Alerta ao suicídio em setembro

Alerta ao suicídio em setembro

Clarice Maria de Jesus D'Urso*

22 de setembro de 2021 | 09h30

Clarice Maria de Jesus D’Urso. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

“Então não desista, sorria.
Você é mais forte do que pensa e
será mais feliz do que imagina”.
Tati Bernardi.

Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), uma em cada 100 mortes no mundo ocorrem por suicídio. O relatório de 2019 da entidade, Suicide Wordwilde in, mostrou que mais pessoas morrem como resultado de suicídio do que de HIV, câncer, guerras ou homicídio. Naquele ano, foram mais de 700 mil mortes e, entre jovens de 15 a 29 anos, a quarta causa de perecimento, depois de acidentes de trânsito, tuberculose e violência.

A cada 40 segundos, uma pessoa comete suicídio no mundo. No Brasil, isso acontece a cada 46 segundos e a maioria delas dos suicidas são do sexo masculino, negros e com idades entre 10 e 29 anos, segundo dados do Ministério da Saúde. Aqui, são registrados cerca de 12 mil suicídios por ano, conforme publicação do CFM (Conselho Federal e Medicina) e da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria). Só perdemos, em números absolutos, para os Estados Unidos.

As taxas de suicídio variam entre sexo, países e região. Em todo o mundo, os homens cometem mais suicídio do que as mulheres. De cada 100 mil homens, 12,6 se suicidam, enquanto 5,4 dos suicidas são mulheres. Países com alta renda também têm maiores taxas e suicídio (16,5 por 100 mil, em média). Na África, são 11,2 suicídios por 100 mil; na Europa, 10,5 por 100 mil; no Sudeste Asiático, 10,2 por 100 mil.   Esses índices eram maiores do que a média global, que estavam em cerca de 9 por 100 mil, em 2019. A mais baixa taxa de suicídio está na região do Mediterrâneo Oriental (6,4 por 100 mil).

Estudos do Instituto de Assuntos Públicos e Internacionais da Universidade Brown, no estado de Rhode Island, EUA, apontou que, desde o atentado de 11 de setembro, o suicídio causou mais mortes entre os militares do que as guerras. Foram mais 30 mil suicídios entre os militares da ativa e veteranos das guerras o Iraque e Afeganistão nos últimos 20 anos. Antes desses eventos, os suicídios não passavam de 7 mil, nos mesmos 20 anos. O número de mortos entre militares suicidas é maior do que a de civis pela primeira vez na história dos EUA.

Para enfrentar o que os especialistas chamam de epidemia de suicídio, foi criada a campanha “Setembro Amarelo”, em 2003. Oficialmente, o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio é 10 de setembro, mas a campanha acontece durante todo o mês. No Brasil, a campanha acontece desde 2014, coordenada pelo CFM e pela ABP, que, em 2017, criaram as Diretrizes para Participação e Divulgação da Campanha. O documento serve para orientar toda a sociedade sobre como participar, como utilizar corretamente os materiais de utilidade pública produzidos e de que maneira incentivar o Setembro Amarelo em cada região. Essas diretrizes podem ser aplicadas tanto por pessoas físicas, empresas e demais parceiros que queiram atuar junto à ABP e ao CFM na diminuição do estigma e, consequentemente, na prevenção ao suicídio.

É alarmante perceber que, apesar de em queda no mundo, a taxa de suicídios segue em acréscimo em nosso país: enquanto o índice mundial de suicídios a cada 100 mil habitantes, nos últimos anos, recuou 9,8% em nível mundial, subiu 7% por aqui, conforme identificou a OMS. Trata-se da segunda principal causa de morte entre jovens brasileiros de 15 a 29 anos do sexo masculino, apenas atrás dos acidentes de trânsito. Entre o sexo feminino, no mesmo intervalo etário, também temos o segundo lugar, só perdendo para questões de maternidade.

Preocupada com os índices alarmantes de suicídios, a Organização Mundial da Saúde disponibilizou orientações para que os países invistam na prevenção do suicídio e para a implementação da Live Life, com quatro estratégias.

A OMS propõe limitar o acesso aos métodos mais comuns de suicídio, que são os pesticidas e as armas de fogo. Os índices apontam que o envenenamento por pesticidas causa 20% de todos os suicídios e os países que proibiram pesticidas altamente tóxicos e perigosos apresentaram diminuição nesses índices.  Restringir o acesso a armas de fogo, reduzir o tamanho das embalagens de medicamentos e instalar barreiras nos locais nos quais é possível pular também são orientações da OMS.

A Organização, em acréscimo, deseja que a imprensa tenha papel relevante e responsável na cobertura do suicídio. Em alguns casos, a cobertura da mídia sobre suicídio pode levar a um aumento nos casos, devido à imitação, especialmente se o suicídio descreve os métodos usados por celebridades.

Estatísticas apontam que metade dos casos de saúde mental acontecem a partir dos 14 anos. Portanto, a pré-adolescência e a adolescência (10 a 19 anos) são períodos críticos. A orientação da Live Life incentiva diversas ações, que incluem promoção da saúde mental e programas contra o bullying, acesso a serviços de apoio e protocolos claros para pessoas que trabalham em escolas e universidades quando o risco de suicídio é identificado, garantindo assim que os jovens possam adquirir habilidades socioemocionais para enfrentar os problemas típicos dessa fase da vida.

Por fim, a entidade recomenda que as autoridades de saúde e educação, principalmente, tenham ferramentas para identificar precocemente as pessoas que apresentam comportamentos suicidas, de modo a realizar, com elas, avaliações periódicas e acompanhamento constante. Uma tentativa anterior de suicídio é um dos fatores de risco mais importantes para uma futura consumação do ato. Além dos profissionais das áreas supracitadas, os serviços de emergência também devem estar disponíveis para fornecer apoio imediato a pessoas em situação crítica.

Vale ressaltar que, na maioria dos casos, o que leva ao ato suicida é uma combinação perigosa de fatores, com raízes profundas no indivíduo: desde o bullying, na época da escola, até todos os tipos possíveis de trauma – mental, físico, sexual etc., a relação direta com transtornos e doenças mentais é, sem dúvida, o fósforo que risca o pavio em um território cheio de explosivos.

A depressão, o transtorno bipolar, esquizofrenia e o abuso de drogas são fatores de risco, assim como desemprego, desilusões amorosas e desonra. Em todos esses casos, a prevenção é fundamental, pois, segundo a OMS, 90% das ocorrências podem ser impedidas antes da fatal concretização.

*Clarice Maria de Jesus D’Urso, conciliadora na área da família pela Escola Paulista da Magistratura do Estado de São Paulo, conciliadora pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, membro da Associação Brasileira das Mulheres de Carreiras Jurídicas e conselheira do Conselho Estadual da Condição Feminina da Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo. Membro titular do Núcleo de Enfrentamento do Tráfico de Pessoas e Erradicação ao Trabalho Escravo da Secretaria de Justiça e Cidadania do Estado de São  Paulo, coordenadora de Ação Social da OAB/SP por duas gestões, diretora do São Paulo Woman’s Club – Clube Paulistano de Senhoras, membro do Comitê Estadual de Vigilância a Morte Materna, Infantil e Fetal da Secretaria da Saúde do Estado

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