Ainda resta o humor

Ainda resta o humor

José Renato Nalini*

18 de novembro de 2020 | 10h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Razões para deixar o brasileiro apavorado, com pesadelo até enquanto acordado e de mal com o mundo, são abundantes. A pandemia agravou e intensificou todos os problemas preexistentes. E não eram poucos.

A esperança de requalificar a educação, única chave para a reforma estrutural da Nação, esvai-se por falta de projeto e de vontade. Prevalece a certeza de que o fosso a separar os afortunados e os despossuídos aprofunda-se e alarga-se. Chegará a ser intransponível.

O Brasil inteligente e lúcido não reage à deliberada destruição da natureza, que acontece, bem orquestrada, em nível macro e em nível micro. Extingue-se o tesouro inexplorado, antes mesmo de o conhecermos e de identificarmos sua abrangência. Exaure-se a potencialidade de ganhos, cada vez mais urgentes, para um País que multiplica seus miseráveis.

Ainda assim, não se queimem, junto com a floresta e o pantanal, as reservas éticas resilientes e que habitam consciências privilegiadas. Os seres mais sensíveis são os que mais sofrem. Mas a excelência moral não pode ser triste. É uma espécie de comédia, um espírito festivo que vacina os que resistem contra o puritanismo carrancudo.

O bom humor é a terapia possível diante de tanta idiotice multiplicada à enésima potência, mercê da capacidade incrível do reino web. Pensadores do século XVIII já enxergavam a jovialidade como um valor tão considerável como a compaixão. E detectavam uma afinidade entre as duas.

Um filósofo esquecido, mas que influenciou vários outros que o suplantaram em celebridade, Hutcheson, considerava o riso uma forma de solidariedade humana, posto que “nos comprazemos em provocar hilaridade nos outros, assim como apreciamos a conversa prazerosa animada pelo riso moderado”.

O riso é um modelo de virtude, porque espontâneo. Ocorre por si mesmo. E perante a mediocridade que se disseminou em terrae brasilis, já que não existe o Stanislaw Ponte Preta para acrescentar vários volumes ao seu FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País), prestigiemos os humoristas. Quanta coisa engraçada eles produzem e divulgam pelas redes. E que mágicos são os chargistas, cujos traços conseguem traduzir verdadeiros tratados sobre a ignorância que grassa!

Hobbes também cuidou do riso, mas com aquele pessimismo que o caracteriza e que se atribui à atormentada gestação de sua genitora. Para ele, o humano zomba dos menos afortunados e seu humor está a serviço do poder, em vez de ser um fim em si. Freud, com seu livro de chistes, levou o riso a sério.

O riso serve ainda para desmistificar os pretensiosos, os de cuja boca suja só saem impropérios, surgidos não se sabe como de uma cabeça vazia. O cômico permite que os intelectuais suportem o ridículo, sem se abaterem. Sabem que cada qual oferece aquilo que tem, aquilo que lhe vai n’alma. Aceitam o vômito insano, gerado numa bílis contaminada de ódio, como sinal do imaginário. Essa dimensão da vida humana em que a comunhão com os outros é instantânea e intuitiva, pese embora a figadal distinção entre espíritos elevados e expressões do mais inferiorizado primitivismo.

O humor ameniza a revolta. Suscita pensamentos como os de Cristo: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem!”. Indignar-se não faz a tolice recolher-se à sua insignificância. É urgente preservar o bom humor, pois na concepção de Hutcheson, “o humor é um eco do reino de Deus na Terra”.

O raivoso é alguém desprovido do divino, nada obstante possa abusar da invocação a Deus. Instintos maldosos, zombeteiros, sarcásticos e amargos são próprios a seres infelizes. A tradição cristã é pródiga a proclamar que “um santo triste é um triste santo”.

A alegria contaminava seres superiores como Francisco de Assis, a encontrar fraternidade em tudo, seres e entidades, natureza e morte. Enquanto isso, os adeptos a fundamentalismos religiosos, de todas as confissões, transmitem a ideia de um Deus vingativo, cruel e justiceiro.

Outra lição servível a preservar o bom humor em tempos bicudos, neste 2020 que foi um ano horribilis, é a de Teresa D’Ávila, Doutora da Igreja, que nos legou o “tudo passa, só Deus não passa!”.

O Criador, para todos os que não se satisfazem com a explicação de que tudo nasceu de uma explosão, mas entendem mais compreensível a versão do design inteligente, por certo reservará a este povo sofrido, sacrificado e espoliado, melhores dias, tempos menos trágicos.

Só que o ensinamento cristão impõe responsabilidade à criatura. Não basta lamentar, blasfemar, reclamar e amaldiçoar. É preciso reagir. Pequenas atitudes, em escalas aparentemente ínfimas, se uníssonas em seu propósito, são capazes de imensa transformação.

Não se desespere, portanto. Mantenha espírito elevado. Ria. Gargalhe. Tudo vai passar.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.