Além de 2020: o que podemos esperar da próxima década

Marcos Matias*

21 de novembro de 2020 | 04h30

Os setores de energia e sustentabilidade passaram por mudanças mais rápidas entre 2010 e 2020 do que nos últimos 50 anos. Para a próxima década, essa transformação digital não demonstra sinais de desaceleração. O ano de 2020 está sendo um marco para muitas empresas, enquanto fazem uma jornada pelo gerenciamento ativo de energia. Para muitas dessas organizações, 2030 é o próximo grande marco. Quais progressos, rupturas e oportunidades elas podem esperar nos próximos dez anos, e além?

Uma identidade econômica emergente

No fim dos anos 1990, autores da Harvard Business Review introduziram o conceito de experiência de economiaxv, formada pela progressão de um valor econômico da extração de commodities para a execução de bens, em seguida, para a entrega de serviços e, posteriormente, para a realização de experiências.

Esse novo modelo econômico redefiniria o modo como as empresas atendem às preferências em constante mudança dos consumidores. A evidência da economia da experiência existe em muitas facetas de como os negócios operam hoje – do uso das redes sociais por marcas inspiradas por influenciadores até o modo como os celulares se tornaram dispositivos móveis essenciais. Mas a evolução econômica não parou. Pelo contrário, ela está entrando em uma nova fase: a da economia da identidade.

As gerações que estão chegando ao mercado adicionam cada vez mais valor na identidade de uma marca quando tomam decisões de compra. Elas são influenciadas por comprar e estar alinhadas a marcas não apenas baseadas nos bens e serviços que estas produzem, mas também no legado dos bens da companhia.

A economia da identidade é caracterizada por empresas que criam não apenas experiências, mas também abraçam a sustentabilidade e a transparência como pilares centrais de seus negócios. As organizações que pavimentam o caminho para a economia da identidade embutem a responsabilidade social e ambiental em seu DNA.

As companhias do futuro precisarão considerar se sua proposta corporativa deverá ser realinhada com sua nova missão de negócios como uma empresa social, e como. As empresas que ignorarem as implicações da economia da identidade poderão perder a licença de operar nesse cenário emergente de negócios.

Por sua própria natureza, essa missão em constante mudança demandará novos modelos de negócios. As empresas que escolherem quebrar paradigmas e se reinventar vão conquistar market share e se tornar verdadeiras agentes de mudança. Aquelas que, de maneira arrojada, reinventarem seus negócios para acomodar resultados sustentáveis e digitais deverão registrar crescimento duas vezes maior do que as empresas que mantiverem o negócio como o habitual.

Sustentabilidade é a guinada conceitual que virá para definir a próxima década. Na economia da identidade, as iniciativas de energia e sustentabilidade contribuirão para acelerar o lucro do negócio, sua direção estratégica, seu gerenciamento financeiro e de risco, bem como sua continuidade. Nos próximos dez anos, será trabalho dos profissionais de energia e sustentabilidade alinhar suas ações com as agendas separativas de mercado de seus CEOs para procurarem oportunidades apresentadas por esse mundo em mudança.

Revendo o grid de energia

Juntamente com a sustentabilidade embutida no valor central do negócio, o grid está se transformando de modo a desafiar o gerenciamento convencional da energia. A geração renovável e os recursos de energia distribuída vão (muito em breve) ultrapassar a geração mantida por combustível fóssil tradicional. Na maioria dos mercados globais, a energia renovável já começa a ser rival, ou até mesmo a ultrapassar as fontes geradas por combustível fóssil mais baratas em preço. Levam, assim, mais e mais energias renováveis para o grid, a superar as tecnologias tradicionais nos mercados emergentes. A International Energy Agency recentemente previu que a indústria de ventos offshore poderia valer trilhões de dólares nas próximas duas décadas, mesmo tendo apenas uma fração da capacidade atual.

Enquanto o preço continua a cair, a energia renovável mais barata moldará de maneira fundamental o sistema elétrico. O Bloomberg New Energy Finance acredita que o vento e o sol fornecerão 50% da eletricidade mundial até 2050. E, quando o armazenamento de bateria oferecer melhor custo-benefício, revolucionará o potencial dessas fontes renováveis, ajudando sistemas baseados em vento e sol a alcançar 80% de penetração em alguns mercados.

