Ainda existe Black Friday?

Ainda existe Black Friday?

André Palis*

20 de novembro de 2021 | 14h54

André Palis. Foto: Divulgação

A Black Friday cresce ano após ano como uma data de alta relevância para o varejo brasileiro. Contudo, podemos observar uma tendência dos comerciantes de expandir o evento para todo o mês de novembro: é o Black November, que vem descentralizando as ofertas e promoções e mudando a experiência do consumidor.

Nos últimos anos, vários negócios começaram a adotar a Black Week, usando toda a semana que antecede a sexta-feira. A ideia continua em alta para alguns, enquanto outros foram mais longe e partiram para 30 dias de promoções.

É interessante analisar os motivos e impactos dessa decisão conjunta. Começando pelo primeiro, existem alguns aspectos principais que levam as empresas a fazer um mês de ofertas ao invés de um dia só.

O maior é certamente a praticidade. A Black Friday, por si só, não é nada prática para o comércio. Exige investimento reforçado em estoque, atendimento, logística, entre tantos outros setores. Lidar com tudo isso em um período de tempo espaçado é muito mais fácil e menos custoso.

Sem contar que, com um manejo facilitado para o vendedor, o comprador também tem chances reduzidas de enfrentar algum problema, como e-commerces com sobrecarga ou entregas atrasadas. Infelizmente, essas questões ainda são comuns na Black Friday, e impactam na visão do público sobre a data como um todo.

Outro motivo é gerar demanda por mais tempo e evitar a perda de oportunidades. Não podemos negar que a importação da Black Friday no modelo estadunidense não considerou particularidades brasileiras, como, por exemplo, nosso formato salarial. Enquanto os EUA possuem um sistema semanal de pagamento, a grande maioria dos empregos no Brasil oferecem salários mensais, normalmente pagos no início de cada mês. Ou seja, pode ser que a última sexta-feira de novembro esteja bem distante do holerite correspondente.

Por outro lado, muitos brasileiros seguram o dinheiro e esperam para aproveitar os melhores descontos. Segundo uma pesquisa da Nielsen, de 2019, 85% dos clientes aguardam pacientemente pela Black Friday. Desses, 33% esperam por mais de 3 meses. Durante esse período, eles pesquisam preços e comparam produtos, chegando então ao dia com bastante informação sobre o que desejam. Agora, em 2021, com a crise que vivemos, é justo pensar que essa precaução vem sendo tomada novamente.

Será, então, que o movimento de tornar o mês inteiro promocional está ressoando com o público tanto quanto o mercado está tentando fazer acontecer?

De fato, os benefícios indicam que o Black November é um caminho saudável a ser tomado. Porém, para que o mês todo seja de bons resultados e custo reduzido, o público precisa realmente aderir à campanha estendida. Essa é uma resposta que ainda não temos com firmeza.

O que talvez falte ao consumidor para que isso aconteça é confiança nas empresas, bem como conhecimento sobre seus direitos. O Procon está atuando com mais intensidade no acompanhamento das ofertas ao longo dos meses que antecedem novembro, e pune as lojas que indicam “preços de Black Friday” para depois reduzi-los ainda mais. É preciso que fique claro para o consumidor que ele pode comprar nas primeiras semanas do mês e que não vai se arrepender depois. Caso contrário, por que ele não esperaria mais um pouco?

Estabelecer um cenário de credibilidade é urgente e não depende só de fiscalizações. Ninguém quer abrir uma reclamação ou denúncia — as pessoas querem descontos justos e que seus produtos cheguem sem problemas. Essa parte da equação é de responsabilidade das empresas.

Por fim, vale ressaltar que a última sexta-feira do mês não deixará de ser importante. O maior tempo de campanha não significa necessariamente que a data em si não vá receber grande atenção do consumidor. A Black Friday continua como um epicentro do evento de promoções mais aguardado do ano. A questão é saber como aproveitá-la em toda sua potencialidade, desde o primeiro dia de novembro até a limpeza de estoque no fim do mês.

*André Palis é ex-funcionário do Google e saiu da gigante para empreender e é sócio-fundador da agência de marketing digital Raccoon

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