Água chique 

Água chique 

Fernando Goldsztein*

14 de fevereiro de 2022 | 10h50

Fernando Goldsztein. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Algo que sempre me chamou a atenção aqui nos Estados Unidos é a diversidade de opções de água mineral vinda de todos os cantos do mundo. Sim, tanto nos bares e restaurantes  quanto nos supermercados, se pode comprar água das ilhas Fiji, dos Alpes Franceses, da Toscana na Italia, dos fiordes noruegueses, da Tasmania, da Lapônia Finlandesa, entre outros tantos lugares exóticos. Os seus rótulos atestam que a água puríssima vem de fontes naturais como rios subterrâneos, aquíferos, montanhas rochosas, geleiras e até, pasmem, águas que vem direto da chuva, ou seja, são coletadas, processadas e engarrafadas sem mesmo ter tocado o solo. Incrível! Paga-se fortunas por uma água importada. Você pagaria até 70 reais por 750 ml de água só porque veio da Lapônia? Eu não. 

Não tenho nada contra quem gasta fortunas com água. Vivemos numa sociedade livre e cada um faz com o seu dinheiro o que bem entender. Porém, o que preocupa aqui é a falta de consciência com relação aos custos ambientais de alguns hábitos e costumes da sociedade. São questões que poderiam ser facilmente evitadas se tivéssemos mais consciência dos danos que causamos para o planeta.  Imaginem a quantidade de emissão de carbono desnecessária, ou seja, que poderia ser evitada, somente nesta questão das águas engarrafadas. Coletar, processar, engarrafar (fabricar as garrafas plásticas) e transportar as águas ao redor do mundo tem, por óbvio, grande impacto ambiental. Segundo o site”World Counts”, apenas vinte por cento das garrafas plásticas são recicladas. E mais, 1.500 garrafas plásticas são descartadas em aterros sanitários ou no oceano a cada segundo, o que representa 130 milhões de garrafas por dia no mundo. 

 Vejam que não estou fazendo nenhuma apologia contra o uso da água engarrafada. Eu mesmo, até pouco tempo atrás, era um forte adepto do produto. É evidente que, em muitas situações e lugares,  a condição da água encanada não é apropriada para o consumo. Isso é um fato que gera a falta de confiança (legitima) na água da torneira. Porém, dizem os especialistas que, com o uso de um bom purificador, é possível beber água de qualidade sem causar danos nem para o meio ambiente e nem para o próprio bolso. 

Haverei de ser contestado por pessoas que defendem as propriedades diferenciadas provenientes destas tais águas minerais. E eu não estou negando este fato. Não sou especialista em águas. De novo, cada um consome a água que bem entender e paga o preço que quiser. Eu não tenho nada a ver com isso. O que me causa angustia e perplexidade, como habitante do planeta terra, é saber que, diariamente,  navios e aviões cruzam o mundo repletos de garrafas chiques carregando simplesmente e tão somente água. 

*Fernando Goldsztein, empresário. Fundador do The Medulloblastoma Initiative.

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