Mesmo que algumas opções de armazenamento de energia em larga escala ainda não sejam viáveis comercialmente, seria míope assumir a tese de que elas ainda se manterão caras em 2030. Ao mitigar a intermitência e os problemas de carga com que as fontes de energia renovável lidam, o armazenamento ajudará a remover as barreiras que preveniram historicamente a maior adoção de fontes oriundas de vento e sol.

Outras formas de recursos de energia distribuída (DERs) também terão um papel a desempenhar no grid do futuro. A infraestrutura modular e descentralizada das fontes como geração solar no local, veículos elétricos e microgrids, entre outros, levarão a maior flexibilidade e capacidade de adaptação. Da mesma maneira, as estruturas de controle propiciadas por inteligência artificial, como plantas de energia virtual, permitirão a otimização e monetização em tempo real dessas DERs conectadas, impulsionando esses bens da maneira mais eficiente possível, reduzindo simultaneamente os custos e aprimorando a confiabilidade do sistema.

Os microgrids são muito promissores nesse novo ecossistema, ao conectarem uma combinação de tecnologias limpas que ajudam as organizações a operar de maneira autônoma, longe dos grids tradicionais. Enquanto os fornecedores de soluções evoluem para atender às necessidades dos consumidores modernos, mais organizações vão considerar microgrids como opção para fornecer energia confiável e de baixo custo para conectar suas operações.

Mais microgrids operacionais vão acelerar a transição para longe dos sistemas centralizados, grandes e não flexíveis de geração e entrega de energia para minigrids confiáveis e modernos. Essa transição ajudará as organizações a adotar energias renováveis enquanto atendem à degradação da infraestrutura e outros custos e preocupações com o gerenciamento de energia.

Recursos autônomos conduzirão o crescimento do Meshgrid

A maneira como a energia é gerenciada, monitorada e flui também está mudando. O grid está se movimentando para longe do sistema linear histórico de geração para a transmissão, posteriormente a distribuição, e depois o envio, para um sistema mais descentralizado, geralmente descrito como peer-to-peer. A proliferação de energias renováveis e outros DERs começaram a testar muitas dessas suposições longínquas como suporte aos sistemas de energia de hoje, e está conduzindo a inovação, enquanto o consumidor procura monetizar a flexibilidade de seus DERs usando fluxos de energia bidirecionais.

No futuro, DERs incontáveis de todos os tamanhos e variedades trarão novas oportunidades de mercado para que usuários avançados otimizem e monetizem seus recursos de energia. Quando plugado em um carregador, até mesmo um smartphone pode agir como um DER – carregando quando existe um excedente de grid ou transferindo a eletricidade que sobra de volta ao grid quando ocorre escassez – e, no processo, reduzindo potencialmente os custos.

Hoje, o termo “microgrid” normalmente se aplica a um conjunto específico de DERs locais que podem ser orquestradas de maneira unificada e refugiadas do grid mais amplo. Mas, de uma perspectiva teórica, o termo microgrid é um delimitador arbitrário. Na teoria, qualquer bem conectado de maneira elétrica com uma comunicação embarcada e capacidade computacional pode responder a um sinal de comando de maneira a preservar a operação, o balanço e a equação de custo total do ecossistema de grid.

Esse nível de interconexão pode soar futurista, mas está bem no centro da revolução da internet das coisas (IoT), que está levando a inovação a quase todas as indústrias globais. Graças aos microchips de baixo custo, que propiciam a comunicação embutidos em qualquer coisa, de utensílios domésticos a carros elétricos e até lâmpadas inteligentes, já existe hoje a capacidade de criar uma resposta de demanda em qualquer número de bens altamente distribuídos. Com operadores de grid já ofertando incentivos para controlar termostatos inteligentes, o quão difícil pode ser imaginar que um grid controle um sinal enviado de uma lâmpada inteligente de sua casa?

Estamos nos aproximando rapidamente de um tempo em que qualquer empresa será uma companhia de energia. Nesse cenário complexo, nenhuma organização poderá escapar do gerenciamento de sua energia de maneira estratégica. O futuro da eletricidade não é ser um centro de custo, mas um bem a ser otimizado, monetizado e compartilhado. Enquanto o futuro vai chegando, o superorganismo que floresce do grid é chamado de MeshGrid e vai aparecer antes do esperado. Logo mais viveremos nesse novo mundo hiperlocalizado, virtual e autônomo, no qual bens energéticos terão o potencial de mexer na energia conforme a conhecemos.

*Marcos Matias é presidente da Schneider Electric Brasil

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