Além da legislação, avanço da cannabis medicinal no Brasil depende de maior conhecimento médico

Além da legislação, avanço da cannabis medicinal no Brasil depende de maior conhecimento médico

Helder Dario Colmenero*

27 de agosto de 2021 | 11h55

Helder Dario Colmenero. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Recentemente, tive o prazer de mediar uma masterclass sobre o potencial terapêutico da cannabis medicinal com profissionais de saúde de todo o Brasil, oportunidade em que o Dr. Peter Grinspoon, da Harvard Medical School, foi um dos convidados. Na ocasião, ele lembrou que quando começou a estudar as possibilidades de aplicação do canabidiol (CBD) e de outros canabinoides para tratamentos de saúde algumas décadas atrás, muitos médicos riram. Hoje, com mais de 90% dos americanos a favor do acesso legalizado a cannabis medicinal, os mesmos médicos estão correndo para se educar e muitos enviam seus pacientes para o seu olhar de especialista.

Esta informação é importante porque pesquisas com resultados de sucessos clínicos têm avançado em diferentes esferas, assim como as discussões legais, mas apenas mil médicos, aproximadamente, no Brasil, prescrevem tratamentos à base de canabinoides e, mesmo que as possibilidades sejam muitas e promissoras, a prescrição ponto inicial e crucial. Sem uma Educação Médica Continuada, CBD, CBG, CBN, THC e outros de uma família com centenas de ativos conhecidos como canabinoides não podem agir para melhorar a condição de pacientes que enfrentam diversos tipos de problemas não solucionados por terapias tradicionais.

Não culpo os médicos, entretanto, são necessários novos aprendizados que superem questionamentos e preconceitos. Felizmente, o número de profissionais médicos e empresas farmacêuticas especializadas aumentam de forma considerável e, como também disse o Dr. Peter Grinsppon em sua explanação, é cada vez mais claro que os canabinoides terão um grande espaço na medicina do século 21.  Prova disso é a frequência com que encontramos nos principais noticiários movimentos disruptivos, da autorização do uso do CBD por atletas de alto rendimento nos jogos olímpicos de Tóquio ao estudo da USP de Ribeirão Preto sobre a eficácia da substância no combate à síndrome do esgotamento (Burnout).

E como os médicos podem virar esta chave, acompanhando a evolução do assunto? O primeiro passo, sem dúvida, é a abertura à mudança. O que não significa deixar de lado uma forte base científica, mas acessar novos conceitos que, sempre mexem com a cultura da prática médica. O segundo é o reconhecimento dos canabinoides como classe de medicamentos. Em terceiro, a busca constante por atualização em um universo servido de estudos, práticas clínicas e especializações. Por último, mas não menos importante, a tomada de decisão. Sim, porque não é uma questão de “se” os pacientes perguntarão sobre este tipo de terapia, mas quando.

Munidos do conhecimento e da decisão de incluir esta verdadeira caixa de ferramentas terapêuticas que são os canabinoides na lista de tratamentos possíveis, chegamos a parte prática, que envolve o dia a dia de cada paciente para a indicação clínica, a escolha do tipo correto de produto com qualidade farmacêutica, dosagem e intervalo e a análise de interações medicamentosas, ou seja, quais remédios já utilizados pelos pacientes podem ser combinados ou se é possível até mesmo modular o uso concomitante de algum medicamento tradicional. O cenário é promissor para os médicos, ciência de maneira geral e, acima de tudo, para os pacientes, como maiores beneficiários finais.

*Helder Dario Colmenero, diretor técnico da FarmaUSA

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