurídico, um apoio contábil para as contas dele e um apoio de marketing para o vender o projeto. Busquei os três apoios. Dois apoios, pela própria característica do Luis Cláudio tive que desembarcar. O apoio jurídico, porque ele é casado com uma advogada, Fátima. A Fátima sempre a gente levava algum assunto, ela se metia no assunto, ‘Minha mulher viu o documento, não está concordando’, ou o padrinho dele o Roberto Teixeira, ‘Tô levando para o meu padrinho’. Eu digo: ‘não adianta eu dar um apoio jurídico se tem mais dois se metendo’. Então, use os seus apoios”, narrou.

“O do contador era um ex-funcionário da OPP, o Cacau. Já falecido. Cacau era o contador, mas o Luis Cláudio falou ‘eu tenho um velho amigo contador’. Eu digo: ‘já que tem um velho amigo contador, fique com seu velho amigo contador, porque parecia que eu estava querendo me meter no negócio dele’. O que ficou de pé, que eu levei, foi o de marketing. Uma empresa chamada Concept, que já vinha trabalhando conosco. Aproveitei.”

O Ministério Público Federal questionou se Lula perguntava sobre o projeto. “Eu às vezes comentava com ele, projeto está andando, às vezes seu filho é meio turrão, temos dificuldades de ele entender, de ele andar.”

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