Ainda somos iguais

Ainda somos iguais

José Renato Nalini*

06 de outubro de 2020 | 07h30

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Ideias para salvar o mundo são produzidas desde que o ser humano começou a encontrar maneiras de se exprimir. Pouco se criou depois do pensamento grego, centrado no fabuloso século de Péricles, considerado um apogeu no convívio civilizado. Ao menos, foi o que influenciou o Ocidente,  pouco atento à milenar cultura oriental.

A lei de Lavoisier parece valer também para o intelecto voltado às humanidades. Tudo se aproveita, se adapta, ganha distinta tonalidade e, com novos trajos retóricos, se veicula como novidade. Para a imensa maioria, que não se aprofunda em temas que exigem raciocínio e reflexão, a ideia requentada passa a representar o suprassumo da sapiência.

Tais divagações vieram a propósito de sugestões para o mundo pós-pandemia, baseadas – talvez até inconscientemente – em receitas bem antigas. Tudo o que se sugere como fórmula de redução da iníqua desigualdade entre os brasileiros, já foi sugerido por muitos pensadores. Vou ficar em dois deles, cujo ensinamento não ficou datado, se quisermos extrair uma readequação para o século 21.

O Conde de Saint-Simon, socialista utópico, defendia a convivência humana como típica a uma enorme família. Sua fábula inspirou o Abade Emanuel de Sieyès a escrever obra panfletária, que deu origem, nada mais nada menos, que à Revolução Francesa.

A filosofia saint-simoniana está em pauta em nossos dias pandêmicos. Viu-se o que é essencial num colapso da sociedade urbanizada e envolta em arraigados hábitos que tiveram de cessar, sem preparo ou prévio aviso. O planeta foi obrigado a pensar o que é realmente essencial. E isso muda um pouco a equação à qual nos submetemos sem muito refletir. Com certeza, todos hoje diriam: não podem faltar médicos, enfermeiros, terapeutas, nutricionistas, motoristas, atendentes, faxineiros, coveiros. Entregadores, caminhoneiros, ajudantes gerais e lixeiros.

Essa a linha de frente para cuidar das centenas de milhares de pessoas contaminadas, dentre as quais muitas não se salvarão. Quantas outras atividades rotineiras passaram a ser consideradas não essenciais? Úteis, não há dúvida. Mas não imprescindíveis a uma era de pânico.

Foi o que Saint-Simon (1760-1825) escreveu na França, invertendo a lógica da importância que então se dava à classe ociosa. Não é preciso lembrar que a França era constituída pelos chamados Três Estados Gerais:  nobreza, clero e povo. A Assembleia dos Estados Gerais se satisfazia com a deliberação dos dois primeiros Estados: nobreza e clero de acordo, não era necessário consultar o povo. A maior parcela da população era solene e ritualmente ignorada.

Saint-Simon começou por indagar: – O que aconteceria para a França se morresse o Delfim? Nada, porque a linha sucessória estava bem definida. E foi descendo a hierarquia, de acordo com o valor social à época. Até chegar à constatação da realidade: o caos ocorreria se faltassem padeiros, lixeiros, açougueiros, toda aquela atividade menosprezada pelos dois primeiros Estados Gerais.

A partir daí, Sieyès escreveu “O que é o Terceiro Estado?”. Na verdade, a interrogação se tripartiu: O que o povo é? O que tem sido? O que pretende ser? O povo é tudo, porque ele é que faz a Nação funcionar. Tem sido nada, porque não consegue interferir na gestão da coisa pública. Pretende ser alguma coisa. Essa “alguma coisa” é o capítulo dos direitos individuais que alicerçaram a Revolução Francesa em 1789.

O raciocínio vale para o mundo de hoje. Ainda somos iguais. A nobreza já não é de sangue, mas é financeira. Poucos detêm quase tudo, enquanto milhões – ou serão bilhões? – não têm quase nada. Exatamente por isso, a Democracia Representativa encontra-se em estágio falimentar. O representante do povo, em regra, desaprendeu o que significa o “bem comum”. Atua geralmente em causa própria. Daí o eleitor não se considerar representado. E abominar a participação no processo eleitoral.

Simultaneamente, é preciso repensar o valor social das atividades consideradas subalternas, mas que são aquelas sem as quais ninguém consegue viver. Daí a atualidade de temas que devem ser enfrentados com urgência: a renda mínima, a redução dos gastos excessivos de uma estrutura estatal burocratizada e anacrônica, a educação de qualidade em todos os âmbitos. Educação: chave milagrosa de solução de todas as misérias.

Os ingredientes necessários a uma virada estratégica do sistema continuam presentes. Os motivos estão postos e disponíveis. Basta meditar sobre o que disseram o socialista utópico Saint-Simon, o Abade Emanuel de Sieyès e transplantar a síntese de tais lições para o Brasil deste fatídico 2020.

Será isso o suficiente para um “novo normal” que valha a pena, ou precisaremos de algo que possa lembrar a Queda da Bastilha? Não nos esqueçamos de que a Revolução Francesa começou bem e terminou por colocar no patíbulo os seus artífices.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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